Jacques Derrida e as ciências

derr
Especulemos um pouco, circunstância detestável para certo tipo de cientistas. Devemos distinguir entre homens e mulheres de ciências e meros empregados da ciência. Este último tende a abominar o pensamento especulativo, a artisticidade do pensamento especulativo – considera-o fraudulento, vê nele conceitos transviados, deslocados do seu lugar de origem, logo, erros e mais erros. O homem de ciência é diferente, ele conduz-se nem sempre por indução nem por dedução, mas por abdução, por probabilidades. Quer dizer, ele intui conclusões e hipóteses, e persegue-as, não parte mecanicamente do geral para o particular nem, cartesianamente, do particular para o geral, dos pequenos problemas para os grandes problemas, chegando apenas aos grandes depois de resolvidos os mais pequenos. Ora, o empregado da ciência desconfia da especulação e da abdução e chama fraude à especulação – vê descontextualizações conceptuais e erros em toda a parte, apropriações e usos errados de conceitos que a sua mente rigidificou: é a versão Sokal, tão apreciado por alguns como o desmistificador por excelência (??).


De há décadas, o empregado da ciência, não sei como nem porquê, decidiu embirrar com o termo pós-moderno (que eu também não gosto, mas não embirro) e tudo o que lhe parece demasiadamente estranho decide nem tentar entender, nem considerar últil. Por isso, sucede assim: não entendo Baudrillard, logo é pós-moderno; não entendo Derrida, logo é pós-moderno. Para o empregado, mero empregado da ciência, não há diferenças – tudo o que o seu mundo frágil e rígido não admite, é pós-moderno. Ora, entre Baudrillard e Derrida as diferenças são abissais, e podemos mesmo dizer que o primeiro é pós-moderno e o segundo não. Como o definir? Desconstrutivista? Talvez. É a desconstrução um pensamento pós-moderno? Não (respondo eu como se fosse cientista). Porque para Baudrillard há um excesso de “real” provocado pela profusão das imagens e aí o real torna-se hiper-real. Em Derrida, nunca as imagens (ou representações, diria Debord) serão suficientes para nos fazerem aceder ao real do real. Diz o empregado da ciência já: vejam este paleio, especulação e fraude. Digo eu: ó empregado, torna-te cientista.

Desde os anos 60, quando escreveu Le Système des Objects, que Baudrillard tranfere a sua atenção do sujeito para os objectos, porque, para ele, a produção e o consumo colocou o objecto em primeiro lugar (nada de espantar, portanto). Interessou-lhe não o objecto ou os objectos em si, mas aquilo que estes diziam uns aos outros, ou seja, uma sociedade em que o sistema de signos e a sua vizualização se impunha ao valor-de-uso dos objectos. Este interesse pela fantasmagoria do consumo e seu sinais nunca deixou de o perseguir. Em resumo, para Baudrillard, se o objecto se autonomiza do controlo do sujeito e do seu valor-de-uso, é o próprio real que se vai desvanecendo, perdendo dimensão física, táctil, se vai tornado hiper-real. O objecto torna-se uma inquietante estranheza (Freud) ou uma “parte maldita” (Bataille) que nos faz pensar numa ausência de real, ou num real que é feito dessa estranheza (algo que Baudrillard herda de Feuerbach e de Debord – pós-modernos!?). Nestes termos, a verdade, ocultada por este jogo de sinais, faz que não existe. Por isso, em 1981, Baudrillard, começa o seu Simulacres et Simulation recorrendo a uma fábula de Jorge Luis Borges na qual os cartógrafos de um Império trabalhavam para que um mapa fosse tão perfeito que coincidisse com o território. Na fábula de Borges dizemos ainda que o território precede o mapa. Na contemporaneidade, segundo Baudrillard, é o mapa que surge primeiro que o território. O real acabou, porque o mapa (as representações, as imagens) tornou-se mais real do que o real. Então, o real tornou-se hiper-real. Raciocínio tipicamente pós-moderno? Talvez. Pode um empregado da ciência satisfazer-se com isto? Não. E um cientista? Talvez não.

