Sokal: messias ou anticristo?

Depois de tanto se glosar a partida que Alan Sokal pregou à revista Social Text há uma dúzia de anos, talvez fosse bom relembrar o que foi ao certo que o físico americano, com a ajuda de Jean Bricmont, fez. Eles não conseguiram, como muitos parecem pensar, fazer prova de que todas as ciências sociais são obra de parlapatões alucinados. Quanto a mim, a porção mais significativa (e divertida) deste caso foi a exposição de nacos de prosa como este:
«D’où résulte qu’à calculer celle-ci, selon l’algèbre dont nous faisons usage, à savoir :
Schema 1
avec S=(-1), on a : Schema 2

… C’est ainsi que l’organe érectile vient à symboliser la place de la jouissance, non pas en tant que lui-même, ni même en tant qu’image, mais en tant que partie manquante à l’image désirée: c’est pourquoi il est égalable au Schema 3 de la signification plus haut produite, de la jouissance qu’il restitue par le coefficient de son énoncé à la fonction de manque de signifiant: (-1).» [Lacan(1971); séminaire tenu en 1960]
Reproduzir coisas destas não é gozar com autores que «recorrem à matemática mas no seu contexto», não permite dizer que «Lacan usa a matemática a seu modo», nem fazer comparações com as esculturas de Tinguely (estas aguentam-se em pé e não explodem ao mínimo escrutínio). É apenas apontar um exemplo de terminologia matemática empregue sem qualquer sentido e de forma totalmente desnecessária. Um entre muitos, diga-se.
É tão simples quanto isto: ninguém ganha se o pensamento se deixar mascarar por uma linguagem voluntariamente obscura, recorrendo de forma trôpega e incompreensível a um jargão para-científico que só obscurece as questões. É mesmo preciso invocar i para falar do pénis?

PS: Não sei se a sabotagem de Sokal adiantou alguma coisa. Hoje em dia, filósofos como Badiou continuam a usar coisas como a teoria dos conjuntos, por vezes de formas algo… peculiares.

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37 respostas a Sokal: messias ou anticristo?

  1. Carlos Vidal diz:

    Talvez possamos começar por Badiou: é um caso diferente de Lacan. Badiou é matemático, a matemática é inseparável da sua filosofia desde o início do seu trajecto. Só que, cito de memória, Badiou sempre viu na matemática (Cantor, Gödel, Paul Cohen ….) uma ferramenta também política, uma arma, aliás, e o que cito de memória é uma frase de Lautréamont – a matemática é um veneno mais doce do que o mel (sendo a álgebra, a aritmética e a geometria a Santíssima Trindade para o criador de Maldoror – e aqui está um autor em que Sokal não reparou). A ideia base do nosso amigo (meu e do Bruno, pelo menos) maoista é a de que a matemática é um equivalente da ontologia, é a ciência do ser, e a teoria dos conjuntos é aquela ferramente que permite conhecer o ser-enquanto-ser: é na igualdade entre os elementos de um conjunto (no seio desse conjunto) que Badiou vê o retrato do ser: se somos, somos, se não somos não somos (e se somos, somos “iguais”) – isto, que até vem de Parménides (só o ser é), diz Badiou, é expresso pela matemática e não pela filosofia (ontologia). E não me parece muito complicado.
    O texto crítico que linkas não é muito bem escolhido, permite-me. O autor confessa-se “não impressionado” por Badiou (e se este não impressiona o crítico, tal não faz de Badiou um matemático falível), o crítico que linkas diz-se, quanto à matemática, “enferrujado” e acresce que algumas incorrecções que detectou podem dever-se às traduções para inglês. Ele critica Badiou, mas com muitas ressalvas. Só lhe falta pedir desculpa por qq coisinha de que se tenha enganado.

