Onde está a esquerda israelo-palestiniana?

Durante a minha vida de nómada europeu convivi com refugiados israelitas católicos, israelitas palestinianos ateus, com libaneses muçulmanos, libaneses ateus, palestinianos muçulmanos e sei lá que mais! Amizades duradouras, amizades fugazes, colegas de trabalho e co-autores de artigos científicos ouvi-os durante anos sobre a questão israelo-palestiniana. Algumas das histórias eram duras e deixaram sequelas físicas. As opiniões sobre o conflito eram diversas, mas eram comuns num ponto: a solução não passava pela disputa da fronteira ao centímetro e só poderia ser de cariz diplomático.

Até hoje, a única ocasião em que essa solução foi conseguida deve-se ao esforço quer da esquerda palestiniana quer da esquerda israelita. Por muito criticáveis que sejam, o que é certo é que Rabin ou Arafat conseguiram (com ajuda, mas a diplomacia é assim mesmo) o que mais ninguém conseguiu. Desde então, Rabin foi assassinado por extremistas fanáticos cujo objectivo de boicotar o processo de paz foi plenamente conseguido e Arafat morreu deixando caminho livre à extrema-direita e aos fanáticos do Hamas (preferia não ter razão, caro Francisco). Com a direita dura, a extrema-direita e os fanáticos quase todos no poder em Israel e na Palestina, a guerra a meio-gás é a solução ideal para se perpetuarem no poder. E a vitimização é uma arma que ambas as partes empregam com maestria. Eles sabem muito bem o que fazem. Os mísseis de Israel dão votos ao Hamas e os rockets do Hamas dão votos à direita dura e à extrema-direita israelita. Aliás, não me admirava nada se o espectro político das duas partes se deslocasse ainda mais para a direita. Há bem pior do que o Kadima em Israel e dentro do Hamas há quem considere os actuais governantes como traidores. E é exactamente a palavra traidor que tem sido a palavra-chave dos extremistas. Segundo o seu assassino Rabin era um traidor e Arafat sempre foi um traidor para o Hamas (apesar de estes terem sido apoiados por Israel). Todos os que tentarem um processo de paz naquela zona serão forçosamente traidores. É uma lógica que só deixa de fora do conceito de traidor os mais sanguinários e os mais fanáticos, esses serão sempre virgens puras intocáveis.

A região entrou num processo de retro-realimentacao positiva que desloca sucessivamente o espectro partidário para o fanatismo e a ortodoxia, que cultiva a paranóia colectiva e a vitimização. Para além de uma intervenção da ONU, só vejo uma solução para quebrar este ciclo vicioso. Seria algo como uma união das esquerdas israelo-palestinianas e da minoria de direita que acredita na diplomacia num programa político comum para a resolução do conflito; num compromisso de paz pré-eleitoral que deixasse apeados os amigos dos mísseis e dos rockets, que os isolasse. Assim cada rocket e cada míssil disparado antes das respectivas eleições teria um valor político muito mais reduzido. A esquerda europeia poderia dar uma valiosa ajuda nesse difícil combate interno, sobretudo depois da eleição de um presidente dos EUA de “esquerda”. Convém relembrar que foi justamente com um presidente americano de “esquerda” que Rabin e Arafat assinaram os acordos de Oslo.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

6 respostas a Onde está a esquerda israelo-palestiniana?

  1. Ana Paula diz:

    Esta é uma questão realmente séria e pertinente… talvez o verdadeiro ponto de partida para a solução…

  2. Luis Moreira diz:

    Rui,este seu artigo devia ser lido pelo João P Castro e pelo Carlos Vidal, um e outro grandes conhecedores da situação e com belas ideias para ajudar à solução do conflito.Um acha que se devia matar todos os Israelitas o outro,todos os Palestinianos!Sem dúvida que o problema ficava resolvido.Só não dizem se deveriam morrer ao mesmo tempo.Mas isso tambem não interessa nada!

  3. Carlos Vidal diz:

    Luís Moreira, você teima em não ler nada do que escrevi, nem lê ou nem sabe o que lê. Senão, veria o disparate do comentário. Pessoas como você são o sinal de que projectos como o de Said e Barenboim, que aqui destaquei e blogues como o arrastão ecoaram, estariam condenados ao fracasso. Mas, quando um palestiniano e um israelita se juntam para interpretar Wagner ou Beethoven ninguém mais pensa no que diz Luís Moreira sobre o que não leu nem entendeu.

  4. RB diz:

    Curioso essa sua perspectiva de que as esquerdas é que fazem a paz. Que eu saiba, foi Menachem Begin que assinou a paz com o Egipto; foi durante os tempos de Yitzhak Shamir que se realizaram as conversações de Madrid; foi Ariel Sharon quem teve a coragem de retirar completamente da Faixa de Gaza em 2005.

    Rabin é realmente uma grande figura, mas não só politicamente. Estude o percurso militar do rapaz e verá daquilo que lhe falo…

    Vai ver que o passará a odiar em menos de 2 tempos

  5. “E a vitimização é uma arma que ambas as partes empregam com maestria. Eles sabem muito bem o que fazem. Os mísseis de Israel dão votos ao Hamas e os rockets do Hamas dão votos à direita dura e à extrema-direita israelita. ”

    Faz falta quem o diga.

  6. Nando diz:

    Não vejo o porquê de empregar com tanta veemência a palavra “esquerda” no post. Como se não fosse possível haver pessoas de “direita” pacifistas. Aliás, quando se refere à esquerda europeia é como se dissesse que boas soluções não podem/não devem passar pela direita. Lembra-te que na Europa ser de direita não implica apoiar o Hamas ou o governo de Israel.

Os comentários estão fechados.