Capitalismo e regressão

“There’s no future in England’s dream!”

The Sex Pistols

“Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos!”

Karl Marx

parece longínquo o eco dos temas dos Sex Pistols (Never Mind the Bollocks) numa Grã-Bretanha governada pela frigidíssima Sua Magestade Isabel II, que ainda hoje ostenta o alfinete de ama espetado em suas majestáticas beiças, estampada nas t-shirts banais de Camden Market, e da Dama de Ferro, essa grande espertalhona oportunista, Margaret Thatcher…

A Grã-Bretanha de hoje tem a mesma rainha e um primeiro ministro Gordon Brown, que não é melhor nem pior que o seu antecessor Anthony Blair. O sonho imperialista e capitalista prevalece no coração dos britânicos, tal como, a tonta quimera do Sebastianismo/Salzarismo prevalece no coração de muitos portugueses.

Johnny Rotten (vocalista dos Sex Pistols) aliás John Lydon é um “cota” racista, reaccionário e dono de uma imobiliária. Ah, também entra numa publicidade a uma marca de leite na qual não tem graça nenhuma. Afinal, ele teve um grande futuro.

É preciso viver no meio do povo, o qual vai do proletariado urbano até às altas esferas da burguesia, para se ter a exacta noção dos seus anseios, objectivos e medos. Nesta altura da minha vida passei a viver em Harringay, junto a Manor House, que é uma área pobre de Londres.

Existe muito comércio, sobretudo mercearias e pequenos restaurantes, gerido por emigrantes turcos, gregos e cipriotas. Na rua principal, Green Lane, deambulam muitos emigrantes oriundos dos países de leste, muçulmanos pobres, alguns hindus, alguns brasileiros e judeus. A esmagadora maioria destas gentes modestas, à procura do El Dorado em Londres, é honesta e trabalhadora. Muitos deles sofrem represálias de mafias russas, polacas e outras, caso eles não paguem os passaportes com visa falso, ou o dinheiro “emprestado” para a viagem até Inglaterra.

Todos os dias observo os luxuosos carros, nos quais se pavoneiam cretinos pertencentes a essas mafias ou gangs, com a música aos altos berros, como que a chamar “idiotas, loosers” a todos nós, os que se movem a pé ou nos mal cheirosos autocarros e que, teimamos em ser dignos e honestos.

Há meses que me venho a aperceber dos violentos contrastes sociais neste grande laboratório humano que é a cruel cidade de Londres. No mesmo bairro podem coexistir mansões e limusines, e um pouco mais à frente, podem-se ver casas velhas, feias, com o chão a estalar e montes de lixo à porta, em vez do gracioso “English garden”.

Vale a pena mencionar o lixo dos pobres pois ele reflecte a dura e perigosa realidade do século XXI – embalagens vazias de pizza ou de hambúrgueres do MacDonalds, latas de sopa instantânea, produtos partidos de plástico Made in China (que se compram em todas as lojas One Pound e bazares similares!), farrapos de roupas cinzentas e sujas, igualmente Made in China ou Made in India. À laia de slogan eu poderia dizer que “o lixo de uns é o luxo de outros.”

Tanto o lixo como estes Mades in… poderiam ser motivo de uma tese monumental ao lado de Das Kapital, de Karl Marx e do Novo Testamento bíblico: “É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que os ricos entrarem no Reino dos Céus”. By the way, os restos mortais de Marx encontram-se sepultados no cemitério de Highgate, junto a outras sepulturas dos ilustres das Ciências, Filosofia e Artes. A lápide é pesadona e monolítica com a cabecita pensadora de Marx, encarrapitada no rectângulo de pedra.

As pessoas têm uma vida lixada (também de “lixo”, claro!), sempre a contarem os tostões e a correrem para os transportes. Nem têm tempo nem vontade de ver algumas coisas bonitas que se vão entrevendo em alguns edifícios. É corriqueiro ver gente a comer os doentios “fish and chips”, de pé, com um ar de bicho a abater no matadouro social. Ou então, como eu e outros trabalhadores, a comerem no combóio o lanchito preparado em casa,

Comer em restaurantes, mesmo nos mais económicos, é um luxo. Assim, não há tempo nem dinheiro para as pessoas se alimentarem como deve ser. As gripes e infecções, muitas delas contagiosas, são “curadas” de pé (eu que o diga!) porque se ficarmos na cama dois ou três dias, é o correspondente a não termos pão e medicamentos para a boca. Isto é claramente uma falta de respeito pelo próprio corpo, porque há que trabalhar até se cair para o lado.