    Em relação a Lacan, vejamos a primeira equação: diria que me parece razoável que o “enunciado” resulte de uma equação entre o “significante” e o “significado” – é um trabalho longo em Lacan que se reporta à sua teoria do inconsciente, o qual, diz o psicanalista, funciona como a linguagem. Sokal não discutiu tal tese central do autor, não sabe de certeza precisar em que é que isso inova em relação à teoria do inconsciente de Freud (que valorizava mais factores orgânicos ou biológicos), Sokal tb não analisou a forma como Saussurre e Jakobson produziram os conceitos que Lacan usa, logo não se pode considerar certeiro o “tiro” de Sokal (teria de gastar um livro só para Lacan e a sua “galáxia”); quanto à segunda equação, creio ser necessário analisar o texto todo de onde parte. Mas, o essencial é que um tipo anti-intelectual como Sokal poderia, se quiser continuar a ridicularizar o que não entende, prolongar o seu “estudo” irónico noutros momentos da obra de Lacan. Dou-te um exemplo: se eu descontextualizar a definição de amor de Lacan, ela soa a ridículo e a algo que não faz sentido. Quer dizer, se eu não conhecer profundamente o pensamento do autor, acharei tão absurda esta frase quanto as suas equações; cá vai a definição de amor: “é dar aquilo que não se tem a alguém que não o quer”. Imaginemos que eu cito isto num livro para ridicularizar um autor. Efeito certo! Piada garantida! Não digo de onde vem a frase, não explico o seu pensamento – se usar esta frase isoladamente ou destrambelhadamente (e o artigo de Sokal era uma “paródia”) ela é vazio puro. Quer dizer, se eu quiser posso tornar tudo vazio. Por isso o Nuno acertou em cheio: Sokal é quando um homem quiser.

  2. Pedro Arriba diz:

    Por que tem a faculdade de Belas-Artes um “assistente” de capacidade cognitiva diminuida?

  3. Pingback: cinco dias » Sokal e Dorgelès, ou a hemenêutica e o burro

  4. Luis Rainha diz:

    Tanto quanto consigo investigar, Badiou sempre se interessou por matemática mas não é matemático. Nos comentários ao texto em questão, são feitas outras acusações relevantes como o uso de axiomas de Zermelo-Fraenkel de forma independente, sem os tomar como um todo. Mas como não li o “L’être et l’événement”, não tenho opinião.
    Quanto a Lacan, Sokal não precisa de sequer aflorar as suas ideias; não é disso que se trata aqui. O problema é a forma como ele e muitos cobrem o seu pensamento com camadas e camadas de linguajar pseudo-matemático. Aqui, não dou o salto (nem tal me parece justo) de presumir que estes autores o fazem para esconder o vazio das ideias expostas; parece-me mais um desejo de aparentar mais e mais complexidade e profundidade.
    Isto não é descontextualizar: não há contexto capaz de dar algum sentido ao excerto que acima reproduzi.
    Não interessa nesta discussão o que Sokal poderia ou não fazer; certo, preciso e exacto é que esta passagem de Lacan é absurda, pretensiosa, obscurantista e inútil.
    A frase que citas, “é dar aquilo que não se tem a alguém que não o quer”, deixa-me a imaginar possíveis significados; as suas “equações” dão-me apenas vontade de rir. Uma coisa é tomar liberdades poéticas e apresentar definições complexas – outra bem diferente é inventar disparates com o fito aparente de impressionar quem percebe menos ainda de matemática.

  5. “Uma coisa é tomar liberdades poéticas e apresentar definições complexas – outra bem diferente é inventar disparates com o fito aparente de impressionar quem percebe menos ainda de matemática.”

    Houve um exemplo interessante num outro comentário num outro post:

    “felizmente o Maldacena é físico e abriu coisas belas, demonstrou a equivalência entre um corpo pesado (na esfera) e um espectto colorido na superfície”

    A frase revela que o seu autor leu algures uma descrição vaga da dualidade AdS/CFT, um dos tópicos fundamentais da física moderna. A frase está incorrecta a vários níveis (gravidade não é “corpo pesado” e campos de gauge não são “espectro colorido”), mas achei-lhe piada.
    Isto é bem diferente do que faz o Lacan.

