Será que mereço o TPI?

Des professeurs de maths enseignent à leurs étudiants comment faire des coups boursiers. Ce qu’ils font relève, sans qu’ils le sachent, du crime contre l’humanité.

A frase acima tirada de uma entrevista de Michel Rocard ao Monde serviu de catalisador a Denis Gedj, autor de livros e artigos de divulgação matemática para publicar um panfleto anti-matemática financeira. Começando por uma discussão semântica sobre o termo matemática financeira (em contraposição com matemática aplicada à finança) o autor, tal como Rocard, demonstra uma total ignorância da realidade da matemática aplicada à finança.
Começando pela minha experiência pessoal de professor e matemático aplicado: nunca vi ninguém ensinar aos estudantes como praticar “golpes” na bolsa, se algum dos autores se der ao trabalho de ler as primeiras páginas de um qualquer livro especializado logo verá que aí se diz que para ganhar muito tem que se arriscar muito, o célebre principio conhecido como “não arbitragem”. Uma parte importante do ensino em matemática aplicada à finança (no meu caso um Master 2) é consagrado à tecnologia: análise numérica, engenharia de software, cálculo cientifico, etc. Outra parte é consagrada aos ensinos fundamentais: cálculo estocástico (incluindo equações diferencias estocásticas), economia, etc. O resto é consagrado à finança de mercado e serve sobretudo para que os estudantes conheçam os produtos com que vão trabalhar (opções, obrigações, swaps, etc.). Não vejo por que razão merecemos um qualquer julgamento.

Como em qualquer domínio da ciência aplicada há na matemática financeira bons e maus profissionais, como noutros domínios há também quem tire conclusões apressadas e aplique teorias para além daquilo para que forem concebidas. Tal como na engenharia houve uma época em que se partiam barcos por serem concebidos com modelos demasiado simplistas também na actual crise se aplicaram modelos simplistas a produtos demasiado complexos, a matemática foi utilizada como álibi para grandes asneiras. Quando um barco se parte em dois no meio de uma tempestade ninguém se lembra de acusar a teoria da elasticidade propondo o julgamento de Zienkewicz (o criador dos elementos finitos) ou mesmo de Navier que escreveu as equações.

O artigo de Denis Gedj põe em causa todos os que trabalham num domínio tratando-nos de mercenários e desejando implicitamente o desaparecimento da matemática financeira, exprime claramente uma visão maniqueísta da ciência dividida em boa e má ciência, um pouco como no auge do Estalinismo quando se classificavam as teorias como conformes ou não ao Marxismo-Leninismo. Se se pode por em causa a existência de um mercado financeiro, já me parece abusivo procurar impedir a ciência e a tecnologia de desenvolver aplicações para tal realidade.

Para que não se fique com a ideia que tudo é perfeito nas aplicações da matemática à finança devo dizer que um dos factores que contribuíram para a crise actual foi a utilização de alguns modelos como justificação pseudo-cientifica para a criação de produtos que são hoje chamados “tóxicos”. A utilização de modelos matemáticos aparentemente sofisticados e a publicidade que lhes foi dada contribuíram para dar a muito boa gente uma sensação de falsa segurança. Alguns matemáticos que trabalham nas salas de mercado têm grandes responsabilidades pois fazem parte dos factores que permitiram a criação de uma bolha especulativa de crédito dando a impressão, como se diz em francês de “transformar merda em ouro”.

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Uma resposta a Será que mereço o TPI?

  1. “exprime claramente uma visão maniqueísta da ciência dividida em boa e má ciência”

    O Boaventura Sousa Santos é que julga que a ciência tem qualquer tipo de responsabilidade moral.

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