Isto diverte mas começa a ser cansativo

Nos meus textos e nos comentários (aos meus e aos do Carlos Vidal) eu disse não sei quantas vezes que não pretendo tornar a arte mais “fácil” ou mais acessível. Nesse sentido arte e ciência não são democráticas: não é qualquer um que pode começar a fazê-las. Sou totalmente contra os governos darem qualquer tipo de indicações aos investigadores ou aos artistas para seguirem linhas pré-determinadas. Sou investigador e isso afecta-me. A liberdade académica é fundamental. A arte, a ciência, tudo o que involva criação requer liberdade e não democracia (que como já disse várias vezes são coisas diferentes e por vezes incompatíveis). Não é isso que está em causa.

O que entendo por “democratizar a ciência” ou “democratizar a arte” é torná-las acessíveis aos cidadãos que por elas se interessarem, mesmo sem serem especialistas, sem nunca alterar o seu conteúdo. Por “tornar acessíveis” entendo fazer divulgação (algo que nem todos os cientistas ou artistas são obrigados ou vocacionados a fazer), ou em alternativa permitir que se faça divulgação desse mesmo trabalho para quem esteja interessado. Este público não é especialista e não deve ser tratado como tal. É até provavelmente à partida muito ignorante, mas é interessado e tem o direito de ver a sua curiosidade satisfeita.

No caso dos artistas, a divulgação mais imediata consiste na realização de exposições, abertas a todos os que as quiserem ver. Não há absolutamente nenhuma bitola diferente para as ciências e as artes. Defendo exactamente a mesma coisa. O que verifico é que os cientistas estão muito mais habituados a este procedimento. Certos artistas pelos vistos resistem. Não podem fazê-lo se receberem dinheiro do estado (enquanto artistas). Mas, repito, não defendo que o Estado interfira na sua liberdade e na sua criatividade de nenhum modo.

Tudo isto vem a propósito dos textos de Carlos Vidal. No mais recente, Carlos Vidal atribui-me entre outros qualificativos uma frase que nunca escrevi: “a função de qualquer artista [é] fazer com que as pessoas gostem um pouco mais de arte”.

O que eu escrevi (nos comentários) foi “Entendo que faz parte da minha função fazer com que as pessoas gostem mais um pouco de física. Tal como faz parte da função de qualquer artista fazer com que as pessoas gostem um pouco mais de arte.” “Faz parte” no sentido explicado nos parágrafos acima. E “faz parte” dessa função: nunca “é” essa função, unicamente (nem sequer principalmente). Mas quem é pago pelo Estado não se pode furtar a essa função.

A outra frase que Vidal me atribui até é verdadeira mas está descontextualizada. Escrevi “querer tornar a arte acessível a todos não implica necessariamente ter que fazer concessões”, exactamente no mesmo sentido em que (mais uma vez…) acima escrevi. “Acessível” nesta frase no sentido de “estar acessível” e não de “ser acessível”. São duas coisas muito diferentes (a língua portuguesa tem essa riqueza de distinguir o “ser” do “estar”). A minha tese resume-se na frase “a arte não tem que ser acessível, mas deve estar acessível”. Parece uma tese bastante óbvia mas pelos vistos não é para toda a gente. Carlos Vidal defendeu aqui que “Uma obra de arte não pode nem deve estar acessível a qualquer pessoa”. Para não deixar dúvidas, acrescentou: “a arte não pode ser para todos!” É contra esta posição que eu me tenho vindo a insurgir.

Carlos Vidal não entendeu (ou fingiu que não entendeu, por lhe dar jeito) a minha distinção entre “ser” e “estar” acessível, e tem-me vindo a responder (nos comentários e em texto) como se eu defendesse que a arte tem que “ser” acessível, algo que não defendo e nunca defendi. Não têm pois qualquer procedimento as respostas que me tem vindo a dar. Este tipo de confusões e desarticulação do pensamento não é novidade em Carlos Vidal, conforme os seus leitores poderão testemunhar.

Com que critério julga Vidal quem é ou não merecedor de conhecer as obras de arte? A sua iluminada cabecinha, pois com certeza. Vejamos o julgamento que faz de mim. Sem me conhecer de lado nenhum, nem o que eu sei nem deixo de saber, declara que “a ciência que eu sei” (e pelos vistos, se ele não me conhece, a ciência em geral) é “estrita, reduzida e muito especializada” (ficamos esclarecidos). Decide que, se eu me dedicasse só a ela, “todos teríamos a ganhar com isso”. (Devo agradecer o elogio? E se o Vidal se dedicasse só à arte?) E finalmente manda-me calar, algo que os leitores que fazem comentários simpáticos ao PS sabem que é o que Vidal melhor sabe fazer: “Quem não percebe isto porque é que não se cala e fala de física, só?? Custa muito ?????