Mas já a forma como Derrida inverte este tema não se afasta muito da ciência. Baudrillrad diz-nos que o que se nos afigura presente não é real, porque o real desapareceu no simulacro. Derrida diz-nos, ao contrário que o que se nos afigura presente é talvez real, mas não é verdadeiro, porque o real e a verdade não aperecem imediatamente numa “presença do presente”. Na teoria da correspondência da verdade (Bertrand Russel e G. E. Moore), se eu disser “esta mesa está bem iluminada”, o facto é suficiente, mas Derrida e o cientista irão interessar-se antes por conhecer “o que é a electricidade” e não tanto por constatar o “facto” da iluminação ser ou não “boa”. Por isso a desconstrução, com que os empregados da ciência embirram, não está tão longe da ciência como se julga (isto para o verdadeiro homem de ciência). Derrida questiona-se sobre a satisfação desta presença do presente (empirismo?), que não o satisfaz, como não satisfaz ao cientista (o empregado da ciência aqui nem se satisfaz nem se insatisfaz, pura e simplesmente não quer entender nada disto, passa à frente; defende o seu emprego); ambos questionarão depois que linguagem hão-de utilizar para ultrapassar esta presença do presente, ou como ultrapassar uma linguagem que apenas conduz à presença do presente.

Terminemos com Derrida (o cientista aprecia, o empregado não):
«costuma-se dizer que quando um filósofo inicia um curso, ele começa sempre pela colocação da questão “o que é?” – trata-se, como se sabe, da questão do Ser, daquilo que inaugura a filosofia. (…) Mas, na base disto, chamemos-lhe assim, há uma primeira questão sobre a questão, e esta questão anterior tem duas partes. Em primeiro lugar, trata-se de interrogar o carácter privilegiado da forma filosófica.
«Questionar este privilégio da forma filosófica é querer saber se o pensamento interroga e como. Não existirá, antes de começarmos a questionar, não existirá algo mais antigo e anterior do que a questão central?, algo mais profundo e radical, que coresponda a um movimento que não é apenas o de “questionar”, mas que é, acima de tudo, já uma afirmação? Esta afirmação seria então a primeira questão sobre a questão (do Ser). Depois, mesmo aceitando que a primeira questão da filosofia diz respeito ao Ser – o que é o Ser? O que é existir? O que queremos significar com a palavra Ser? – mesmo aceitando esta como a primeira questão, não estaremos já a antever uma resposta, a condicioná-la?, não estará já desde aí como que condicionado o caminho em direcção ao Ser?».

Dito de outro modo:
«Não estaremos nós, por vezes, na nossa interpretação do Ser, a privilegiar uma modalidade do tempo que é o presente, a presença do presente. A partir do momento em que suspeitamos dessa presença do presente que consequências retiraremos daí? (…) Tudo o que escrevi sobre o “traço” na escrita refere precisamente uma condição de não-presença do presente. E no sentido de aceder a esse presente é necessário uma experiência do “traço”, é necessário uma ligação a algo diferente, ao Outro, a algo diferente do Ser, ao Outro passado e futuro, ao Outro em geral, a uma alteridade que não apareça como a presença de um presente. (…) em tudo há um “traço”, que é a experiência de regressar a algo, de regressar a um outro passado, presente e futuro, a uma temporalidade ainda mais velha do que o passado e que está igualmente muito além do futuro» (de uma entrevista inédita inserida como Extra à edição DVD do filme de Kirby Dick e Amy Kofman, Derrida, 2002).

O cientista aprecia, o empregado da ciência não.

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14 respostas a Jacques Derrida e as ciências

  1. Joca diz:

    Porra!
    Ó Vidal, vai dar uma volta ao bilhar grande.

  2. artur diz:

    o vidal é um verdadeiro campeão de natação, é o maior da rua dele!!

