Resposta de Deus a João César das Neves

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Encontrei a seguinte missiva na minha caixa de correio. Presumo que os CTT se tenham enganado. Se bem entendi a coisa, o destinatário seria mesmo o autor desta crónica

Antes de mais, agradeço-te os cuidados, mas olha que estou bem assim. Não Me ofende mesmo nada que Me tratem «como se trata o sol ou a chuva»; se Me deixassem em paz com as vossas lamúrias e cunhas constantes para milagres, aí é que Me proporcionariam um excelso Natal. E tu em especial, se arranjasses um tema qualquer que não fosse essa obsessão por Me atribuíres as tuas ideias e falar sempre em Meu Nome, também muito Me agradarias. Por exemplo, se te apanho outra vez a divulgar imbecilidades como comparar o nazismo à ideia de que uma mãe pode querer não levar até ao fim uma gravidez de um embrião com trissomia 21, levas com um milagre ao contrário que te deixa todo entrevadinho. Não Me associes a esses dislates, por favor.
Depois, essa história do «Deus, porque nos ama infinitamente, dá-nos sempre o Natal», tem que se diga. Primeiro, Eu pouco tenho a ver com isso do Natal: a festa já andava por esses vossos Dezembros bem antes de os oportunistas que se dizem compinchas do Meu Filho a usurparem com as suas árvores luminosas, renas voadoras e outras traquitanas. Estive várias vezes para acabar com aquilo, mas a Mãe dele, que tem o feitio que sabemos – ainda não engoli a ideia de andar a ameaçar crianças em Fátima com o fogo do Inferno se não passassem o dia em novenas –, insistiu e Eu não Me quis maçar mais com o assunto. Mas adiante.

Agora, vamos a essa conversa do Meu Amor, blablabla. Evocas aquela passagem que o Mateus anotou mal (já estava surdo que nem uma porta) com a treta de que eu faço «nascer o sol sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos» (não tinha mesmo mais nada com que ocupar o tempo, sim senhor). Mas também sei que escreves disparates como «se nos convertermos, o horror que a humanidade está a criar será evitado» e que, volta meia volta, vais a Fátima pagar promessas… em que ficamos?
Vê se aprendes de uma vez, que Eu vou cá estar sempre: não castigo os maus com tempestades e não recompenso os fiéis melgas (por muitas voltas de joelhos que dêem ao teu Santuário) com milagres a la minuta. Eu sou mesmo «um mecanismo cego e automático»; estou-Me nas tintas para as vossas misérias, alucinações, felicidade, vida, morte, aflições, súplicas, destinos, fomes, pestes, guerras, aquecimentos globais e tudo o mais que inventam por aí para se martirizarem. Repete comigo: Deus não quer saber. Criei a Terra apenas porque um ponto azul equilibrava muito bem a composição do vosso sistema solar (fica mesmo a matar, sobretudo nas conjunções com Marte, não achas?). Do Meu ponto de vista, a vossa espécie não passa de um tipo sofisticado e persistente de bolor que Me anda a carcomer a bijutaria. Deixem-se de manias de grandeza. E esqueçam a cena de contar com lugares cá em cima quando fenecerem; gostava de saber quando é que perdem essa doença mental colectiva.

Teu e de todos, em toda a parte,
Deus

PS trata de prestar atenção: não é bonito comparares o Taumaturgo à tua tia Maria. Não sei se sabes, mas ela envenenou o teu tio naquele funesto Verão de 82. E, nas tuas costas, chama-te “beato insuportável”. Além disso, o bolo-rei que vos vai servir já está no congelador dela desde o Natal passado. Eu, se fosse a ti, passava.

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