(Para não me acusarem de descontextualizar, esta frase vinha a propósito da “crítica de arte”, algo que nunca fiz nem tive alguma vez pretensões de fazer. Vidal confunde uma legítima opinião sobre um filme de um espectador com uma crítica profissional de cinema.)

Finalmente, Vidal proíbe a minha entrada nas suas exposições. Para que conste (sinto-me orgulhoso): “nunca admitirei a entrada de F. Moura numa galeria onde tenha obras minhas expostas. Isto é irrevogável, caríssimos.”

Curiosamente este mesmo autor que acha que a arte (em particular a sua arte, como referiu) “não é para todos” e me proibiu de a ver não se coibiria, dias depois, de exibir aqui, no Cinco Dias, desenhos de sua autoria.

Isto é comigo. E com outros leitores? De Carlos Miguel Fernandes, por exemplo, diz que a sua “arrogância reaccionária julga-se conhecedora de crítica”. Apesar de “não saber quem CMF é” nem “lhe interessar”, Vidal declara taxativamente que CMF “não poderá alguma vez ser” um “apaixonado sensível das imagens”. Pois acontece que Carlos Miguel Fernandes, para além de cientista, é um já reconhecido fotógrafo com um currículo considerável de exposições e obra publicada.

Assim se demonstra o belo resultado que teria a aplicação do critério que Vidal defende: quem teria acesso à arte seriam os “escolhidos”. Por quem? Por quem já tem acesso à arte. Os melhores não seriam necessariamente os escolhidos, como o exemplo do Carlos Miguel Fernandes confirma.

Infelizmente, este caso exemplar ilustra bem o estado bafiento de algumas universidades portuguesas. Carlos Vidal é assistente da Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Conforme aqui já tem defendido, só lá deve ter acesso quem tiver passado pela sua formação, pela sua “escola”, que consiste em “desigualdades académicas, disciplina, hierarquia e gajas”. Quando o interlocutor é alguém que nunca passou pela escola mas é famoso e reconhecido internacionalmente, como Jorge Calado, baixam logo a cabecinha. Quem não é conhecido, mesmo que tenha valor, como o Carlos Miguel Fernandes, é logo automaticamente barrado. Não é “da escola”, e não há escola como “a nossa”. Melhor retrato da academia tradicional portuguesa não há.

Com os insultos e delírios de Carlos Vidal posso eu bem, e julgo que o Carlos Miguel Fernandes também. Afinal, como eu já tenho dito, visto de fora isto até é divertido. Daqui de dentro começa é a ser cansativo. O problema (não é meu, mas não deixa de ser um problema) é que quem emite estes juízos baseados em puro preconceito é professor e – ele próprio o admite – aplica estes critérios aos seus alunos (e aos futuros colegas). E quer que se aplique a todos os cidadãos que ele entender.

Como resolver este problema? Não sei; no caso concreto do meio académico, o ministro Mariano Gago terá as suas ideias. Entretanto aqui no Cinco Dias a gente vai-se rindo com o espectáculo.

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8 respostas a Isto diverte mas começa a ser cansativo

  1. Filipe, não imaginas o gozo y prazer que dá em sacrificar muita coisa ( sapatos, rímel, cabeleireiro, manicura, biquíni, jantar, lux, umas noites de copos y etc. ) para ir a tal filme, ao doclisboa ver o maior n de documentários … (como sou de fora de lx fica numa fortuna!!) … ir ver uma ou outra peça no festival de teatro de Almada ( mto bom!)ou, LX teve a sorte de ter um programador como o Antóniopinto ribeiro na culturgest ( qq espectáculo q ele agendava era sinónimo de investimento …) ou de viagem ir em busca dos tais quadros que temos marcados nos livrinhos da tachen … Essas conquistas, com sacrifícios financeiros garanto-te que são pura adrenalina … nem tudo tem que ser de graça…. Alias o que é de graça parece logo qn é produto chinês sem valor y de má qualidade, y as coisas n são assim… equaciona tb este dado, já agora. O adquirir algo! Um novo romance d Javier Marías!!! pareceu-me que estava a depositar 100 000 Euros na conta bancária. quando cheguei à pagina 40 do terceiro volume UAU pareceu-me que tinha lá 10 milhões de Euros! Romance Impagável ” O teu Rosto Amanhã!” … É altamente acessível a toda a gente, a quem lê Equadores y etc… mas achas que se dispõem a pensar um pouco mais. A suspender a leitura de uma pagina para saborear melhor uma ideia, uma frase, uma forma de pontuar??? Não! Querem papa … …

  2. Bem … só li metade do texto …
    Mas o Cvidal n é nada disparatado … ( acabei por n ler o resto do texto … mas vou ver o CSI … a minha telenovela criminal ….)

