Madoff: para além da burla

O escândalo Madoff é aparentemente apenas mais um exemplo de uma burla tipo Dona Branca, no entanto, quando se começa a conhecer os detalhes apercebemo-nos que o caso é sintomático do que se passa hoje em dia nos mercados financeiros.
Bernard Madoff antigo presidente de uma das bolsas de New-York, personagem mundana, faz parte de um grupo a que podemos chamar aristocracia da finança. Este aspecto do personagem está no epicentro do escândalo, as primeiras vítimas são as grandes fortunas que faziam parte das relações sociais de Madoff. Para investir tinha que se ser recomendado e o fundo tinha uma lista de espera o que cultivava a reputação de produto elitista. Tudo isto mais uma aura de génio permitiu que muita gente aceitasse como normal uma rentabilidade muito superior à da taxa de juro durante muito tempo quase sem risco.

Sendo Madoff também proprietário de uma empresa de intermediação (broker) pode imaginar-se que muitos investidores imaginaram que as informações dessa empresa permitiam ao fundo uma vantagem concorrencial determinante sobre as outras empresas do sector, simplesmente este tipo de comportamentos não só é ilegal como é cada vez mais difícil de concretizar em ganhos regulares devido à rapidez e transparência dos mercados electrónicos, hoje em dia a compra ou venda de um grande número de títulos é conhecida de todo o mercado em décimos de segundo.

Outro aspecto interessante é o facto de neste escândalo terem sido vítimas alguns grandes bancos através de um mecanismo conhecido como “leverage” (alavanca). A técnica, utilizada por inúmeros fundos de investimento, consiste em aumentar a rentabilidade de um fundo que produz uma performance ligeiramente superior à taxa de juro recorrendo a capital emprestado por um banco. Os números são confidenciais mas ouve-se regularmente falar de rácios de 10 ou 20, ou seja, alguns fundos jogam com 20 euros por cada euro que têm em gestão, os 19 euros da diferença são emprestados. Em geral os bancos exigem garantias, simplesmente, quando as garantias são partes do fundo Madoff o valor das mesmas transforma-se bruscamente em 0.

Nesta história são também vítimas alguns fundos de fundos. Estas empresas servem de intermediários entre investidores e fundos de investimento, o seu trabalho consiste na diversificação dos investimentos com vista a diminuir o risco (em vez de por todo o dinheiro num fundo põe-no em vários) e na selecção de fundos de grande qualidade. Os fundos de fundos cobram uma comissão que se vem juntar às comissões dos fundos que que investem, o facto de Madoff não cobrar nenhuma comissão sobre o capital investido explica que alguns fundos de fundos tenham esquecido as regras básicas: não diversificaram (num caso público 50% do capital estava investino em Madoff) e não verificaram a gestão de Madoff como fazem com outras empresas.

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