Sokal: messias ou anticristo?

Depois de tanto se glosar a partida que Alan Sokal pregou à revista Social Text há uma dúzia de anos, talvez fosse bom relembrar o que foi ao certo que o físico americano, com a ajuda de Jean Bricmont, fez. Eles não conseguiram, como muitos parecem pensar, fazer prova de que todas as ciências sociais são obra de parlapatões alucinados. Quanto a mim, a porção mais significativa (e divertida) deste caso foi a exposição de nacos de prosa como este:
«D’où résulte qu’à calculer celle-ci, selon l’algèbre dont nous faisons usage, à savoir :
Schema 1
avec S=(-1), on a : Schema 2

… C’est ainsi que l’organe érectile vient à symboliser la place de la jouissance, non pas en tant que lui-même, ni même en tant qu’image, mais en tant que partie manquante à l’image désirée: c’est pourquoi il est égalable au Schema 3 de la signification plus haut produite, de la jouissance qu’il restitue par le coefficient de son énoncé à la fonction de manque de signifiant: (-1).» [Lacan(1971); séminaire tenu en 1960]
Reproduzir coisas destas não é gozar com autores que «recorrem à matemática mas no seu contexto», não permite dizer que «Lacan usa a matemática a seu modo», nem fazer comparações com as esculturas de Tinguely (estas aguentam-se em pé e não explodem ao mínimo escrutínio). É apenas apontar um exemplo de terminologia matemática empregue sem qualquer sentido e de forma totalmente desnecessária. Um entre muitos, diga-se.
É tão simples quanto isto: ninguém ganha se o pensamento se deixar mascarar por uma linguagem voluntariamente obscura, recorrendo de forma trôpega e incompreensível a um jargão para-científico que só obscurece as questões. É mesmo preciso invocar i para falar do pénis?

PS: Não sei se a sabotagem de Sokal adiantou alguma coisa. Hoje em dia, filósofos como Badiou continuam a usar coisas como a teoria dos conjuntos, por vezes de formas algo… peculiares.

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