  3. Pingback: A arte, o sublime, e tal. « Vida Breve

  4. grim diz:

    Caro Filipe Moura, não sei se agora descemos ao fundo da questão: afinal, tudo se reduz às velhas guerras entre as faculdades de ciências e as de “artes e letras”. Lembro-me que o Bourdieu referia muitas vezes um texto tardio de Kant sobre “O Conflito das Faculdades”, em que apontava precisamente isso.
    Confesso que continuo a não perceber o que quer dizer com a acessibilidade das obras de arte, porque parece-me que as obras de arte, graças também às “indústrias culturais”, estão em geral bastante acessíveis ao público interessado. Mais acessível do que isto, seria uma tolice e uma perversão completa da arte. Porque, como o Carlos Vidal tem dito, uma das qualidades da arte (com A grande) é a de ser de certo modo inacessível, de tentar explorar caminhos por onde ninguém mais andou – e por onde previsivelmente ninguém mais andará! Por isso se diz que, ao contrário do científico, o saber artístico não é cumulativo. Quem não entender este princípio básico não deve perder tempo com a arte, porque vai passar sempre ao lado…o que, como já disse, não tem mal nenhum e não diminui de algum modo a pessoa. O que diminui a pessoa é a maldade, a prepotência e a sobranceria de alguns em relação ao mundo das “artes e letras”, com as quais não há diálogo possível.
    Devo dizer que achei a ameaça velada no final de muito mau gosto e que me deixou bastante incomodado. Eu admito que, num futuro próximo em que as Faculdades de Letras e de Belas-Artes sejam extintas para maior brilho dos Palácios de Cristal das Ciências e das Engenharias, os artistas e os letrados rapidamente criem instituições em que possam continuar a sua actividade; o que não aceito é que sejam julgados por uma burocracia ministerial que não prima exactamente pela sensibilidade estética.

    Aliás, não sei se seria benéfico transferir o mundo das “artes e letras” para fora da Universidade, mesmo porque conheço bem um dos efeitos mais perversos dessa inserção na Academia. Muitas vezes tenho de lidar com jovens licenciados em Letras ou Belas-Artes que, como é sabido, têm dificuldade extremas em encontrar um emprego compatível com as suas habilitações. Ao contrário do que o Filipe possa pensar, são quase sempre oriundos de famílias de classe média-baixa (aliás, está mais do que provado que os alunos de Letras e de Belas-Artes são de muito longe, no conjunto dos alunos universitários, os de extracção social mais baixa, pelo que toda esta conversa em volta de “democratização” da arte me parece um bocado esdrúxula), e não pensaram duas vezes em seguir um curso que estava de acordo com as suas vocações e possibilidades económicas (não posso deixar de referir que, ao invés do que faria supor a oposição entre uma ciência “democrática” e uma arte “elitista”, a frequência de um curso de Ciências ou de Medicina é incomparavelmente mais dispendiosa do que a de um curso de Letras ou de Belas-Artes). Escuso de dizer que as esperanças de promoção social normalmente associadas à obtenção de um grau académico foram completamente goradas (a alodoxia de que também falava Bourdieu).
    Procuramos depois discutir com as Faculdades o problema que a formação contínua de licenciados sem quaisquer saídas profissionais está a colocar, mas aí concordo com o Filipe num ponto: o modo como as faculdades em Portugal estão organizadas está caduco, e ela não conseguem (sobretudo a de Letras) dar qualquer resposta a este problema.

  5. “Confesso que continuo a não perceber o que quer dizer com a acessibilidade das obras de arte, porque parece-me que as obras de arte, graças também às “indústrias culturais”, estão em geral bastante acessíveis ao público interessado.”

