Coisas que me sugere a leitura do DN de hoje

Embora custassem ambas quinze escudos, sempre preferi a colecção Vampiro à Argonauta, e o estudo da história à adivinhação do futuro. Em parte porque o futuro não pode ser adivinhado (o principal interesse das profecias consiste em dizer-nos o que não vai acontecer), em parte porque a história ilumina permanências do comportamento humano cujo conhecimento é mais útil para interpretar o presente onde realmente vivemos do que qualquer ensaio de futurologia. Mas para além dos argumentos puramente intelectuais que me levam a preferir o estudo do século XIX ou do século XX à antecipação do que serão os séculos XXII ou XXIII, devo admitir que existe também uma dimensão estética nesta escolha: reconheço que padeço por vezes daquilo que poderá ser classificado como um certo excesso de racionalidade, e que me dou mal com a sucessão (por definição) caótica dos eventos, difícil de enquadrar em categorias mentais já estabelecidas e demorada de enquadrar em categorias mentais a estabelecer, e para além disso reajo mal a certas manifestações contemporâneas da cultura popular de massas, que corporizam o processo a que Fredric Jameson, inspirando-se em Brecht, chama “plebeízação”, e que, como Perry Anderson sublinha, não corresponde a uma verdadeira democratização da cultura porque não é acompanhada de nenhum “empowerment” político das massas, apenas a uma variação tardia (logo fársica, diria Marx) do pão e circo de outras eras.

São dez da noite, folheio um dos nossos principais diários da manhã, e descubro as desventuras automobilísticas do CR7, o démodé das suas sobrancelhas depiladas, o bling bling dos seus trapinhos e, melhor do que isso, a pérola que é o romance entre dois outros “famosos”, dois apresentadores de televisão que vão agora casar-se em segundas núpcias: ele diz que é “muito conservador”, não vai apenas viver com ela, vai mesmo casar, e gostava que fosse pela igreja, mas como antes já casou pela igreja agora não pode ser, e tem pena, mas ainda não desistiu de procurar “outra igreja onde possa fazê-lo”. Será reaccionário preferir o tempo em que as pessoas tinham – ou não tinham – uma relação mais “tradicional” com a igreja do país (um conceito mais do impreciso, reconheço) a esta espécie de church shopping, em que o serviço religioso é só mais um, como o catering ou o valet parking, contratado para assegurar o sucesso de um evento absolutamente vazio de sentido, para além do efeito publicitário que é suposto provocar junto dos leitores da imprensa cor de rosa? Reconheço que não é evidente, preciso de pensar melhor no assunto.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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3 respostas a Coisas que me sugere a leitura do DN de hoje

  1. Caro, andas enganado a maioria dos livros de ficção científica falam exclusivamente do presente, por muito que finjam um futuro. Muitos foram escritos em tempos que não se podia criticar livremente o que existia, outros usam esse artifício para marcar pontos de vista. Todo o bom livro de FC tem a capacidade de capturar, nas linhas, traços fundamentais do que somos. Repara nos primeiros livros sobre utopias e distopias.

  2. Concordo com o comentário anterior: “a maioria dos livro de ficção científica falam exclusivamente do presente…”.
    Embora também preferisse a Vampiro à Argonauta. Mas havia um autor de FC muito interessante, com um nome russo… não me ocorre agora… Azimov?
    Cumprimentos.

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