Exercício de estilo
20 de Dezembro de 2008 por António FigueiraSempre apreciei o paradoxo e a experimentação formal em todas as circunstâncias e sempre me pareceu que este tipo de invenção constituía a marca de um gosto seguro, ao alcance apenas dos mais dotados. Tome-se por exemplo a representação do inferno do célebre Ruysbroeck em que os gulosos surgem alimentados a enxofre escaldante e a pez fervente, e em que o fogo que engolem determina o suor que escorrem: o grande místico flamengo contava a seu propósito a história assustadora de três monges que se entregavam sem descanso ao terrível pecado da gula e que, desprezando a sua regra, desertavam os outros frades à hora das refeições para comerem sozinhos aquilo que para si sós tinham preparado; ora dois deles morreram subitamente e apareceram ao terceiro, dizendo-lhe que também ele estava amaldiçoado. – E vós, sofreis muito?, perguntou este, horrorizado. Como resposta, um dos mortos estendeu a mão, tocando com a mão transpirada num candeeiro de bronze, que em menos de nada se fundiu, como se fosse cera numa fornalha ardente. A particularidade desta visão está em que o princípio destruidor reside, não no calor das chamas, mas no suor dos condenados, e em que este suor não é, como de ordinário, aquoso, mas antes corrosivo, de modo que é o elemento contrário do fogo infernal – o líquido – que se constitui no seu mais seguro agente.

Comentário de De Puta Madre
Data: 20 de Dezembro de 2008, 18:05
Nem mais António Figueira … O egozinho de muita gente é puro ácido mais para o próprio do que para quem tem que levar com as mito-megalo/manias…