A Inglaterra foi pioneira na acção social para com os mais desfavorecidos mas, cada vez mais se assemelha ao modelo norte-americano. Tens dinheiro, fazes seguros para tudo, dos dentes à próstata. Não tens dinheiro, olha vai ao hospital público ou ao General Practice, que é uma espécie de Clínica Geral e, onde só se pode tratar de um problema de saúde de cada vez. Embora, Portugal esteja na penúria e com lacunas muito graves na Saúde, Educação e Cultura, o nosso sistema de saúde ainda conserva um bocadito de humanismo.

II – O sórdido caso da cadeia de bazares Woolsworths

Há muitas décadas que a Woolsworths existia em todas as cidades e vilórias de Inglaterra. Eram cerca de duzentos e tais bazares que davam trabalho a muitos trabalhadores e sustento às suas famílias. Claro está que, para oferecerem preços baixos aos consumidores, os produtos eram quase todos oriundos da China. Porcarias mal engendradas mas que enchem o olho a quem tem a bolsa desfavorecida. Um “ror” de objectos pirosos e de péssima qualidade fabricados em sítios sem condições de trabalho e segurança, por mão de obra escrava, vendidos ao desbarato entre vários intermediários, até chegarem às prateleiras do mundo ocidental proletário. Em suma, um círculo infernal!

Como, entretanto, os governantes do mundo ocidental decidiram apregoar aos quatro cantos que estamos no meio de uma terrível crise económica, blá, blá, blá, toca de fechar lojas, pequenas empresas, restaurantes, etc., e de pôr no olho da rua milhares e milhares de trabalhadores.

O que os governos não dizem é que foi graças às manigâncias dos altos bastidores económicos e políticos e às falcatruas e desvios dos que têm poder; que se chegou a uma situação internacional grave. Os grandes encobrem sempre os grandes – se bem se lembram da brilhante Britcom Sim, senhor Primeiro Ministro, as verdades nuas e cruas sobre os jogos políticos e as altas finanças eram expostas com sentido de humor bem cínico.

Estou em crer, que todos os primeiros-ministros do mundo ocidental “beberam” desta série, com uns pózitos de Maquiavel mas a favor deles e dos amiguinhos.

O cinismo político rima com o capitalismo económico. E onde é que eles floresceram? No seio túrgido da mãe Democracia. Pois é. Estamos metidos num belo sarilho.

O feroz e desenfreado capitalismo do século XXI é muito mais sofisticado do que o do século XIX porque soube criar ilusões de igualdade através da alienação publicitária e consumista, algo que não existia no capitalismo primitivo.

E com este capitalismo hodierno estão as forças reaccionárias do moderno lumpenproletariat que consiste nos gangs, mafias do tráfico de estupefacientes, armas, prostituição e mão de obra mísera.

A História encarregou-se de mostrar que todos os sistemas políticos falharam mas a maior decepção foi a dita Democracia. A Democracia é uma rede imensa de falhas e buracos negros onde florescem os grandes empórios capitalistas, as desigualdades mais flagrantes, a corrupção e a mentira lado a lado com o número crescente de desempregados (ou “mal empregados e bem explorados”), a violência, os sóciopatas. as mafias e o “salve-se quem puder!”.

No meio, estilo sanduíche , estão os que não querem perecer, os “teimosos” que não se querem calar, aqueles que tentam fazer alguma coisa de positivo. São os “teimosos”, os honestos e os corajosos quem mais leva por tabela..

Então e a massa de trabalhadores de todo o mundo não poderá ser a alavanca histórica do devir social e económico?

Sinceramente, penso que não. A alienação social e cultural, a desinformação veiculada por telejornais e jornais de baixo coturno, a demagogia das classes dirigentes e o desinteresse pelas coisas políticas chegou a um ponto tão negativo que não há caminho de retorno. Pelo que vejo e ouço quotidianamente, os trabalhadores preferem a paz podre da Democracia mesmo que a odeiem.

E veja-se a atitude dos trabalhadores da Woolsworths – ficaram nos seus postos de trabalho, a ouvirem a pimpineira das cançonetas de Natal (Iarrqqq!), a tentarem vender os stocks das prateleiras para poderem ter o último salário, com uma expressão facial entre a revolta e o ódio às filas compactas de compradores dos plásticos Made in China, quais hienas esfomeadas por “pechinchas”. Parafraseando Marlon Brando, no final de Apocalipse Now: – “ The HORROR! The HORROR!”

Quando passava à porta de um Woolsworths, dava por mim a sentir um mistura de sentimentos que iam da impotência e solidariedade até à raiva: – “Então esta gente não se revolta? Não fazem manifestações na rua?”

Entretanto, as lojas fecharam todas. Tudo foi noticiado com tom fadista, “O que é que se pode fazer!?!”; muitos cartunistas fizeram humor negro à custa deste descalabro e uma quantidade de papalvos ofereceram os Mades in China aos amigos e familiares.

Estão previstos para 2009 milhares de desempregados, aumentos substanciais nos básicos da vida – transportes, alimentação, electricidade e gás. Porém, não estão previstas revoluções, manifestações nem uniões de facto entre todos os trabalhadores de todo o mundo.

