EDWARD W. SAID (III) e DANIEL BARENBOIM (I): Almas gémeas, amigos gémeos, uma obra comum que se prolongará


A Orquestra Sinfónica West-Eastern Divan, criada em 1999, é constituída por músicos egípcios, israelitas, jordanos, palestinianos, foi o último sonho de EDWARD SAID, o último dos humanistas como eu gosto de o chamar, foi e é concretizada diariamente pela alma gémea de Said, o judeu DANIEL BARENBOIM, um dos grandes maestros do século XX (que dispensa apresentações, obviamente), Barenboim que também foi alma gémea da ideia e do projecto, hoje gerido pela Barenboim-Said Foundation.
De Barenboim, pouco mais há a dizer para além do que eu disse, mas um episódio recente merece referência. Em Israel, há pouco tempo, atreveu-se a interpretar Wagner, um excerto orquestral do “Tristão” se não me engano. Explicou porque o fazia e, na sua terra, viu metade da sala sair. A música impôs-se e Barenboim, conhecido wagneriano, continuou e permitiu que saísse quem quisesse.
Este vídeo é de Londres, dos Proms, e nele a Orquestra Divan interpreta a abertura dos “Mestres Cantores” (um excerto). Barenboim dirige-se à assistência londrina: “não estou aqui para apontar o que está mal no Médio-Oriente, estou aqui para dizer o que está bem” e aponta para a “sua” orquestra. Bem haja Barenboim, bem haja Wagner.

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5 Respostas a EDWARD W. SAID (III) e DANIEL BARENBOIM (I): Almas gémeas, amigos gémeos, uma obra comum que se prolongará

  1. xatoo diz:

    pois claro:
    “não estou aqui para apontar o que está mal” diz o Barenboim
    não tomar partido, ser neutral, entre a formiga e o dinossauro é o que está a dar. Estes judeus, quando não são Sionistas, são uns grandes marados,
    por acaso assisti a uma coisa dele na StaatsOpera de Berlim – uma obra do Schoenberg – a Espera – foi giro, muito pós-moderno, embora fosse areia demais para a minha modesta camioneta. A primeira parte decorreu com a orquestra e o gajo enfiados no fosso sem emitirem um único acorde e uns mimos em palco representando cenas de uma espécie de bailado em ultraralenti (a história). No final metade da assistência aplaudiu pateticamente, a outra metade assobiou freneticamente – e o Maestro Estrela Judeu do meio capitalizou mais um “escândalo” mediático – sim porque esta coisa da fama e proveito não se adquire tomando partido; instrumentalizar os dois lados é uma velha técnica da filosofia judaica.
    shalom capitalism

  2. Carlos Vidal diz:

    Ó xatoo, então sou aqui insultado por ser anti-sionista primário e sionista, ao mesmo tempo?
    Vamos, estava a brincar com a pergunta.

    A sério, não vi essa produção de Shoenberg em Berlim. Mas uma coisa é o trabalho de Barenboim, outra é o trabalho do encenador.

    Já agora, xatoo, quem era o encenador dessa produção?
    Está interessado em responder ?
    Curiosidade minha. Gosto de discutir encenações (e não apenas interpretações musicais).

  3. xatoo diz:

    o encenador era o incontornável Robert Wilson
    a música do Arnold Schoenberg sobre a peça de teatro Erwartung.
    esteticamente uma maravilha, com um design de luzes espantoso
    fica uma pequena recensão; a não perder, se voltar a aparecer por aí
    http://www.dw-world.de/dw/article/0,2144,2170408,00.html

  4. Carlos Vidal diz:

    Curiosamente, o Bob Wilson não é muito de mexer na estrutura do palco, do fosso, etc. Ele trabalha, para além da luz, essencialmente os actortes/cantores, fá-los moverem-se de tal forma que quase ficam sem poder cantar (aconteceu com Domingo), hirtos e com movimentações não naturalistas exasperantes e estilizadas. É o anti-naturalista por excelência, e por vezes os resultados são espantosos, outras vezes decepcionantes, outras apenas repetições de uma linguagen consolidada. Mas Barenboim já trabalhou com outros próximos do naturalismo ou de um naturalismo trágico, violento. Por exemplo, creio mesmo que o DVD do ano é o Tristão e Isolda do Scala, por Barenboim e Patrice Chéreau (é de cabeceira, é violento, é cruel, é magnificente), ed. Virgin.

    Não sei se isto lhe interessa, mas julgo que sim.
    Chéreau é mesmo o oponente por excelência de Wilson. Gosto de ambos, mas prefiro Chéreau.

    Entretanto, xatoo, grato pela informação.
    (A Erwartung passou pelo S. Carlos há pouco ainda no tempo de Pinamonti – tempos que JSócrates, o engenheiro, sepultou.)

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