Uma brincadeira de mau gosto


 

 

Para essa senhora pouco humorada que se chama Margarida Moreira, directora-regional da DREN, o que se passou na Secundária do Cerco foi apenas uma brincadeira.

Há algum tempo que conhecemos o sentido de humor da senhora, nomeadamente desde que não achou mesmo piada nenhuma a uma anedota sobre o primeiro-ministro, contada pelo famoso professor Charrua. O mesmo que, mal se soube da anedota contada no remanso do seu gabinete (dizem que foi um insulto, o que neste caso vai dar ao mesmo), foi suspenso, alvo de processo disciplinar e demitido.

Desta vez, sabemos que a dita senhora também não achou piada nenhuma. Porque a brincadeira, disse, foi de mau gosto. A sério teria sido se a pistola não fosse de plástico e se o soco simulado tivesse atingido a professora. Mas como nada disto aconteceu, foi apenas uma brincadeira.

E tendo em conta o contexto social desta e de outras escolas do país, temos de dar razão à directora-regional da DREN. Como dizia um morador do bairro, aquilo não foi nada, tendo em conta o que é o quotidiano na Secundária do Cerco. Desde que viu uma professora e um porteiro a saírem de ambulância em direcção ao Hospital, esse morador já não se espanta com nada.

Como é óbvio, nada de substancial vai acontecer a estes alunos. O actual Governo publicou um novo Estatuto do Aluno muito mais permissivo do que o anterior, onde os professores perdem a influência decisória que tinham e onde as penas mais graves passam a estar nas mãos das Direcções-Regionais. Na prática, o que costuma acontecer é que a DREN anula as decisões das escolas e lá voltam os alunos infractores, todos contentes, ao convívio diário com os professores e funcionários.

No meio disto tudo, aparece-nos um tal de Manuel Valente, presidente da Federação das Associações de Pais do Porto, a dizer que a culpa disto tudo é… dos sindicatos! Provando que está a fazer escola, entre os Encarregados de Educação, o estilo do impagável Albino Almeida, o «Pai da Nação».

Para o sr. Valente, a culpa não é de um grupo de alunos do 11.º ano que já têm idade para ter juízo.

A culpa não é de um Conselho Executivo que preferiu ignorar a situação.

A culpa não é de uma DREN que considerou o caso apenas uma brincadeira.

A culpa não é de uma Federação de Pais que desculpabiliza tudo o que os seus meninos fazem.

A culpa não é dos Encarregados de Educação daqueles alunos.

A culpa não é de uma sociedade que permite aquele tipo de bairros e aquele tipo de escolas.

Vá lá, que a culpa também não é de uma professora que, completamente indefesa e desamparada perante um grupo de insurrectos, não teve força para se impor.

Não. A culpa é… dos sindicatos de professores. Assim mesmo. E porquê? Simplesmente porque, na sua opinião devidamente fundamentada, estiveram na base da divulgação do filme.

Para o sr. Valente, não foi grave o que se passou (afinal, foi apenas uma brincadeira…). Grave, grave, foi a notícia ter chegado à opinião pública.

No ano lectivo anterior, 190 professores foram agredidos por alunos e pais de alunos. Se tirarmos os fins-de-semana, os feriados e as férias, foi quase uma agressão por dia. Alguns desses professores tinham 68 ou 69 anos e idade para serem avôs ou pais dos marginais que lhes bateram. Como é lógico, a maior parte destes casos nunca foi do conhecimento da comunicação social.

Mas 190 casos até que não é muito grave. Pelo menos, nenhum professor morreu. Como diria a recentemente desaparecida Ministra da Educação, são apenas casos isolados.

 

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