  3. ze diz:

    pegar em palavras cujo significado não é conhecido e construir frases, parágrafos inteiros ou livros pode ser muita coisa, mas não é ciência. um primo convexo é uma metáfora gira, não vale a pena é chamar-lhe uma ideia científica aproximada à mais cartesiana óptica. ou outra coisa do género. isto tudo tem nome, obscurantismo intelectual, estupidez militante, desonestidade.

  4. j diz:

    Fod*-se que, quando o blog esteve com os comentários empancados, eu apostei comigo próprio que o link “empregados da ciência” só podia ter que ver Palmira Silva.

    Que pancada…

  5. rita diz:

    Ó Vidal, já viste a última?

    O Sokal vai dar uma conferência à Tate 🙂

    Joining with the Science Museum, Tate Modern invites leading figures from the worlds of arts, science and public policy to revisit this question. With the new prominence of information technology, genetics and climate change, has the gap between arts and sciences narrowed or grown even wider in the last fifty years?

    Aqui o Vidal é mesmo mind, the gap…

    http://jugular.blogs.sapo.pt/595035.html

  6. Caro CV

    No livro “Apocalípticos e Integrados” do U. Eco há um parágrafo que sempre me ficou na memória, na pagina 394, tradução em português da DIFEL: “Lembramos que uma educação através das imagens foi típica de qualquer sociedade absolutista ou paternalista; desde o antigo Egipto à Idade Média. A imagem é o resumo visual e indiscutível de uma série de conclusões a que se foi chegando através da elaboração cultural; e a elaboração cultural que se serve da palavra transmitida por escrito, é apanágio da elite dirigente, ao passo que a imagem final é construída para a massa submetida.”

    Esta é a critica mais contundente que eu nas minhas leituras encontrei ao sistema das imagens.

    Os pensadores mencionados pelo texto do CV teriam partido daqui?

    Em que medida é que as artes visuais poderão responder a isto é a outra pergunta que faço.

    e, obrigado pelo texto

    adão

  7. Carlos Vidal diz:

    Não há uma única linha de um único pensamento de Sokal que tenha alguma coisa que ver com a compreensão e interpretação de uma obra de arte, seja ela literária, visual ou musical. Não há uma única antologia sobre pensamento crítico ou artístico recente que diga o que quer que seja sobre Sokal.

    Dois exemplos agora saídos nos EUA e Grã-Bretanha, altamente recomendáveis: ambos da Blackwell – um, org. por Amelia Jones, “A Companion to Contemporary Art Since 1945” (2007) e outro, org. por Zoya Kocur, “Theory in Contemporary Art Since 1985” (2008). Em ambos os casos, os do costume estão omnipresentes porque essenciais: Lacan, Derrida, claro.

    As “DOCUMENTA”, as expos quinquenais de Kassell são, desde há 50 anos as mais importantes surveys internacionais da arte contemporânea. Sokal nunca aí existiu nem foi debatido, havendo por lá, de cada edição, debates às centenas. Foi em tempos uma figura mediática que cometeu uma gracinha, nada mais. Existe para a Palmira Silva e uns quantos cientistas anti-contemporaneidade, nada mais. E esses são muitos, e talvez sejam a maioria na comunidade científica. Desde Ortega y Gasset, há muitos muitos anos que se teorizou, com inteligência, a impopularidade da arte. Discussão antiga. Eu estou no meu campo, ignoro Sokal e quejandos. Eles ignoram-me e ignoram aqueles que me interessam. Eu gosto de especulação com um certo grau de arbitrariedade (fui claro?).
    Fiquemo-nos sem comunicação. Acho bem e ganhamos todos com isso.

  8. Carlos Vidal diz:

    Não resisto a mais uma sokalada de Palmira: ter terminado um post com uma citação de Sir Karl. Teremos discípula de João Carlos Espada, anti-intelectuais da moda como o admirador de Sir Karl?

