Uri Avnery: Carta aberta a Barack Obama

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O ex-deputado do Parlamento israelense e um dos fundadores do movimento pela paz, Uri Avnery, redigiu uma carta aberta ao presidente eleito dos EUA, Barack Obama, sugerindo que o novo governo comece a agir pela paz israelense-árabe a partir do primeiro dia. “Infelizmente, todos os seus predecessores desde 1967 jogaram duplamente. Apesar de falarem sobre paz da boca para fora, e às vezes realizarem gestos de algum esforço pela paz, na prática eles apoiavam nosso governo em seu movimento contrário a esse esforço”, diz Avnery.

Tirado do site brasileiro Carta Maior

Esta é uma carta aberta escrita por Uri Avnery, 85 anos, ex-deputado do Knesset (Parlamento de Israel), soldado que ajudou a fundar Israel em 1948 e que há décadas milita pela paz:

“As humildes sugestões que se seguem são baseadas nos meus 70 anos de experiência como combatente de trincheiras, soldado das forças especiais na guerra de 1948, editor-em-chefe de uma revista de notícias, membro do parlamento israelense e um dos fundadores do movimento pela paz:

1) No que se refere à paz israelense-árabe, o Sr. deve agir a partir do primeiro dia.

2) As eleições em Israel acontecerão em fevereiro de 2009. O Sr. pode ter um impacto indireto, mas importante e construtivo já no começo, anunciando sua determinação inequívoca de conseguir paz israelo-palestina, israelo-síria e israelo-pan-árabe em 2009.

3) Infelizmente, todos os seus predecessores desde 1967 jogaram duplamente. Apesar de que falaram sobre paz da boca para fora, e às vezes realizaram gestos de algum esforço pela paz, na prática eles apoiavam nosso governo em seu movimento contrário a esse esforço.

Particularmente, deram aprovação tácita à construção e ao crescimento dos assentamentos colonizadores de Israel nos territórios ocupados da Palestina e da Síria, cada um dos quais é uma mina subterrânea na estrada da paz.

4) Todos os assentamentos colonizadores são ilegais segundo a lei internacional. A distinção, às vezes feita, entre postos “ilegais” e os outros assentamentos colonizadores é pura propaganda feita para mascarar essa simples verdade.

5) Todos os assentamentos colonizadores desde 1967 foram construídos com o objetivo expresso de tornar um estado palestino – e portanto a paz – impossível, ao picotar em faixas o possível projetado Estado Palestino. Praticamente todos os departamentos de governo e o exército têm ajudado, aberta ou secretamente, a construir, consolidar e aumentar os assentamentos, como confirma o relatório preparado para o governo pela advogada Talia Sasson.

6) A estas alturas, o número de colonos na Cisjordânia já chegou a uns 250.000 (além dos 200.000 colonos da Grande Jerusalém, cujo estatuto é um pouco diferente). Eles estão politicamente isolados e são às vezes detestados pela maioria do público israelense, mas desfrutam de apoio significativo nos ministérios de governo e no exército.

7) Nenhum governo israelense ousaria confrontar a força material e política concentrada dos colonos. Esse confronto exigiria uma liderança muito forte e o apoio generoso do Presidente dos Estados Unidos para que tivesse qualquer chance de sucesso.

8 ) Na ausência de tudo isso, todas as “negociações de paz” são uma farsa. O governo israelense e seus apoiadores nos Estados Unidos já fizeram tudo o que é possível para impedir que as negociações com os palestinos ou com os sírios cheguem a qualquer conclusão, por causa do medo de enfrentar os colonos e seus apoiadores. As atuais negociações de “Annapolis” são tão vazias como as precedentes, com cada lado mantendo o fingimento por interesses politicos próprios.

9) A administração Clinton, e ainda mais a administração Bush, permitiram que o governo israelense mantivesse o fingimento. É, portanto, imperativo que se impeça que os membros dessas administrações desviem a política que terá o Sr. para o Oriente Médio na direção dos velhos canais.

10) É importante que o Sr. comece de novo e diga-o publicamente. Idéias desacreditadas e iniciativas falidas – como a “visão” de Bush, o “mapa do caminho”, Anápolis e coisas do tipo – devem ser lançadas à lata de lixo da história.

11) Para começar de novo, o alvo da política americana deve ser dito clara e sucintamente: atingir uma paz baseada numa solução biestatal dentro de um prazo de tempo (digamos, o fim de 2009).

12) Deve-se assinalar que este objetivo se baseia numa reavaliação do interesse nacional americano, de remover o veneno das relações muçulmano-americanas e árabe-americanas, fortalecer os regimes dedicados à paz, derrotar o terrorismo da Al-Qaeda, terminar as guerras do Iraque e do Afeganistão e atingir uma acomodação viável com o Irã.