“No Future! No Future!…For me and youuuuuuuuuuuu!”

  1. Ondina Pires

Londres, 31 de Dezembro de 2008

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14 respostas a Capitalismo e regressão

  1. Ricardo Santos Pinto diz:

    “Então esta gente não se revolta? Não fazem manifestações na rua?”
    Faz-me lembrar quando o jornal Times comprou a primeira máquina de composição, uma Monotype, que substituía o trabalho de não sei quantos tipógrafos. Eles revoltaram-se e mandaram a máquina pela janela fora.

    Bem-vinda, Ondina. Tens um nome muito bonito, igual ao da minha mãe.

  2. Bem-vinda, Ondina.
    Belo texto.

  3. Pingback: Capitalismo e regressão : filosofia

  4. rff diz:

    Estive em Londres na passagem de ano, e revi-me em parte no que escreveu…

    Saúde,

  5. Paula Telo Alves diz:

    Por razões familiares, passei o Natal nessa Londres a que a ondina chama “cruel” (e eu concordo: Londres é uma cidade maravilhosa, mas para os turistas e os ricos). Passei o Boxing Day e o fim-de-semana a ver reruns na televisão, livre de instintos bolcheviques (se descontarmos a sanha com que me vinguei da falta que o polvo e o bacalhau me fizeram nas caixas de chocolates que sobraram do fausto natalício). Entre a Mary Poppins e os concursos dos anos 70, os noticiários aviavam notícias da falência da Woolsworth em spots com meia dúzia de segundos, e ala que se faz tarde para os anúncios. Mas as imagens mais embasbacantes eram as filas de gente que passou o Boxing Day nas compras, pessoas que saíram de casa num dia muito frio para serem as primeiras na fila às 6h da manhã, com uma fúria consumista que os excessos natalícios não aplacaram. As imagens mostravam homens, mulheres e crianças a regressarem ao lar (com ou sem jardim) carregados de compras, depois de um dia de luta sem classe pela sweatshirt mais barata – um dos consumidores, homem de meia idade, partia vergado mas vitorioso com meia dúzia de sacos grandes das department stores em cada mão, imagem repetida a cada intervalo. Revolução? Mas se o povo estava todo nos saldos, ondina…

  6. filinto diz:

    1- Parece que o preço da libra também não lhes vai permitir Holidays in the Sun, para mal da indústria turística portuguesa (ou não, se verá)
    2- Creio que mais vale estar dentro do sistema, preferencialmente protestando e marcando uma posição e sendo “teimoso”
    3- Parabéns pelo post

  7. Su diz:

    Finalmente a pena de uma lady neste clube de rapazinhos!
    Excelente post, Ondina.
    Para acompanhar os Sex Pistols, e na ausência de uma revolução, lembrei-me desta:
    “All the power’s in the hands | of people rich enough to buy it | while we walk the street | too chicken to even try it”
    The Clash “White Riot”

  8. Luis Moreira diz:

    Muito bem,Ondina. E ,no entanto, ainda não há melhor !

  9. Tiago Mota Saraiva diz:

    Excelente entrada, Ondina.
    Não concluas a tese – “No future yet!”, proponho (isto até soa a russo). A alavanca de que se fala, surge sempre quando e de onde eles menos esperam.

  10. Bruno Peixe diz:

    Olá Ondina, que bom encontrarmo-nos por aqui, ainda por cima com estreia no mesmo dia. Bem hajas. Um grande beijo.

  11. josé neves diz:

    Ondina! estás em Londres rapariga? deixaste o inferno luso-estudantil? eu acabo de regressar a ele, duplamente, porque hoje é dia de início do 2º período. Beijo de bom ano-novo-velho.

  12. Joao diz:

    “Um “ror” de objectos pirosos e de péssima qualidade fabricados em sítios sem condições de trabalho e segurança, por mão de obra escrava, vendidos ao desbarato entre vários intermediários, até chegarem às prateleiras do mundo ocidental proletário. Em suma, um círculo infernal!”
    O que eu me ri ao ler esta frase! Tenho que voltar cá mais vezes…

  13. fernando antolin diz:

    Ah que sacrifício faz a pobre Ondina em viver naquela terra desgraçada…que linda crónica a lembrar Odete Santos…
    Atenção ao que fumam…:-))

  14. Carlos Vidal diz:

    Olá Ondina, despistei-me e dei-te as boas-vindas no post seguinte sobre o “nosso” Anger. Mas é aqui que bate o ponto, é aqui que tenho de te desejar uma belíssima estadia. Muito bem e bela estreia. A nossa ondina só pode vir a ser uma ninfa guerreira, a nossa Antígona. Ó antolin, não é preciso fumar nada para ver tudo certinho, ver tal como as coisas são.

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