  6. Carlos Vidal diz:

    Le Corbusier estudou poucos anos várias disciplinas artísticas na École des Arts Décoratifs em La Chaux-de-Fonds com Charles L’Eplattenier, que decidiu (foi este professor que decidiu e não um “diploma”) que Le Corbusier seria arquitecto. Nunca me passou pela cabeça não chamar a Le Corbusier arquitecto. Com mais dois ou três nomes (Wright e Mies) eles não são os pais nem os filhos da arq modernista: else são mesmo a arq modernista. De Badiou digo o mesmo: é um matemático por ter tido formação matemática, é-o como Corbu é arquitecto. Tentei trabalhar alguns dos seus usos de certos axiomas com um investigador conhecido (não interessa quem) da teoria dos conjuntos e de Cantor e Zermelo-Fraenkel, e nada a apontar. Apenas algumas questões “particulares” de notação se diferenciam, mas nada de substancial há a apontar. Se Badiou, maoista, tivesse as “fragilidades” de Lacan, pobre homem, há muito que tinha sido dizimado por esse lado, pelo lado da matemática. E é óbvio que por aí ninguém lhe tocou. Pelo maoismo, sim. Mas a política já é aqui outra conversa, claro.
    Lacan.
    Lacan é um caso mais complicado. As equações citadas dizem respeito ao seu uso da linguística saussurriana e jakobsoniana para a caracterização do inconsciente e á sua noção de jouissance. Eu sei o que significa a jouissance em Lacan. É um conceito claro e preciso. Agora vou fazer a coisa ao contrário: espero que quem aqui prontamente se aoresentou a criticar Lacan que me defina jouissance em Lacan.
    A porcaria da net está cheia de definições e pilhar uma delas não chega. Talvez (espero) eu consiga apanhar o espertinho que quer falar de Lacan a apartir de uma qq Wikipedia. Estou à espera da definição competente de jouissance. Depois logo se vê.

    Já agora, o imbecil que se assina por Pedro Arriba (nome idiota) que se apresente melhor e que diga ao que vem e porque vem. Estou disponível para lhe dar o meu lugar de “assistente”.
    E espero que o tolo fale um pouco de Lacan também.

    A Palmira Silva não está a ler este comenmtário, certamente. Mas tb está convidada a definir jouissance e os usos linguísticos de Lacan, etc.

  7. MP-S diz:

    Caramba, seremos policias no giro a escrutinar, pelas esquinas dos livros e dos seminarios, os comportamentos (intelectuais) menos conformes aos bons costumes?

    Se alguem le o Lacan acima, acha risivel a relacao entre sqrt(-1) e o orgao erectil (presente!), adiante e segue em frente … Uma parvoice e’ uma parvoice e’ uma parvoice … e nada mais e’ do que uma parvoice.

    Pior so’ mesmo andar a perder tempo (e posts e, absurdo dos absurdos, livros!) com parvoices. E’ que ja’ so’ faltam teses de doutoramento que venham a desmascarar as perigosissimas interpretacoes feministas acerca do conteudo e estrutura social de poder falico subjacentes de modo implicito ‘a mecanica dos fluidos.

    (corolario: nao e’ nem messias, nem e’ anticristo — e’ apenas parvo)

  8. Carlos Vidal diz:

    Continuo à espera que me falem de Lacan seriamente.
    Quanto mais tempo passa, mais conta, claro, o tempo wikipédico
    (tb podem ir pilhar a outros eficazes sites, mas o tempo parece estar a contar).

  9. MP-S diz:

    Pela minha parte, nao vou perder tempo com o Lacan. Prefiro o Anti-Edipo e Mille Plateaux (nao ha’ pachorra para mais papa’ e mama). O Foucault tambem nao era parvo e escrevia coisas interessantes. Mas tambem nao devia suportar o Derrida (nao vou reproduzir a citacao do Foucault sobre o Derrida que esta’ na wiki em ingles 🙂 ) Melhor e’ perder o tempo com coisas mais interessantes: Rimbaud, Artaud, Michaux, Clezio …. o tempo nao e’ infinito.

