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Sede Sábios, Tornai-vos Profetas

9 de Janeiro de 2009 por Rui Curado Silva
Georges Charpak (Nobel da Física em 92) e Roland Omnès são autores do livro de título irónico “Sede Sábios, Tornai-vos Profetas“. Este livro surge na sequência de “Feiticeiros e Cientistas“, uma publicação conjunta entre Charpak e Henri Broch, onde ensina o leitor a identificar através da matemática, da estatística e da lógica, os truques e as artimanhas de astrólogos e de outros charlatães. Neste “Sede Sábios, Tornai-vos Profetas“, Charpak parte da história da conhecimento e do método científico para analisar a relação da filosofia e da religião com a ciência. Charpak analisa a resposta da filosofia e da religião aos novos desafios colocados pela física moderna, pelo afastamento das leis da natureza da intuição humana e pela transcendência da dimensão humana quando analisamos a imensidade do universo ou quando estudamos partículas sub-atómicas.

Charpak analisa as reflexões de Hume, de Kant e de Nietzsche sobre a ciência. Curiosamente, apesar de estar entre os que mais rapidamente a percebem a importância do método científico, Nietzsche é um dos primeiros a contestar o desenvolvimento da teoria atómica realizada por Dalton e Thompson e critica fortemente o darwinismo. Mais tarde, a aceitação da mecânica quântica sofreu grande resistência de filósofos que deram valiosos contributos para clarificar o significado do conhecimento da científico como Russell, Husserl ou Wittgenstein. Charpak dedica uma secção a Heidegger onde transcreve algumas passagens obscuras que revelam um considerável afastamento entre a sua filosofia e a ciência.
Nesta obra pouco divulgada entre nós, Charpak lança algumas pistas que poderão ajudar a perceber o que está na origem de alguns dos casos de pseudo-ciência apontados por Boghossian na obra recomendada pela Palmira Silva, que já está na minha lista de próximas aquisições.

Comentários

Comentário de Carlos Vidal
Data: 9 de Janeiro de 2009, 16:53

Assim muito sinteticamente (e com riscos de simplismo), o problema de Heidegger não é com a ciência, o seu problema é com a técnica.

Comentário de Rui Curado Silva
Data: 9 de Janeiro de 2009, 16:58

De facto há uma passagem que é muito clara sobre o problema com a técnica. Mesmo as outras passagens que o Charpak transcreve estão, nem que seja remotamente, relacionadas com a tecnologia.

Comentário de João Urbano
Data: 9 de Janeiro de 2009, 18:11

Nietzcshe pode até criticar o Darwinismo mas não deixou de ser tremendamente influenciado por Darwin. Por outro lado estar a pôr no mesmo saco astrólogos e filósofos como os citados no post parece-me um tanto descabido. E que eu saiba a fisica quãntica foi difícil de engolir por Einstein e muita da ciência hoje aceite teve que se impor aos poucos dentro da comunidade cientifica. Quantos fisicos teóricos hoje não odeiam a teoria das cordas (seja ela verdadeira ou falsa), e por aí fora. A produção de ciência não é um processo automáticamente concensual e transparente. Quanta luta, quanta polémica, e por aí fora. Por fim, seria interessante também fazerem um levantamento de todos os disparates filosóficos, metafisicos e outros (mesmo científicos) que sairam da boca e da pena de iminentes cientistas. Esta de insistir na separação das duas culturas, de acirrarem uma contra a outra já foi chão que deu uvas, hoje em dia instiga a cegueira e um certo fundamentalismo.

Comentário de Rui Curado Silva
Data: 9 de Janeiro de 2009, 22:40

“estar a pôr no mesmo saco astrólogos e filósofos”

Não é de modo nenhum essa a intenção do Charpak nem a minha. Ele tenta explicar o afastamento do pensamento filosófico da ciência “pelo afastamento das leis da natureza da intuição humana e pela transcendência da dimensão humana quando analisamos a imensidade do universo ou quando estudamos partículas sub-atómicas”.
Houve pseudo-ciência que aproveitou esse vazio, mas ele não acusa os filósofos em si, apenas reforça a ideia dificuldade de fazer aceitar novos conceitos, são problemas normais das épocas em questão.

Comentário de Rui Curado Silva
Data: 9 de Janeiro de 2009, 22:44

“insistir na separação das duas culturas, de acirrarem uma contra a outra”

A intenção do Charpak é exactamente a contrária. Eu comento a passagem em que ele lamenta o afastamento que se verificou no sec XX para ligar ao livro sugerido pela Palmira. Mas o Charpak chama várias vezes a atenção que a ciência só tem a ganhar se esse fosso for estreitado.

Comentário de João Urbano
Data: 9 de Janeiro de 2009, 23:44

O assunto daria pano para mangas e não li o livro do Charpak. Apenas comentei o post e o que tinha de implicito ou o que sugeria. Mas a aproximação das duas culturas tem duas vias. Não apenas a dos filósofos se aproximarem da ciência, mas esta tentar entender os filósofos ditos obscurantistas(segundo a Palmira). Para mais, muitos desses filósofos, um Delleuze por exemplo, deve muito à leitura que fez de disciplinas cientificas como a física, a biologia, etc. Se lerem Heidegger verão que ele antecipou um Damásio. Basta ler a parte de ser e tempo que ele trata da disposição e do humor. E isto para não falar da filosofia analitica, tão próxima da ciência. Aqui também existe um preconceito dos cientistas das ciências duras que acham que têm um acesso priveligiado à verdade e que condenam todas as demais formas de conhecimento que não entendam a verdade como adequação. E quando falamos de ciências falamos também das menos duras, das que dificilmente são formalizáveis em termos lógico-matemáticos, pelo que o tema é cheio de nuances e propício a mal entendidos. Se podemos afirmar que muitos grandes filósofos não dominam por dentro a fisica quântica ou a biologia molecular também a maioria dos fisicos e biólogos não pesca nada de literatura, ou de filosofia ou de arte contemporânea. O que sabe por outro lado um tipo da inteligência artificial de física?… Estou a ser primário. Mas o que é preciso entender é que estamos na era das hibridações e dos cruzamentos disciplinares que certamente passaram ao lado do livro de Charpak. Puxando a brasa à minha sardinha, numa revista como a NADA temos artistas a trabalhar com a biologia ou com a inteligência artificial ou biólogos a falar de bioarte, etc. A questão da tecnociência tornou-se central para muitos do pensamento e da arte que emerge nos nossos dias.

