O carisma maculado de Sócrates e Santana

Carisma, Barakah, graça divina, etc. Venha do altíssimo, dos genes ou de maneirismos cuidadosamente ensaiados, facto é que uns têm e outros não. E, em política, trata-se de coisa mais preciosa do que ouro. Aqui, “carisma” é a faculdade de convencer os outros ainda antes de abrir a boca; de conquistar sem ter sequer de argumentar.
Este ingrediente miraculoso é a única razão por que o PSD continua “entusiasmado” com o seu velho e gasto menino d’oiro, mesmo que já enferrujado por derrotas, tristes figuras e vergonhas várias. É que, mesmo assim, Santana ainda tem o tal carisma que falta a quase todos os seus correligionários, exceptuando talvez Marcelo e Passos Coelho (daqui a uns anitos de tirocínio). Mencionar agora Manuela Ferreira Leite seria cruel.
No lado do PS, Sócrates também é uma demonstração viva da possibilidade de divórcio entre carisma e capacidades reais: enquanto controle o seu lado colérico, basta-lhe fazer aquela cara compenetrada, evitando aparecer de perfil, para suprir muitas das suas lacunas reais. O problema é que isto vai chegando para ganhar eleições mas não governa um país.
E mais: o carisma vem com veneno. Os portadores do dom estão condenados a viver bem acima dos meros homens, nunca com eles se podendo confundir. Daí a secular queda para a ostentação da aristocracia, dos príncipes da Igreja e dos rappers. Ou, no outro extremo, a exibicionista mortificação de ermitas, estilitas e outros santos mendicantes. Estas criaturas nunca arriscam comportamentos só humanos.

O que acontece ao profeta que se engana? Lapidado. O político-guerreiro que parece predestinado a todas as vitórias é derrotado uma vez de mais? Mais um exilado do olvido. Eis o destino certo de Santana se perde agora em Lisboa.
Sócrates já começou há muito a mostrar de forma embaraçosa que o seu carisma tem a profundidade da boa seda Armani. As trapalhadas da caça ao canudo. Os esquema banais em torno dos horrendos casebres que foi por aí semeando. As pressões e os odiozinhos dirigidos a quem ouse desafiá-lo. Passo a passo, ele mesmo já tratou de confessar que não é melhor que nós: sucumbe às mesmas fraquezas, cai nos mesmíssimos pecadilhos.
Sócrates está maduro para desabar aos pés do primeiro inimigo a sério com que se depare. Santana continua a ser a melhor aproximação disso que o PSD consegue lançar; e a sua promessa de morrer em batalha sempre é mais inspiradora do que a lenta descida para a mediocridade do seu adversário. Santana ainda é perigoso, não se enganem.

Enquanto os grandes partidos continuarem de costas para a ideologia, resumindo-se à política de gestão corrente, desistem das grandes narrativas com que galvanizar as hostes e quedam-se presos à demanda do próximo abençoado com o sagrado dote. Encontrar quem consiga coser na mesma pessoa ideias e carisma seria o ideal; mas quantos Obamas andarão por aí à solta?

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