  10. Carlos Vidal diz:

    Concordo com a ironia de MP-S.

    Quanto ao imbecil Arriba e ao físico (acho eu) F Moura, o tempo de pesquisa wikipédico acabou-se. Não tenho paciência.
    O Lacan é mesmo um tonto, têm razão.
    Tudo o que aqui acrescerem é aqui certo e seguro.

    O idiota Arriba (nome fascista que evoca “arriba España”, coisa pertinente – vale mais fascista que tonto) ganhou, como prémio, o meu lugar de “assistente”.

    E pronto. Vou dormir.

  11. Luis Rainha diz:

    Carlos, não é produtivo procurar a vitimização por interposta pessoa. Estamos aqui a falar do uso a despropósito da terminologia matemática. Não das ideias do Lacan; o facto de a noção de “jouissance” fazer sentido em nada altera a asneira em apreço. O que está aqui em causa não é um qualquer conceito lacaniano, mas sim, e apenas, o disparate absoluto contido em passagens como esta. Só isso. Não adianta a manobra da areia nos olhitos.
    E mencionar Le Corbusier é igualmente inútil: ele deixou obra própria (e excelente) na Arquitectura e Lacan ou Badiou nada fizeram de similar com a Matemática. Continuo é sem ver vestígios credíveis da tal formação deste último como matemático…

  12. Só um acrescento, Luís: quando referia “Isto é bem diferente do que faz o Lacan”, queria dizer “na passagem que transcreves”, e não na obra dele, que desconheço. O Sokal com certeza conhece-a muito melhor que eu.

    Equivalente à frase que transcrevi seria especular sobre alguma relação entre massa ou densidade e espectro colorido, baseado na dualidade AdS/CFT (é melhor calar-me para não dar ideias a esta gente). A frase que eu transcrevi não é para levar a sério, mas tem piada, sim senhor.

    MP-S, meu mestre das séries de Fourier, comprrendo a tua posição. Conheço outros cientistas que acham também que ler o livro do Sokal é uma perda de tempo sobre perdas de tempo. Talvez seja, para um cientista. Mas o livro e o artigo do Sokal em si não são nenhuma perda de tempo (para quem lê o que neles é abordado). Desmontar uma impostura nunca é uma perda de tempo.

  13. joão viegas diz:

    Concordo inteiramente com o que diz o Luis Rainha. Basta ler o livro para perceber que o proposito é apenas esse : criticar a ignorância que esta por baixo do pedantismo. Tive ja uma pega com um epistemologo que organizou uma colectânea de textos a atacar o livro de Sokal e que me explicou que se tratava de um livro totalitario, em que os autores pretendiam instaurar-se em policias do pensamento, etc. A critica erra o alvo e apenas mostra que os autores fizeram boa pontaria. Ou então devemos defender que o pedantismo é uma forma de pensamento intelectualmente respeitavel e desistir completamente do espirito critico que esta na base de qualquer empresa cientifica, ou filosofica…

  14. Carlos Vidal diz:

    Ó Luís, porque é que se pode discutir Lacan sem o conhecer, ou melhor, como é que se pode discutir Lacan e a matemática sem conhecer o Lacan, como dois tipos aqui nos comentários estão a fazer?
    Quanto ao Badiou, novamente digo que a situação é diferente. Não sei em que escola aprendeu matemática, mas nunca até hoje vi a sua matemática ser posta em causa.
    Agora o essencial é isto, só isto: a matemática em Badiou, como ontologia ou ciência do ser, serve para defender a sua tese de igualdade e a sua “hipótese comunista”. É pouco, usar a matemática para dizer que o nosso destino ou horizonte é o comunismo?