    Caro Adão Contreiras,
    Há na L’Harmattan, um livrinho sobre a estética de Derrida que parte do seguinte ponto: como falar da imagem através do discurso? Como lidar com esta aporia, esta heterogeneidade entre o discurso verbal e escrito e a imagem? É sempre esta a posição de Derrida: o cupar interstícios, confrontar realidades e linguagens diferentes sem abandonar o que chama de “dever de exegese”. Não é só “questionar” por “questionar”, trata-se de trabalhar também numa espécie de “dever de resposta”. O livrinho é colectivo e intitula-se somente “Jacques Derrida et l’esthétique”.
    Há ainda em Derrida tópicos que podem ser tidos como anti-imagem ou antioculares: como eu digo acima, a rejeição da presença do presente; a crítica da linguagem como coisa retiniana; a crítica de que a linguagem é um espelho exacto do pensamento (se calhar, para Sokal, é); uma certa apologia da “cegueira” num momento anterior á criação/lançamento da imagem ou do desenho.

    Grande parte do pensamento filosófico francês do século XX, aliás, é antiocular. O livro que estuda este tema como nenhum outro é, de Martin Jay, “Downcast Eyes: The Denigration of Vision in Twentieth-Century French Thought”, University of California Press, 1993. Um clássico inestimável este trabalho de Martin Jay.

  9. Caro Adão Contreiras,
    Um pequeno post-scriptum.
    Não creio que os autores que tenho citado, como Lacan, Deleuze ou Derrida tenham exactamente partido da antiocularidade medieval. Repare que já em Platão a ocularidade é tratada de forma ambivalente. Nuns diálogos ela é exaltada, noutros denegrida. Uma das linhas de ataque que estes autores abraçaram é o cartesianismo, a clareza cartesiana.
    Quanto ás artes visuais; se procurar o meu post sobre arte conceptual, http://5dias.net/2008/12/24/tudo-o-que-ha-para-saber-sobre-arte-conceptual/ ,poderá ver tb uma tentativa da arte contemporânea lidar com estas questões da ocularidade / antiocularidade.

  10. popeye diz:

    CV faz bem em nao ligar aos atrasados mentais que lhe infestam a caixa – eu incluido – mas tratar assim o karl?!

    nao embrulha o desprezo abismal pela metafisica enquanto farsa – hegel, fichte – em simplismos

  11. Haverá alguma tradução em português do livro Jacques D. et l´esthétique?

    não domino suficientemente línguas para poder ler nessas edições.

    O link que o amigo CV mandou é uma boa síntese, já lá tinha estado mas não o tinha lido todo nem com a devida atenção e tinha perdido o rasto.

    entretanto encontrei um outro livro do CV na minha estante: Definição da arte política, também da Fenda; este pelo que vejo até o li todo mas tão atabalhoadamente que nem me lembrava. Vida de professor!

  12. z diz:

    eu só percebi que estávamos na ditadura intelectual da física positivista quando fui despedido, ilegalmente claro mas isso não interessava para o caso,

    enfim é tempo de enterrar essa ditadura, o descalabro das bolsas é-lhes imputável transpostos para a engenharia financeira, etc.

    os físicos obtusos não são competentes para discutir se a realidade é exclusivamente física porque isso é metafísica

    felizmente o Maldacena é físico e abriu coisas belas, demonstrou a equivalência entre um corpo pesado (na esfera) e um espectto colorido na superfície

    felizmente feliz mente

    mas o Gago é da escola antiga, parece

  13. Carlos Vidal diz:

    Caro Adão Contreiras,
    O Definição da Arte Política é uma coisa pequena mas, mesmo assim, ainda é das minhas preferidas (passe a pub). O livro do Derrida e a estética não tem edição portuguesa. Mas talvez possa encontrar o do Martin Jay em espanhol, em https://www.lacentral.com É uma das melhores livrarias espanholas on-line, e este texto de Martin Jay é o melhor livro sobre as relações conturbadas entre a filosofia e a visualidade/ocularidade.

    Caro z,
    Um físico obtuso é de facto um perigo, capaz de não só confundir a física com a metafísica, como nem tão-pouco saber que isso existe.
    Eu não lhes ligo nenhuma.

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