Argumentos de rigor

Aqui há dias, combinei com uma publicação da praça a redacção de um artigo com 5.000 caracteres. Após horas de esforços, a tentar enfiar o Rossio na Betesga, cheguei a 5.276 caracteres e soçobrei. Aí, pedi a uma amiga – a última morgada de V., em cujo português confio de olhos fechados – o favor de tesourar o artigo e reduzi-lo aos convencionados 5.000 caracteres. Respondeu-me a excelente senhora que mais 276 caracteres – aproximadamente 5% dos inicialmente previstos – representavam uma variação irrisória, que qualquer paginador poderia bem acomodar; deu-me algumas outras sugestões úteis e devolveu-me o artigo no estado. Era não contar, porém, com as minhas obsessões de rigor (afloramentos do lado mais anal da minha personalidade, certamente): primeiro soçobrado, mas logo recuperado, quando recebi a sua resposta já eu tinha aparado a prosa até a reduzir a 5.001 caracteres (e por aí me fiquei: anal mas não maluco). Pois ao contrário da minha morgada, eu acho que 5.000 caracteres são 5.000 caracteres, e não 5.000 + 5% (a título de quê, de gorjeta?), não só por razões de princípio (pacta sunt servanda) como de qualidade do produto final, pois estou em crer (e não sou o único evidentemente: lembremos Queneau, Perec e todo o bando da Oulipo) que a disciplina da forma melhora o rigor do argumento de fundo. Para os estudantes dos nossos liceus, eu recomendaria mesmo a obrigação de comporem textos com um dado número de palavras, e a aplicação estrita da regra do “nem mais uma”, nas diferentes disciplinas. Antes que regressem as fardas, as paradas e os toques de clarim, seria uma boa maneira de impor um módico de ordem nesses desgraçados estabelecimentos, que parecem ser actualmente o paraíso dos vendedores de telemóveis.

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SEXTA | António Figueira
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