    (Afinal, acabei por não ir dormir)

  15. Carlos Vidal diz:

    Já agora sobre a merda do pedantismo dos intelectuais (o Goebbels era sim senhor mais honesto que estes gajos que aqui andam a comentar: “sempre que ouço a palavra cultura, saco do meu revólver” – estes tipos podem dizer: “sempre que ouço as palavras, arte, especulação e filosofia saco do meu revólver” – MAS NÃO SÃO CAPAZES – PORQUÊ?). Voltando ao início:
    Sobre a merda do pedantismo dos intelectuiais, algum anti-intelectual desta caixa (refiro-me aos comentadores e não ao Luís que escreveu o post sob a forma de interrogação, claro) é capaz de debitar aqui alguma coisa de jeito sobre Lacan?
    Uma porcaria de uma sílaba sequer?
    Uma trampa de uma letra??

  16. para desfazerem todas as dúvidas sobre Badiou, o melhor é perguntarem ao Bruno Peixe que até está a preparar uma tese de Doutoramento!!! sobre Badiou.

  17. Sérgio diz:

    Como o Luís voltou a sublinhar em comentário, o que está em causa não é a obra na totalidade de Lacan nem sequer qualquer ideia que não esteja no excerto que aparece no livro de Sokal e que Luís Rainha transcreve. O que o livro de Sokal questiona, assim como a sua paródia para a revista de ciências humanas, é o uso incorrecto de terminologia matemática nas obras dos autores em causa. Ninguém precisa de saber o que é conceito de “jouissance” em Lacan para perceber que o uso da matemática ou é apenas simbólico, e deste modo destituído de qualquer validade científica (Deleuze, que se licenciou em Matemática, faz isto por vezes de forma interessante) ou é puro pavoneamento intelectual, uma tentativa idiota de obscurecer o discurso – e este idiota não é gratuito; é idiota porque usa a matemática de forma errada. Qual a necessidade?

  18. Carlos Vidal diz:

    Sérgio aparece aqui a dizer que não é preciso conhecer a obra de Lacan para afirmar que o seu uso da matemática é pouco mais do que analfabeto. E eu continuo a afirmar que é preciso conhecer Lacan para afirmar que o seu uso da matemática é analfabeto. O Luís, citando Sokal exemplifica com duas equações interligadas. O que está aqui a causar estranheza é, suponho a segunda equação — a que passa de um -1 para a raiz quadrada desse -1. A outra, não pode causar estranheza: qual é o problema se Lacan vê na fracção que estabelece uma relação entre o significante e o significado a matriz do enunciado? O problema é que essa fracção assim despida não quer dizer nada, de facto, como uma obra de arte tb não quer dizer nada.

    Note-se que Sérgio, Sérgio Lavos, que aqui veio comentar agora, é um autor que escreveu no seu blogue (só reparei nisso há dias) que o 5dias ter alguém que é “especialista” em arte e estética é um luxo e um tiro no pé. Não sei é se é um tiro no meu ou no pé do Lacan.

  19. Sérgio diz:

    A equação nada tem a ver com a matemática; é uma simples transposição de uma ideia saussuriana para outra linguagem. Ora, o uso de equações matemáticas numa área do conhecimento que não exige esse uso é sempre um risco: ou cai-se no erro – e insisto que não preciso de conhecer profundamente Lacan para afirmar isto, basta-me conhecer os exemplos que Sokal apresenta no seu livro – ou envereda-se por um caminho que põe os cabelos em pé a qualquer pessoa da ciência – o do uso metafórico, e portanto subjectivo, de termos rigorosos e delimitados pelos cientistas. Imagine o seguinte, caro Carlos Vidal: um físico teórico vai à Tate Modern e, deslumbrado com a excelência técnica do telefone-lavagante de Dali, desata a escrever um ensaio no qual, através do uso de complicadas equações matemáticas, demonstra que aquela obra de arte é perfeita. Poderia ele fazer isso? E não há ironia na pergunta: acharia que a análise era credível?

