Žižek sobre a ciência moderna

No meu resumo de “Sede Sábios, Tornai-vos Profetas” do post anterior dei mais ênfase às passagens em que Charpak se lamenta do distanciamento entre filosofia e ciência, citando autores que apesar de tudo ele elogia. Charpak deixa bem claro que a ciência só tem a ganhar se conseguir estreitar esse fosso com a filosofia, não é de modo nenhum sua intenção criar clivagens estéreis entre as duas disciplinas.
Na obra “La subjectivité à venir” (Flammarion, 2006), Slavoj Žižek tem várias passagens sobre a ciência que ajudam a estreitar esse fosso (tal como no artigo citado pela Palmira Silva), formulando o problema identificado por Charpak quase nos mesmo termos:

… l’impasse réside simplement aujourd’hui dans le fait que le savoir scientifique ne nous sert plus de “grand autre” symbolique. Le fossé entre la science moderne et le bon sens aristotélicien de l’ontologie philosophique est ici insurmontable: si un premier signe de ce fossé se repère avec Galilé, il se creuse de manière extrême avec la physique quantique, lorsque nous avons affaire à des lois et des règles qui fonctionnent dans le réel bien qu’elles ne puissent plus être retraduites dans notre expérience de la réalité représentable“, pag. 103.

Também sobre Heidegger, Žižek refere-se de uma forma semelhante às considerações de Charpak, classificando algumas das suas posições como “totalmente ambíguas”, embora ressalvando que existe muita crítica simplista para tentar desacreditar o filósofo (pag. 57).

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3 respostas a Žižek sobre a ciência moderna

  1. z diz:

    e ainda se está no domínio da phronesis aristotélica esquecendo que em Platão era apenas reflexão

  2. A propósito da questão central da filosofia moderna – a questão da “subjectividade” -, há estudo recente que tem por título “Objectivity” (New York, 2007) e no qual os autores, Lorraine Daston e Peter Galison, apresentam uma explicação sobre a forma como a “objectividade” (palavra que deve ser entendida num sentido que se afasta da filosofia kantiana, em que “objectivo” e “universal” coincidem) se constituiu como marca do “científico”. Acabam por mostrar também (a meu ver de modo convincente) o seguinte: propor uma aproximação da ciência à filosofia (teoria) é algo errático porque não existe forma de estabelecer uma distinção entre o “ver X” e o “ver X como qualquer coisa”. Afinal, o que é ver “sem teoria”? Como dizia um filósofo, será o ponto de vista de Deus?

  3. ezequiel diz:

    é Autres pa tudo. O Autre daqui a dias tb serve para apresentar menus de restaurantes vegetarianos.

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