Comentário de Rui Curado Silva
Data: 10 de Janeiro de 2009, 1:15

“Não apenas a dos filósofos se aproximarem da ciência, mas esta tentar entender os filósofos ditos obscurantistas.”

O afastamento de cientistas da filosofia é também um problema real, sobretudo no que toca à desvalorização da importância desta disciplina. Como deve imaginar oiço muitos comentários depreciativos desse tipo por parte de colegas meus, sei o que isso é.

Em relação ao obscurantismo, existe uma fronteira muito clara entre o que se enquadra na ciência ou não, essa fronteira é definida pelo método científico. É método científico que nos permite determinar se a hipótese que colocamos explica as observações ou não. E essas observações podem ser relativas a pensamentos, sonhos, ideias, sentimentos (onde entra o Damásio, por ex.) como podem ser relativas a coisas mais “palpáveis” como planetas, florestas, micróbios, etc. O problema da pseudo-ciência alvo do livro que cita a Palmira é que esta não se enquadra no método científico ou porque valida hipóteses sem observações que a fundamentem (o caso da astrologia) ou porque falseia observações para validar uma hipótese. E na maior parte das vezes isso está na cara e é óbvio para os cientistas que andam há muitos anos nisto, por isso nesses casos não há nada para tentar entender.

Um exemplo:
Antes do golpe do Sokal, já conhecia a teoria sociológica dos electrões do Prof. Boaventura. Aquilo não tem nada que entender, está na cara que o Prof. Boaventura não percebeu a física que descreve o comportamento dos electrões. Não é simples, não é intuitiva, mas com um bocadinho de esforço chega-se lá. Suspeito que o livro que aconselha a Palmira trata em parte de casos deste tipo. Casos que resultam de divagações pseudo-científicas, umas mais conscientes que outras, sobre problemas científicos pouco intuitivos e fora do nosso horizonte dimensional que vai dos mm às dezenas de km. Em geral hipóteses sem qualquer ligação às observações. Na fase que precede a formulação da hipótese, os cientistas também têm ideias extravagantes, obscurantistas ou que lhe quiserem chamar. O problema é que enquanto as observações (que podem ser indirectas e mesmo muito indirectas em certos casos) não verificarem a hipótese não têm a lata do Prof. Boaventura para fazer afirmações categóricas.

O Charpak não pretende insinuar que Heidegger está completamente errado, apenas formula dúvidas sobre alguns dos seus comentários sobre a ciência e a tecnologia. E até tem a humildade de reconhecer que não percebe certas passagens dos seus escritos. O mesmo se aplica a Nietzsche (que elogia bastante) e aos outros filósofos que contribuíram para a compreensão da ciência.
Também não me atrevo a classificar como embuste o trabalho especificamente de sociologia do Prof. Boaventura, apenas posso constatar que as incursões que ele faz fora do seu domínio nem sempre correm bem. Mas o que me preocupa mais é perceber que o Prof. Boaventura (que é um cientista social) utiliza o método científico (espero bem) no seu trabalho por instinto, isso preocupa-me muito mais.

Comentário de João Urbano
Data: 10 de Janeiro de 2009, 12:54

Sabe, não se pode pôr num mesmo saco um Delleuze ou um Heidegger com um Boaventura Sousa Santos. Não se podem usar os disparates do que alguns disseram sobre ciências duras, por exemplo, para demolir todo um campo de reflexão. Mas se atentar bem, muito do que físicos e outros eminentes cientistas proferem a respeito de algo exterior à sua disciplina ou mesmo dentro do âmbito de um saber não temático não é muitas vezes melhor. Por outro lado a ciência não é impoluta, um novo tipo de sagrado ou de saber intocável. Bem pelo contrário. Grande parte da nossa vida como sabe não é passivel de se sujeitar ao dito método, nem a ciência comanda os nossos actos coitideanos, senão a vida seria impossivel. Por fim, o dispositivo ciência, laboratórios, instituições, financiamentos, etc, assim como os seus efeitos escapam muitas vezes ao dominio da ciência ou da tecnociência ou ela tem de arranjar novos meios de cura, de reparação dos danos causados. A tecnologia como muitos querem fazer crer não é neutra, não se trata apenas do bom ou mau uso dela. Em suma, a ciência não diz respeito apenas a seus agentes, aos peritos, ela tem implicações no nosso mundo de vida e entrelaça-se com lógicas de poder industrial, nacional, etc. Diria até que a tecnociência é hoje a força determinante do nosso porvir. E por isso passível de critica por parte dos não cientistas, seja boa ou má, mal ou bem elaborada, ingénua ou informada. Isso, parece-me inescapável. Se existem cientistas que buscam a imortalidade em seus laboratórios, é compreencivel que tipos de seitas New Age proliferem, etc. O senso-comum é crédulo e a tecno-ciência oferece-lhe de mão beijada novas aspirações à mão de semear. O assunto como vê é poliédrico.

Comentário de ezequiel
Data: 12 de Janeiro de 2009, 3:08

O que é que o herman josé tem a dizer sobre isto?

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