  20. Carlos Vidal diz:

    Então se a equação nada tem a ver com a matemática, caro Sérgio, porque é que é matematicamente “analfabeta”, e porque é que Sokal deduz Lacan como impostor?

  21. Sérgio diz:

    A equação, neste caso, serve para condensar uma ideia, simplificar. Admito que, sendo assim, não é criticável pela gente da ciência. Mas o que é mais arrepiante é o que vem a seguir: o que é o -1 e a sua raiz quadrada têm a ver com a masculinidade e o falo? Esta é a essência da crítica de Sokal: o obscurecimento propositado de uma ideia através do uso incorrecto, ou no mínimo, estéril, da matemática.

  22. Carlos Vidal diz:

    E, para retomar o exemplo que em cima dou de Heidegger, o que é que o mundo como coisa concreta tem a ver com a luz, porque é que se pode dizer que o mundo ilumina e a terra fecha, obscurece? Quem policia isto? Quem é o Torquemada dos conceitos?

  23. Sérgio diz:

    Deve haver ou não rigor? Pode-se usar conceitos ou termos de um área noutra, qualquer que seja a situação? Quem decide isso? Se me disser que não vê qualquer problema na situação que eu proponho acima – um físico teórico demonstrar matematicamente a perfeição do telefone-lavagante – eu concedo que, do seu ponto de vista, Sokal errou. Mas, sendo assim, tudo é possível. Para quê aprender as coisas a fundo, se bastam os apontamentos da Europa-América?

  24. Carlos Vidal diz:

    Para legitimar como obra-prima o telefone do Dali, pode inventar conceitos, ou elaborar novos sistemas com conceitos existentes. A correcção de uma atitude de análise em arte (ou em ciência, porque não?) depende de uma sequência de utilizações pertinentes. Em psicanálise diz-se, por exemplo, que algo acontece quando acontece duas vezes (relação com a noção de trauma). Quando Panofsky escreveu sobre a perspectiva disse que ela não era apenas uma questão de representação espacial, mas o triunfo de uma visão antropocêntrica do mundo. No século XX, Clement Greenberg, que eu cito muito, disse que a essência da pintura era a “planitude” (flatness). Heidegger diz que a arte é o mundo iluminando a terra. Alain Badiou fala, e parece-me ser esse o critério, de uma autoconsistência dos conceitos. Se existir essa autoconsistência, estamos bem, digamos assim. Mas quem assegura essa autoconsistência? Voltamos ao princípio, deixemos que os conceitos sejam assegurados por uma sequência de utilizações pertinentes. Não consigo sair disto. E é uma atitude mais (auto)consistente que a de Sokal. Prefiro mover-me em círculo, diria Heidegger, do que em linha recta, à Sokal / Bricmont.

  25. A matemática ao serviço da política é absurdo. A ciência não tem nenhum tipo de responsabilidade social. Quem tem que a ter são os cientistas (que são humanos). Querer pôr a matemática ao serviço do comunismo é o equivalente (no outro extremo) do João Miranda, que a tenta pôr ao serviço do liberalismo. A economia não é uma ciência puramente social, mas também não é uma ciência puramente exacta. A economia não substitui a política.
    Curiosamente, o comentador cuja frase eu citei afirmou que foi despedido “por culpa dos físicos” e dos modelos por estes criados que foram aplicados à economia. Os físicos não criaram os modelos para isso e nem nesse contexto. Lamento a situação do tal comentador: perder o emprego é algo dramático. Mas fosse ele capaz e perceber isto que referi e se calhar não teria perdido o emprego.

  26. Pedro Ferreira diz:

    Meu caro Carlos Vidal, os meus afazeres profissionais não me permitem participar no debate com a assiduidade que seria desejável, mais tarde responderei sobre o fundo.

    Gostava só de corrigir a tua citação; é muito comum atribuir a frase “Quando oiço falar de cultura saco o meu revólver” a Goebbels (também já vi atribui-la a Goering e a Streicher), na verdade a frase de que esta foi tirada (que não fala de revólver mas de Browning) foi pronunciada por Baldur von Schirach (chefe das juventudes hitlerianas) num discurso em 1938 e é tirada de uma peça de teatro de Hanns Johst.

