O centro-esquerda e a direita querem uma indignação com “limites” (e eu não sei o que isso quer dizer como “valor absoluto”)

hirschhorn11
Tinha de acompanhar este post com uma instalação de um dos artistas que mais considero actualmante: Thomas Hirschhorn, instalação (ICA, Boston, 2005).

Tenho aqui duas frases do mesmo blogue: a frase 1: [Os finalistas do 12º ano israelitas que recusam o serviço militar] são, muito mais dos que por essa Europa se misturam com manifestações para escolherem a violência como arma da indignação, heróis.

A frase 2: Não é preciso ser bruxo para adivinhar que esta orgia de violência vai ter um fim político muito triste.

Para que servem estas frases? É para o leitor adivinhar quem as proferiu. Algumas hipóteses: Manuela Ferreira Leite? Cavaco Silva? Paulo Portas? Augusto Santos Silva? Pedro Silva Pereira? Outro?
(Atente-se no meu sublinhado negro)

NOTA: são heróis os jovens israelitas que se recusam a participar numa força bruta de ocupação. Não sei é porque é que são “mais heróis” do que aqueles que escolhem a violência como forma de indignação (na Grécia, nomeadamente). Acho mesmo que o ataque (e a ocultação) às manifestações na Grécia (e não me interessa como vão terminar – INTERESSAM-ME É QUE EXISTAM! NÃO ME INTERESSA NENHUM TIPO DE SONO SOCIAL), acho que esse ataque é aliado da imprensa meio ditatorial que nos esconde o essencial – e o essencial é que a indignação é tão forte que passou a ser violenta: e quem tal protagoniza sabe das suas razões melhor do que nós. A consciência do irreprimível pertence-nos a nós, mais do que aos animais.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

14 Responses to O centro-esquerda e a direita querem uma indignação com “limites” (e eu não sei o que isso quer dizer como “valor absoluto”)

  1. Nuno Ramos de Almeida diz:

    A segunda frase é do meu amigo Daniel Oliveira 🙂 Acertei?

  2. Carlos Vidal diz:

    Deixa vir mais comentários, mas a palavra “bruxo” não é muito usada pela malta das direitas. Além disso, não sei como é que o autor sabe já desse “fim político muito triste”.
    (Depois, o que é isso de “triste”? – um desenvolvimento da coisa: a Comuna de Paris teve um fim triste, mas hoje vivemos das suas conquistas: igualdade homens/mulheres, horário de trabalho, escola pública, etc, etc. “Triste”, sim, mas com consequências. Se nada arriscarmos fora da lei, como acabaríamos?)

  3. Carlos Fernandes diz:

    Os contestatários e protestantes gregos até podem ter toda a razão nos seus protestos, e não há dúvida que a a actual classe política grega está cheia de corruptos, mas perdem-na no modo de os exprimir, tal como aqueles que perdem a razão quando a defendem aos gritos.
    Senão vejamos, o C. Vidal tinha, por uma hipótese, uma loja na baixa de Atenas (de tintas e produtos para pintura, por ex.), destruída e roubada por protestantes, qual seria, neste momento, a sua opinião? Just curious…!
    Ou iria dizer a um vãndalo prestes a partir a sua montra “ai o amigo é de esquerda (ou direita), ai lê Marx e Sartre, bla bla, faça favor de escavacar à vontade”…

  4. Pingback: europa » Blog Archive » O centro-esquerda e a direita querem uma indignação com “limites” (e eu não sei o que isso quer dizer como “valor absoluto”)

  5. o sátiro diz:

    há muito mais indignação- e com toda a razão- entre os milhões de trabalhadores chineses despejados literalmente das fábricas suburbanas(onde eram explorados) que faliram por falta de exportações para os usa. E sem apoio social do governo comunista! Mas, lá está, a censura do partido não permite filmar as multidões esfomeadas a assaltar sedes da polícia política, do partido e dos governos regionais. E no ocidente há o faz de conta de k só na grécia há distúrbios (vandalismo de queques mimados…). Mas o “asianewes” e o “dazibao” contam realidades chinesas terríveis.

  6. «Se nada arriscarmos fora da lei, como acabaríamos»

    Isso vale, também, para os gestores bancários, certo?
    Pegando no exemplo de Carlos Fernandes, imaginemos que Vidal tinha todas as poupanças de uma vida no Millennium de Atenas e que estes Heróis contestatários tinham destruído e saqueado a agência.
    O que fazia?
    Hipótese A – Encolhia os ombros, sorria, ficara sem nenhuns bens materiais mas fora em sequência do corajoso acto libertário executado por Heróis.
    Hipótese B – Exigia que os sacanas dos capitalistas lhe devolvessem todo o dinheiro que lá tinha depositado como estava estabelecido contratualmente.
    O engraçado destas análises é que achamos que há leis e contratos que têm de ser respeitados, outros podem-se transgredir (desde que não nos afectem directamente, claro).