13) Os termos da paz israelo-palestina são claros. Já foram cristalizados em milhares de horas de negociações, colóquios, encontros e conversas. São eles:

a) estabelecer-se-á um Estado da Palestina soberano e viável lado a lado com o Estado de Israel.

b) A fronteira entre os dois estados se baseará na linha de armistício de 1967 (a “Linha verde”). Alterações não substanciais poderão ser feitas por concordância mútua numa troca de territórios em base 1: 1.

c) Jerusalém Oriental, incluindo-se o Haram-al-Sharif (o “Monte do Templo”) e todos os bairros árabes servirão como Capital da Palestina. Jerusalém Ocidental, incluindo-se o Muro Ocidental e todos os bairros judeus, servirão como Capital de Israel. Uma autoridade municipal conjunta, baseada na igualdade, poderia se estabelecer por aceitação mútua, para administrar a cidade como uma unidade territorial.

d) Todos os assentamentos colonizadores de Israel – exceto aqueles que possam ser anexados no marco de uma troca consensual – serão esvaziados (veja-se o 15 abaixo)

e) Israel reconhecerá o princípio do direito de retorno dos refugiados. Uma Comissão Conjunta de Verdade e Reconciliação, composta por palestinos, israelesnses e historiadores internacionais estudará os fatos de 1948 e 1967 e determinará quem foi responsável por cada coisa. O refugiado, individualmente, terá a escolha de 1) repatriação para o Estado da Palestina; 2) permanência onde estiver agora, com compensação generosa; 3) retorno e reassentamento em Israel; 4) migração a outro país, com compensação generosa. O número de refugiados que retornarão ao território de Israel será fixado por acordo mútuo, entendendo-se que não se fará nada para materialmente alterar a composição demográfica da população de Israel. As polpuldas verbas necessárias para a implementação desta solução devem ser fornecidas pela comunidade internacional, no interesse da paz planetária. Isto economizaria muito do dinheiro gasto hoje militarmente e a partir de presentes dos EUA.

f) A Cisjordânia, Jerusalém Oriental e a Faixa de Gaza constituirão uma unidade nacional. Um vínculo extra-territorial (estrada, trilho, túnel ou ponte) ligará a Cisjordânia e a Faixa de Gaza.

g) Israel e Síria assinarão um acordo de paz. Israel recuará até a linha de 1967 e todos os assentamentos colonizadores das Colinas de Golã serão desmantelados. A Síria interromperá todas as atividades anti-Israel, conduzidas direta ou vicariamente. Os dois lados estabelecerão relações normais.

h) De acordo com a Iniciativa Saudita de Paz, todos os membros da Liga Árabe reconhecerão Israel, e terão com Israel relações normais. Poder-se-á considerar conversações sobre uma futura União do Oriente Médio, no modelo da União Européia, possivelmente incluindo a Turquia e o Irã.

14)A unidade palestina é essencial. A paz feita só com um naco da população de nada vale. Os Estados Unidos facilitarão a reconciliação palestina e a unificação das estruturas palestinas. Para isso, os EUA terminarão com o seu boicote ao Hamas (que ganhou as últimas eleições), começarão um diálogo político com o movimento e sugerirão que Israel faça o mesmo. Os EUA respeitarão quaisquer resultados de eleições palestinas.

15) O governo dos EUA ajudará o governo de Israel a enfrentar-se com o problema dos assentamentos colonizadores. A partir de agora, os colonos terão um ano para deixar os territórios ocupados e voluntariamente voltar em troca de compensação que lhes permitirá construir seus lares dentro de Israel. Depois disso, todos os assentamentos serão esvaziados, exceto aqueles em quaisquer áreas anexadas a Israel sob o acordo de paz.

16) Eu sugiro ao Sr., como Presidente dos Estados Unidos, que venha a Israel e se dirija ao povo israelense pessoalmente, não só no pódio do parlamento, mas também num comício de massas na Praça Rabin em Tel-Aviv. O Presidente Anwar Sadat, do Egito, veio a Israel em 1977 e, ao se dirigir ao povo de Israel diretamente, mudou em tudo a atitude deles em relação à paz com o Egito. No momento, a maioria dos israelenses se sente insegura, incerta e temerosa de qualquer iniciativa ousada de paz, em parte graças a uma desconfiança de qualquer coisa que venha do lado árabe. A intervenção do Sr., neste momento crítico, poderia, literalmente, fazer milagres, ao criar a base psicológica para a paz.

