Perfilados do medo

Entramos na cidade “deles”. Vínhamos dos arredores, dos subúrbios cinzentos à beira do rio. Como por milagre, ficámos frente a frente. Entre nós e os burgueses, reunidos à porta da Catedral acumulavam-se os policias de choque encapuzados. Tinham medo. Nós éramos os mais pobres, a nossa vida era uma merda, mas eles tinham medo de nós. Medo. Em surdina, começaram a ouvir-se das profundezas do nosso inferno privativo gritos cada vez mais fortes. Os polícias pareciam cambalear com o nosso ódio. Recompostos, apontaram-nos as armas, parecia que a cada um de nós estava destinada a sua bala. Um arrepio frio percorreu-me a espinha. Estava vivo. Sentia o vento. Repentinamente, o tempo pareceu quebrar-se. Vindos de trás, os cocktails molotov voaram e foram explodir sobre a massa cinzenta das fardas. Dispararam. Corriamos. Levei uma pancada seca de uma bala de borracha e caí. Arrastaram-me. Toda a rua cheirava a borracha queimada. Fugimos para o bairro velho. Os nossos corações latejavam mais fortes do que os passos. Entramos numa entrada aberta de um prédio. Calados. Respiração pesada. Na rua ressoava a correria. A meio metro de nós passaram os polícias, com o cheiro do medo daqueles que são estrangeiros nos bairros escuros.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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