Argumentos de rigor

Aqui há dias, combinei com uma publicação da praça a redacção de um artigo com 5.000 caracteres. Após horas de esforços, a tentar enfiar o Rossio na Betesga, cheguei a 5.276 caracteres e soçobrei. Aí, pedi a uma amiga – a última morgada de V., em cujo português confio de olhos fechados – o favor de tesourar o artigo e reduzi-lo aos convencionados 5.000 caracteres. Respondeu-me a excelente senhora que mais 276 caracteres – aproximadamente 5% dos inicialmente previstos – representavam uma variação irrisória, que qualquer paginador poderia bem acomodar; deu-me algumas outras sugestões úteis e devolveu-me o artigo no estado. Era não contar, porém, com as minhas obsessões de rigor (afloramentos do lado mais anal da minha personalidade, certamente): primeiro soçobrado, mas logo recuperado, quando recebi a sua resposta já eu tinha aparado a prosa até a reduzir a 5.001 caracteres (e por aí me fiquei: anal mas não maluco). Pois ao contrário da minha morgada, eu acho que 5.000 caracteres são 5.000 caracteres, e não 5.000 + 5% (a título de quê, de gorjeta?), não só por razões de princípio (pacta sunt servanda) como de qualidade do produto final, pois estou em crer (e não sou o único evidentemente: lembremos Queneau, Perec e todo o bando da Oulipo) que a disciplina da forma melhora o rigor do argumento de fundo. Para os estudantes dos nossos liceus, eu recomendaria mesmo a obrigação de comporem textos com um dado número de palavras, e a aplicação estrita da regra do “nem mais uma”, nas diferentes disciplinas. Antes que regressem as fardas, as paradas e os toques de clarim, seria uma boa maneira de impor um módico de ordem nesses desgraçados estabelecimentos, que parecem ser actualmente o paraíso dos vendedores de telemóveis.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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4 respostas a Argumentos de rigor

  1. Ricardo Santos Pinto diz:

    Se ao menos te pagassem os 276 caracteres que escreveste a mais…

  2. Tiago Mota Saraiva diz:

    Ricardo, 5% quase que nem são considerados trabalhos a mais!
    António, o problema não é tanto de rigor, mas de tolerância. Se valer a pena, o gráfico resolve!

  3. Caríssimo,
    Realmente, 5000 não são 5100, nem deveriam ser 5001….
    Nesse aspecto penso que, como na vida do dia a dia, o rigor é essencial. A situação que descreve, faz-me lembrar os problemas que diariamente tenho com a falta de pontualidade das pessoas, com a sua falta de rigor. Para mim, e para toda a gente que use relógio de pulso, uma reunião às 15h00, poderá ter, e até será desejável que tenha, todas as pessoas envolvidas, presentes às 14h50, mas não é admissível que alguém chegue às 15h01. A essa hora já se deve estar a trabalhar! Nestes casos, a tolerância não é tolerável!!!
    As minhas desculpas pela analogia.

    Cumprimentos

    JM

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