Tradução: Idelber Avelar

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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16 respostas a Uri Avnery: Carta aberta a Barack Obama

  1. GL diz:

    Achei graça ao termo “site brasileiro”. É nova, nunca havia lido por ex. “site americano”, “site espanhol”. Quase não me lembrava que os sites têm nacionalidades – têm antes, línguas. Autores. Curioso. Pus-me a pensar nisso, de repente.
    Desculpe, nada a ver com o assunto.

  2. Nuno Ramos de Almeida diz:

    GL,
    Site brasileiro é para se perceber que a norma gramatical não é a do português de Portugal.

  3. Pingback: Uri Avnery: Carta aberta a Barack Obama | Splog

  4. xatoo diz:

    (eu quando é assim “traduzo” do brasileiro para português – por via de evitar que a atenção se desvie do assunto)

    quanto à resposta ao geronte Uri Avnery dava um livro sobre a teologia judaica dos arrependidos. Tão criminosos são os genocidas de hoje (praticamente apoiados pela totalidade da Knesset sionista) como o foram ontem os soldados que combateram pela expulsão dos árabes em 1947/48. Como eles dizem nas fábulas talmúdicas: é tudo uma questão que tem a ver com o princípio

  5. GL diz:

    Qual a relevância disso? É uma informação completamente desnecessária.

    Por essa via, ao linkar um site em inglês, é preciso avisar que a regra gramatical é a americana ou a britânica.

    O melhor talvez seja informar a autoria do site, não a nacionalidade.

    Qual será a nacionalidade de um blog de Mia Couto? “Blog moçambicano, entretanto com norma gramatical do português de Portugal”.

  6. GL diz:

    “por via de evitar que a atenção se desvie do assunto”

    Hu? Que estranho. “No compreendo”. Definitivamente.

  7. Este blog está a começar a ficar Sieg Heil demais para meu gosto…

  8. Nuno Ramos de Almeida diz:

    GL,
    A informação sou eu que dou nos meus textos, se você acha que é desnecessária, isso importa-me muito pouco. Aconselho-lhe a ir brincar com o Magalhães e não me chatear com comentários parvos.

  9. o sátiro diz:

    foram os árabes k iniciaram e perderam as 3 guerras contra israel. Quem perde guerras sofre as consequências. Muito pior sofreram os civis alemães k viviam no leste da europa ocupada pelo exército vermelho.

  10. o sátiro diz:

    foram os árabes k iniciaram e perderam as 3 guerras contra israel. Quem perde guerras sofre as consequências. Muito pior sofreram os civis alemães k viviam no leste da europa ocupada pelo exército vermelho, com a derrota dos nazis.

  11. O Obama? Lá vem o blá blá blá da esquerda burguesa e reformista.
    Já conseguiu ser pior que o Bush. Ainda nem é presidente e já está coberto do sangue de inocentes. Ler as declarações do ” yes “. Aliás, quanto a Guântanamo já tinha mostrado ao que vinha: fecehe-se mas!…tem tempo, haja calma. Pois. Só revolucionários.

  12. GL diz:

    Ok Nuno. Só acho isso de um provincianismo atroz.

    Eu sei que lhe importa pouco, só estava a dar uma opinião.

  13. Nuno Ramos de Almeida diz:

    GL,
    De cada vez que eu coloco textos do Carta Maior sem menção de que é um site brasileiro, tenho duzias de comentadores a corrigirem-me os brasileirismos como fossem meus. É esta a razão, porque explico a nacionalidade. E ao contrário de si, quando cito uma jornal, do ponto de vista profisisonal, é costume escrever: “o diário espanhol El Pais, a cadeia de televisão árabe … o semanário colombiano, Semana, etc… “. Não vejo nenhum provincianismo nisso.

  14. Acção directa,
    Estou a publicar um texto não estou assinar. Mas estou cheio de curiosidade sobre a tua falta de reformismo. O que fazes? a revolução no café? ou ficas-te apenas por não tomar banho?

  15. GL diz:

    “tenho duzias de comentadores a corrigirem-me os brasileirismos como fossem meus.”

    Percebo. Essa mentalidade coca acabará por mudar, até porquê agora só há uma grafia do português. Agora, que comentadores são esses que não percebem tratar-se de um texto do Brasil? Fogo… caramba.

  16. Patricia Costa diz:

    O presidente eleito dos EUA tem muitos problemas para resolver e não tem nenhuma varinha de condão.Talvez que nenhum presidente tenha recebido uma herança tão complicada em todos os aspectos,como este vai receber.Nem um mandato completo chega para acudir aos problemas internos,quanto mais aqueles que o resto do Mundo tem

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