  27. Carlos Vidal diz:

    Pedro, aceito a correcção. Apenas fiz a citação por para mim ser claro que o anti-intelectualismo tem muitas facetas e todas elas são iluminadas por posturas de direita ou extrema-direita. O anti-intelectualismo dirige-se sempre aos conhecimentos de tipo artístico e especulativo, portanto aos conhecimentos aparentemente inúteis. Por exemplo, nas Belas-Artes sempre houve Geometria Descritiva (método Monge e perspectiva). A Descritiva que se debruça sobre a dupla projecção ortogonal (a questão da perspectiva é outra, como se depreende) sempre foi tida como inútil. Nas sucessivas reformas dos cursos de licenciatura sempre houve um critério que eu modestamente aplaudi: o da manutenção dos conhecimentos “inúteis” ou não aplicados directamente aos problemas específicos das licenciaturas em questão. É próprio de uma escola de arte e pensamento a defesa do “inútil”. E isto a direita vê com maus olhos. Porquê? Longo tema, claro que não se pode despachar meramente pela consideração de que a direita apenas olha para o lucro e a economia. Mas agora não iria mais longe no comentário e ficar-me-ia por aqui. Tb o espaço não abunda e esta é uma questão de fundo.

    A matemática ao serviço da política. Não foi exactamente isso que eu disse, acho eu. Quando muito disse que a matemática, entendida como ciência do ser e ontologia (Badiou) era / é política.

  28. joão viegas diz:

    Essa é boa,

    Li Lacan (não a tese sobre a paranoia, mas alguns dos “écrits”, em particular aquele sobre o imperativo kantiano). Não me deixou grande impressão. Posso estar errado e ter passado ao lado de um génio mas a questão não é essa.

    Em que é que no exemplo dado no texto a utilização da formula matematica é util, ou sequer consistente ?

    Censurar quem levanta essa questão (que não tem nada a ver com uma critica dirigida a todos os intelectuais ou sequer ao intelectualimso) é simplesmente cretino. A ciência e a filosofia (e o proprio Lacan) reclamam-se do espirito critico.

    Mas pelos posts que aqui deixou até agora, não me espanta nada que o Carlos Vidal não perceba esta afirmação elementar, e prefira optar por invectivar sem responder à objecção.

    Ou agora é considerado crime criticarmos um autor por acharmos que o que ele diz é charlatanismo? E ja agora, porquê so o Lacan ? Porque é que o Carlos Vidal não compara com Goebbels todos aqueles que dizem que um Bernard Henri Levi (por exemplo) não é um filosofo sério…

    Não ha paciência.

  29. Sérgio diz:

    Não percebo nada de filosofia nem tenho nomes nem citações para provar que sou crescido e que tenho cultura.
    Mas pelo que li aqui não terá o Sr. Lacan (não tenho familiaridade para o tratar de outro modo) usado a matemática da mesma forma em que um poeta poderá trucidar a gramática apenas para veicular melhor a sua ideia?

    E algum professor de português se dará ao trabalho de o denunciar?

    Se se trata apenas disso então penso que não há problema algum.

    Agora se o Sr. Lacan pretende que a Física se submeta ao Pensamento já estou como o outro, que desafie a fisica da janela do meu apartamento. É só um quinto andar. 🙂

    As elites intelectuais que aqui comentam que perdoem o meu comentário ignorante.

  30. Carlos Vidal diz:

    Caro Sérgio, estávamos a conversar calmamente e lá voltou o tema das elites intelectuais. Tema envenenado, que não entendo aonde nos pode levar.

