100 olhos por olho, 100 dentes por dente

gaza

O Estado espanhol, respondendo ao recrudescimento da vaga de atentados da ETA e à vitória dos partidos independentistas nas últimas eleições, decidiu optar por um método radical na resolução dos problemas bascos.
Assim, começou há dias uma ofensiva de grade monta. Cada edifício suspeito de albergar qualquer estrutura etarra foi destruído. A eliminação física dos líderes da organização terrorista está igualmente em marcha imparável. Tudo de forma normal e civilizada. Que num só destes ataques, levados a cabo em zonas densamente povoadas, tenham morrido 11 crianças e 4 mulheres, eis assunto a merecer apenas um encolher de ombros levemente melancólico: «eram amigos de terroristas e até tinham sido avisados. Que se há-de fazer?» Que mais de 100 bascos tenham castigado a morte de cada espanhol assassinado pela ETA também nos parece normal e ponderado; as gentes civilizadas sabem que só com mão de ferro é possível travar esses terroristas.
Depois, seguiu-se a destruição metódica das estruturas em que se sustenta o dia-a-dia do país basco: foram cortados três quartos da linhas eléctricas; há hospitais sem electricidade; mais de um terço dos seus habitantes não tem acesso a água; a entrada de combustível na região foi proibida desde o início da operação militar.
Se isto se passasse mesmo aqui ao lado, ninguém sequer pensaria em defender a barbárie, por muito democráticos que fossem os ogres que a cometem – embora pareça haver quem pense que o facto de os seus cidadãos poderem votar dá a um país o direito de massacrar terceiros.
Se isto fosse mesmo a actualidade em Espanha, nem uma só voz se ouviria a justificar o injustificável, tal como só os lunáticos defendem os crimes da ETA.
Mas como é lá longe e os mortos são uns maltrapilhos árabes que até nem gostam de nós, está tudo mais ou menos bem. O governo israelita pode continuar a preparar a vitória nas próximas eleições, o Hamas pode continuar a amealhar mártires e os palestinianos podem continuar a morrer às centenas.
Não sei bem de onde vem a impunidade que tantos concedem a Israel. Será efeito da culpa pelos nossos pecados europeus de antanho, uma tendência automática para desculpar os crimes dos “nossos” (sobretudo se em resposta a agressões dos “outros”) ou apenas porque os palestinianos têm hábitos, culturas, religião e práticas que não compreendemos nem aceitamos?
Seja lá o que for, dá-me asco e vergonha.

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