Foi você que disse anti-semitismo?

Marta Almeida, no comentário ao meu post de estreia nesta casa, diz que só posso ser nazi ou fundamentalista islâmico. Felizmente que o “ser” não se esgota no “poder ser” da Marta. Não sou nem uma coisa, nem outra. Ateu militante em religião, comunista em política, clássico em arte. Mas nominalismos à parte, a Marta usa, mesmo que implicitamente, um argumento que importa discutir.

Não é inocente que os termos “nazi” e “fundamentalista islâmico” apareçam assim associados, tentando passar por natural ou óbvia essa ligação que, basta pensar um pouco, é tudo menos clara. O primeiro nome, nazi, remete para a acusação de anti-semitismo a quem se opõe à política do Estado de Israel. O segundo pressupõe que os que se opõem a Israel só podem ser apoiantes dos movimentos radicais islâmicos. Em ambos os casos, a tomada de posição política transforma-se numa forma de confronto cultural ou racial. O que move os opositores de Israel ou é o ódio racial, o anti-semitismo, ou a identificação com uma forma de extremismo religioso. Este tentativa de evacuar da discussão do conflito a política para a instalar no campo das acusações de racismo e de fundamentalismo convém, como é óbvio, aos acusadores. Joga com a culpa dos europeus em relação ao extermínio nazi dos Judeus da Europa, e também com a associação fundamentalismo islâmico-terrorismo, desqualificando o adversário e evitando a espinhosa tarefa de defender politicamente Israel. Compreendo-os, não é de facto fácil defender o indefensável.

O problema da acusação é que se esgota nela própria, não tendo outra base de sustentação que não a atribuição ao outro lado de uma intenção. Ele diz que é contra a ocupação Israelita, contra a instalação de colonatos, contra a prática de assassinatos selectivos, contra a forma policial como Israel se relaciona com as autoridades palestinianas, contra a proibição do regresso dos refugiados à terra de onde foram brutalmente expulsos…. mas, embora, não o diga, o que o move é o ódio aos Judeus. Assim vai o argumento. Mas a atribuição de uma intenção ao opositor tem de ter algo mais na sua base do que a conveniência do acusador. O facto de alguém ter apoiado os movimentos de libertação das ex-colónias faz dele um anti-português? Ser a favor da independência do Sahara Ocidental faz de alguém um anti-árabe?

É claro que isto não quer dizer que não haja anti-semitismo entre os opositores a Israel. E Mahmoud Ahmadinejad tem-se esforçado por dar argumentos a favor da tese do anti-semitismo aos defensores de Israel, ao promover colóquios onde se expõem teses negacionistas do genocídio nazi. São posições em relação às quais temos de estar vigilantes e que há que combater energicamente. Não é com manipulações historiográficas que se defende o povo palestiniano, e a oposição à repressão estatal israelita não pode justificar formas de aviltamento subsidiárias do racismo anti-semita. Há que ser intransigente na condenação dos crimes do Nazi-fascismo, bem como de todas as formas de opressão colectiva, como aquela de que os palestinianos são vítimas. E evitar substancializar povos ou etnias atribuindo-lhes um destino colectivo transcendente.

Retirar a discussão da religião e da cultura e colocá-la onde se deve: no plano da história e da política. Esta directiva, do mais banal senso comum, torna a discussão mais difícil do que simplesmente acusar o adversário de esconder intenções racistas, mesmo que nada mais aponte para isso. O ridículo vai ao ponto de se acusar a esquerda, em geral, de tender para o anti-semitismo, devido às suas críticas a Israel, mesmo quando as críticas são colocadas em termos universalistas, como “opressão”, “desíquilíbrio de forças”, “abuso de poder”, etc. Há cerca de dois anos falei com uma pessoa que defendia convictamente que os textos do Miguel Sousa Tavares a criticar Israel (bem tímidos, por sinal) eram anti-semitas. E defendia que hoje o anti-semitismo não vinha maioritariamente da extrema-direita, mas sim da extrema esquerda. Mesmo que a extrema-esquerda nunca acuse “os judeus”, mas sim Israel, ao contrário da extrema-direita, que faz questão de racializar sempre as questões.

Estes argumentos serão sempre recorrentes enquanto durar o conflito. Têm como único objectivo desligitimar qualquer crítica ao Estado de Israel e às suas políticas. Todas as críticas a Israel, como a qualquer Estado, são legítimas. E ninguém tem o direito de acusar de racista quem assim critica.