  7. Acho que os Gregos andam a dar beliscões ao valorzecos que se engalanaram dos mais excelsos … se aquilo é violência, então não sei o que será: Roubar o direito a um puto de 15 anos de se suicidar, de atirar para o desemprego quem andou a estudar mais de 12 com muito sucesso ( não lhes permitindo a dignidade de pagarem o seu próprio pão; no caso das raparigas de pagarem os seus próprios pensos-higiénicos!!!!!) etc etc que vocês já trauliteiam de cor … Isso sim me parece violência …
    Este pessoal é que me parece totalmente esclerosado pelo visionamento de novelas Sic-Tvi …
    A facilidade com que se estendeu o tapete vermelho à Banca, onde agora até a baronagem em bicos de pés até já levanta garimpa y querem processar o Estado ( F-se!) y el povo fica sereno como se os homenzinhos até tivessem direito! …
    ………………
    N sei porquê mas uma sopinha-dos-pobres-colectiva não fazia mal nenhum a ninguém, uma espécie de treino para a cova que vai ser igualita para todos.

  8. Carlos Vidal diz:

    Acho que aqui o sátiro está a tocar numa questão verdadeiramente interessantíssima, importante, a mais importante de todas: é verdade que na China a repressão é sonegada pela imprensa do partido. Ponto.

    No ocidente, os tumultos na Grécia, por outro lado, são sonegados pela imprensa da democracia. Bom, sátiro, acabou de comparar duas situações muito semelhantes: o da China e a do ocidente grego. As informações sobre a Grécia são escassíssimas. Na China também. E depois? Agradeço ao sátiro o ter posto as coisa num verdadeiro pé de igualdade. Sobre a Grécia, o “Público” de ontém, se não erro no dia, tinha 1/6 de página. O DN não leio. Mas aposto que nada.

    Caros Carlos Fernandes e Pedro Oliveira: não sei se perante um movimento clectivo e problemas daquela dimensão, não sei se seria a minha loja que me viria primeiro ao pensamento. Estou a ser sincero.
    Não sei.

  9. Caro Carlos Vidal,

    Agradeço-lhe a sinceridade.
    O «não sei».
    A demagogia barata (no sentido comum e não no etimológico) seria fácil.
    Escrevia qualquer coisa de esquerda arrebatadora, tipo:
    – Camaradas, o colectivo é sempre mais importante que o todo.
    A minha luta é colectiva, não é individual.
    Prescindiria de bom grado da minha comodidade pelo bem da comunidade, do povo (à imagem daquilo que fazem os deputados da república, democraticamente eleitos, por exemplo).
    Não o fez.
    Tenho imensa consideração por essa atitude.
    Adapto uma frase dum gajo americano chamado Kennedy para dizer o seguinte:
    – Não perguntem o que a Grécia pode fazer por vós, perguntem-se… o que poderei fazer pela Grécia?
    Se a resposta for: Destruir, estarão de acordo com Carlos Vidal e mais uns quantos… se a resposta for: Unir Forças Físicas e intelectuais (UFFi) suspirarão de alívio e podeis canalizar a pujança física (e intelectual) para produzir.
    Por exemplo pegando em enxadas, germinando alimentos.

  10. Carlos Fernandes diz:

    Pois acredito plenamente na sua sinceridade… Até porque de facto não tem loja em Atenas. Mas permita-me a pergunta, que culpa têm os coitados dos lojistas ? Eu, que tenho uma loja em Lisboa, não resisto a pôr-me no lugar deles. Ainda se algumas loja fossem dos políticos que conduziram a Grécia a esta situação….

    P.S. Outra pergunta se não levar a mal… por acaso não andou em Economia no ISE ( passou-se a chamar ISEG pouco tempo depois) nos anos 80 (84, 85…); é que eu lembro-me de um colega que era na altura jornalista/ crítico de arte… Cumprimentos

  11. Carlos Vidal diz:

    Carlos Fernandes, nunca andei no ISE. Andei e ando (aprendendo e ensinando) na FBAUL, antes com o nome mais simpático de Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, a velha ESBAL.

  12. k.r. diz:

    pois, a ‘consciência do irreprimível’….
    Fique bem.

  13. Carlos Vidal diz:

    Não percebo o seu espanto k.r.
    A consciência do irreprimível não tem uma dimensão gratuita: não se trata de dizer que agora não posso reprimir a minha vontade de partir tudo, então como experimento o irreprimível, vou partir tudo.
    Não. É muito diverso.
    E é simples, muito simples. Trata-se por exemplo do milhão de pessoas que desfilaram no 1º de Maio de 1974 em Lisboa. O desejo de liberdade é irreprimível. Em nós e nos animais, certamente. Mas disso só nós temos a consciência. Só isso.

  14. k.r. diz:

    Não foi espanto nenhum C.V. Apenas quis assinalar concordância, pois no dia da publicação não o fiz que não me apetecia.
    Nem espanto com o seu post, nem com os acontecimentos na Grécia e outros mais, nem mesmo em mim, que até sou de paz mas já experimentei o ‘irreprimível’ algumas vezes….

Os comentários estão fechados.