    E eu confesso que já não sei como lhe hei-de explicar. Este fim de semana estarei em Serralves; quando estiver em Lisboa, não deixarei de dar um pulo ao Museu de Arte Antiga. É este meu direito que eu defendo, e é este meu direito que o Carlos Vidal põe em causa. O que eu contesto não é nenhuma situação concreta, real: é o cenário proposto pelo Carlos Vidal.
    Quanto ao resto, é outra discussão que passa completamente ao lado desta. Mas contesto veementemente a sua visão de que as ciências são mais “elitistas” que as artes e letras devido ao nível socioeconómico dos alunos que a frequentam. Se isso fosse verdade, a universidade pública seria muito mais elitista que a privada: o nível socioeconómico dos alunos que frequentam a privada é muito mais baixo do que o dos que frequentam a pública. Pense bem nisto.

  6. Jorge Palinhos diz:

    Espera aí, Filipe, dizes:

    “No caso dos artistas, a divulgação mais imediata consiste na realização de exposições, abertas a todos os que as quiserem ver. Não há absolutamente nenhuma bitola diferente para as ciências e as artes. Defendo exactamente a mesma coisa. O que verifico é que os cientistas estão muito mais habituados a este procedimento. Certos artistas pelos vistos resistem. Não podem fazê-lo se receberem dinheiro do estado (enquanto artistas).”

    Estes cientistas tão habituados a dar gratuitamente do seu trabalho são quem? Professores universitários e investigadores de laboratórios públicos, imagino eu (pois os que trabalham para os privados muitas vezes estão sob cláusulas de confidencialidade). Ou seja, o seu trabalho, que não se importam de partilhar à borla, já é pago pelo Estado, mas tu achas mal que os artistas peçam apoios do Estado para, de igual modo, apresentarem o seu trabalho gratuitamente.

    Isto faz sentido?

  7. Jorge Palinhos diz:

    “O que eu escrevi (nos comentários) foi “Entendo que faz parte da minha função fazer com que as pessoas gostem mais um pouco de física. Tal como faz parte da função de qualquer artista fazer com que as pessoas gostem um pouco mais de arte.” “Faz parte” no sentido explicado nos parágrafos acima. E “faz parte” dessa função: nunca “é” essa função, unicamente (nem sequer principalmente). Mas quem é pago pelo Estado não se pode furtar a essa função.”

    Outra passagem esquisita, Filipe. Então um cientista pago pelo estado é obrigado a divulgar a sua ciência pelo grande público? Isso quer dizer que um cientista que escreva 20 livros muito fáceis de ler onde se explica, em todos eles, como fazer pólvora deve ser subsidiado pelo Estado, mas outro cientista que descubra a cura do cancro e só a divulgue entre os especialistas não deve?

    Nesse mesmo ponto de vista, o Filipe La Féria que só traduz musicais de sucesso da Broadway deve ser subsidiado (como faz a Câmara do Porto que lhe dá um espaço à borla), mas alguém como Manoel de Oliveira ou João Canijo, que fazem obras originais e inovadoras, que alargam os horizontes da arte, não.

  8. Jorge, tocas aí num ponto importante que é o da estrita confidencialidade de certos trabalhos científicos. Essa confidencialidade existe às vezes (para uma minoria do trabalho científico) e, aí sim, obriga a introduzir uma dupla bitola. Mas essa já não é uma questão científica: a confidencialidade, quando existe, nunca é por motivos científicos (é por motivos políticos e/ou militares e/ou, lamentavelmente, económicos). A ciência não tem culpa dessa confidencialidade, que nunca depende dela. Ponhamos esse caso de parte.

    Quanto ao resto, dizes que eu “acho mal que os artistas peçam apoios do Estado para, de igual modo, apresentarem o seu trabalho gratuitamente.” E eu fico pasmado. Onde é que eu disse isso, Jorge? Onde?

    A única parte onde eu falo em apoios do estado (algo que pelos vistos incomoda muito o Carlos Vidal – eu falar, não os ditos apoios) é quando refiro o que transcreves – posso referir várias vezes mas a ideia é sempre a mesma: um artista não pode controlar quem tem acesso a apreciar as suas obras de arte se for subsidiado pelo Estado. Se o artista não for pago pelo estado pode fazer o que quiser com as suas obras de arte, ou o que quem lhe pagou quiser. Se for pago pelo estado é de certa forma um funcionário público e não pode fazer essas exigências. Seria como um médico só tratar certos doentes ou um professor só ensinar certos alunos.
    É isto, e só isto, que está em discussão.

    Não vejo de onde possas concluir que eu acho mal que artistas peçam apoios ao Estado. Deverias ler mais o que eu escrevo e não o que o Carlos Vidal diz que eu escrevo.

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