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14 respostas a Foi você que disse anti-semitismo?

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  2. manuela diz:

    É falta de imaginação. Pensam que com uma barragem de ‘anti-semitismo’ ou de ‘antiamericanismo primário’ arrumam a questão.
    Anda uma nova fornada de ‘anti’ por aí a despontar, aplicável a situações mais gerais, como ‘antiocidental’.

    Já não há pachorra para os novos tele-evangelistas.

  3. António Figueira diz:

    Bruno,
    Como tu, acho intolerável a chantagem intelectual que consiste em acusar de anti-semitismo quem quer que ponha em causa as políticas do Estado de Israel; a esse propósito, são muito interessantes as considerações que o Eric Hobsbawm – judeu e crítico de Israel – faz nas suas memórias sobre judaísmo e sionismo (ele que acha uma pena que o Herzl tivesse largado a sua coluna no Neue Freie Press para acabar fazendo o que fez…)
    Abraço, AF

  4. Bruno Peixe diz:

    Spartakus, a discussão de facto torna-se impossível e é esse o objectivo dos defensores de Israel, tornar a discussão impraticável, colocando os opositores numa posição indefensável.
    António, obrigado pela dica. Li o “Interesting Times” como quem lê um romance, pelo que tenho de voltar a essas páginas. Se não me engano, o Hobsbawm criticava a deriva nacionalista de um projecto que originariamente era socialista, certo? Muitos intelectuais, judeus e não judeus, têm resistido à chantagem cultural e criticado Israel aberta e desassombradamente, sempre com acusações de anti-semitismo ou de serem “self-hating jews”. É o caso de Norman Finkelstein, de Judith Butler ou de Alain Badiou.

  5. Nando diz:

    Excelente post. O que me preocupa é que não são pessoas que nunca foram à escola que estão a usar a bandeira da acusação do anti-semitismo…

  6. Ricardo Santos Pinto diz:

    Bruno,

    Não ligues demasiado ao que escrevem os comentadores. À excepção de alguns casos, não passam de um bando de loucos.

  7. Bruno Peixe diz:

    Ricardo,
    A resposta à Marta Almeida foi apenas o pretexto para escrever sobre esta questão. E juntar mais umas ondas a este mar revolto. Um abraço.

  8. M. diz:

    Com que então trocaste Paris por um blogue-a-dias?
    Mas força, segue o conselho do nosso amigo Lívio e dá-lhes trabalho!
    Explica-lhes que o actual campo ideológico impinge-nos soluções armadilhadas com as suas próprias contradições: anti-semita versus pró-israelita, fundamentalista versus democrata, etc.
    Recorda-lhes que há um «indivisible remainder» que prova a falsidade dos antagonismos oficiais.
    Prova-lhes que nesses falsos antagonismos há sempre um 3º excluído que são as políticas de emancipação…
    Dá-lhes Falâncio !!!
    Abraço,
    M.

  9. teofilo m. diz:

    Vamos imaginar que um País qualquer administrava Portugal, e decidia que os católicos deviam viver a sul do Tejo e que os protestantes ficariam a Norte. Para além disso, dividiriam Lisboa ao meio, sendo a parte Norte para os protestantes, e a parte Sul para os católicos.

    Mais se declarava, que os emigrantes que decidissem regressar apenas o fariam para aquelas duas regiões consoante a sua religião ou religião dos seus pais, e que o prazo para tudo estar concluído deveria ser 14 de Maio de 2009.

    Quer trabalhar sobre estas premissas?

  10. Bom trabalho o de Bruno Peixe

    Desmascarar a falta de verticalidade cívica e intelectual é nos tempos que correm mais importante do que nunca.

    Bom ano

  11. pcarvalho diz:

    Anti-semitas de facto,são os israelitas ao matarem os palestinos povo semita,em relação a muitos judeus…ver Shlomo Sand.Parabéns!

  12. fox diz:

    Dá-lhes Falâncio !!!
    Um abraço!

  13. Spartakus diz:

    Curiosamente há uma Senhora judia ( que me marcou profundamente ) que nestas questões é cirúrgicamente esquecida pelos israelitas: Hannah Arendt. A que classificou o sionismo de um fascismo. Curioso, realmente.

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