    João Viegas, claro que Bernard Levy não só não é um filósofo sério como nem sequer é um filósofo.
    Agora sobre Lacan: uma última demanda. Imagine que o lugar do pénis, do desejo, da jouissance, etc, tinham em Lacan um factor, digamos assim, negativo, uma pulsão negativa. Que estes e outros conceitos tinham um papel negativo no contexto de uma determinada teorização. E que a sua negatividade era una, era uma unidade e negativa – porque não indicar tal conceito como -1 ?
    É preciso analisar seriamente aquilo sobre o que se quer falar.

  31. Sérgio diz:

    Ok Carlos, mas a minha questão era sincera e juntamente com o comentário ás elites podia ter respondido. Ficaria mais inclinado a tentar ler uma obra desse senhor se a minha primeira hipótese for correcta do que se for a segunda.

  32. Carlos Vidal diz:

    Sérgio, eu creio que é a primeira hipótese a correcta, quer dizer, Lacan usa a matemática não para a submeter ao pensamento mas para que o ajude a simbolizar mecanismos que ele julga terem uma certa exactidão. Apenas isso.
    O melhor texto introdutório (são muitos, que sei eu?) talvez seja o pequeno roteiro da Routledge Critical Thinkers, precisamente intitulado apenas “Jacques Lacan” (de Sean Homer).
    Mas estou aqui a falar como um aprendiz, pois não sou psicanalista nem advogado de Lacan.

  33. Joao Andre diz:

    Mas que caralho (termo muito a proposito) interessa a obra de Lacan para comentar a matematica dele? A matematica invocada naquele exemplo do Luis e inutil. Foi i mas poderia ter sido e ou outra merda qualquer. Foi aquilo que lhe apeteceu dar como exemplo. Isto nao serve como exemplo de matematica, como exemplo de filosofia, como exemplo de estetica ou como exemplo de sexo de pe encostado a um cavalete.

    A questao e simples: a matematica serve-se a si mesma e serve outras ciencias. Se os filosofos e os artistas a quiserem usar, forca, vao em frente. Se quiserem fazer algo com matematica, desde que esteja certa, sigam. Eu cago para o lado e assobio em frente. Desde que se venham sem sujar os outros, nao me interessa minimamente. Dizer que a matematica de Badiou (cujo nome e apenas isso para mim: um nome) nunca foi contestada nao tem nada de especial. O merceeiro onde a minha avo se abastecia tambem nao falhava uma continha que fosse (tambem era matematica) e nem por isso se auto-intitulava artista, filosofo, esteta ou matematico. Nao percebo por isso que raio vem a matematica ao caso.

    E usar a velha expressao da cultura e da pistola pergunto eu: sera que a ciencia nao e cultura? Sera que nao se pode falar em John Dalton com muito mais autoridade do que em Lacan (ou outro caralho-fascinado do genero?) quando se trata de cultura? E falando de caralhos, sera que nao se pode invocar John Holmes?

  34. Carlos Vidal diz:

    Caro João André, não leve a mal, mas gosto mais das gajas que o Holmes comia, com mais ou menos silicone, tanto faz.

    Se a ciência é ou não cultura. Basta ver o que tento dizer no post “FORA!” para perceber que não, não é cultura! É mesmo inimiga da cultura. E disso eu gosto.

  35. Joao Andre diz:

    Ignorancia, portanto.

  36. Ignorância só, não. Burrice. Quem afirma que “a ciência é inimiga da cultura” é burro! Se você não fosse tão inimigo da inteligência percebia o disparate que disse! Desafio-o a mostrar a sua burrice escrevendo isto num post!
    Não percebo quem pode pactuar com isto.

  37. Carlos Vidal diz:

    “Não percebo quem pode pactuar com isto.”
    Diz F Moura.
    Olhe, podem os tribunais e o presidente da República. Até agora, parecem estar de acordo comigo.

    Quanto à frase:
    «Quem afirma que “a ciência é inimiga da cultura” é burro! »

    Gosto desta última frase, mas abrasileirada:
    «Quem afirma que a ciência é inimiga da cultura é burro mesmo!»
    (Dizer com sotaque – uma maravilha)

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