Arte, Indústria & Cultura

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Segue-se um texto da autoria da nossa socióloga preferida, a Idália Custódio:

«Quando, em 1944, Max Horkheimer e Theodor Adorno publicaram Dialektik der Aufklärung (“Dialéctica do Iluminismo”), dedicaram um capítulo inteiro ao que chamaram “Indústria da Cultura”. Esta designação, como notou David Hesmondhalgh na sua obra The Cultural Industries, de 2002, pretendia manifestar um certo valor de choque, ao contrapor a noção mecanicista, repetitiva e suja de Indústria ao domínio da Cultura, que, para os dois fundadores da Escola de Frankfurt (tal como para todos os seus contemporâneos, a bem da verdade), ainda relevava do conceito novecentista de um reino espiritual e etéreo que coalescia com o da Arte. Sendo que esta se afirmaria sempre como uma instância crítica ou idealizadora (através da produção de utopias e paradigmas éticos) do resto da existência humana, formando um par antitético com a Indústria: espírito vs. matéria, repetição vs. criação de objectos únicos, fumo e suor vs. transparência e beleza. Horkheimer e Adorno, então recentemente fugidos da Alemanha nazi para os EUA, sentiam-se horrorizados pela mercantilização dos bens culturais que testemunhavam na sua pátria de acolhimento, vendo-a talvez como uma forma embrionária e mitigada, mas não menos ominosa, de fascismo. A frase escolhida, logo no título do capítulo respectivo, para descrever este processo, é esclarecedora: «O Iluminismo como decepção de massas» – a chamada “cultura de massas” não passaria portanto de um instrumento de engano e sujeição das massas aos interesses do capital e das suas indústrias mercantilistas.»


«Eis alguns exemplos do pessimismo dos autores: «a cultura apõe agora o mesmo carimbo em tudo. Filmes, rádio e revistas erigem um sistema que é uniforme como um todo em cada parte. Até as actividades estéticas de opostos políticos são unas na sua obediência entusiástica ao ritmo do sistema de ferro»; «o passo do telefone para a rádio distinguiu claramente os papéis. O primeiro ainda permitia ao assinante desempenhar o papel de sujeito, e era liberal. O segundo é democrático: transforma todos os participantes em ouvintes e sujeita-os de forma autoritária a programas emitidos que são todos exactamente o mesmo». E, num excerto quase profético: «a Televisão almeja ser uma síntese de rádio e filme (…) as suas consequências serão enormes e prometem intensificar o empobrecimento da matéria estética tão drasticamente que amanhã a tenuemente velada identidade de todos os produtos da indústria da cultura poderá sair triunfantemente para a vista de todos» (tradução minha a partir da versão em Inglês). Tal representaria apenas mais um epifenómeno do triunfo universal da razão instrumental, da redução de todos os valores civilizacionais às partículas elementares que são os números, rebaixando Arte e Cultura à condição de mercadorias prontas a embalar, traficar e exportar.
Sobretudo graças a Bernard Miège, no final da década de 90, a noção diabolizada de “Indústria da Cultura” viu-se matizada e ampliada, até se transformar na expressão hoje corrente: “Indústrias Culturais”. Como esclarece Hesmondhalgh, o plural não é inocente nem acidental: assinala o reconhecimento da complexidade deste sector, que acolhe instituições de carizes muito diverso entre si, enquanto nega o carácter essencialmente maligno da massificação da cultura. Mais: longe de hoje ser vista como uma mera ferramenta do imperialismo cultural, a proliferação destas indústrias é encarada como albergando possibilidades positivas para culturas e agências periféricas.
A ascensão das indústrias culturais à predominância e poder de que hoje desfrutam é vista como subproduto do choque petrolífero de 1973. A subsequente consciência da escassez das matérias-primas e da finita capacidade do Ambiente para suportar o anterior paradigma industrialista acabou por levar à emergência da Informação como instância central de uma nova ordem; ela não se degrada espontaneamente, não contribui para esgotar recursos ou condições de sobrevivência. Passou assim a ser, mais que um meio, um fim – rentável, partilhável e multiplicável: em bens culturais e simbólicos, serviços noticiosos, entretenimento, toda uma indústria à escala planetária.
E é também neste mundo que vivemos.»

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10 respostas a Arte, Indústria & Cultura

  1. Muito bom o texto, LR. Acho que gostarias de ler um artigo do Javier Marías que está no livro “Das Paixões Passadas” y que ainda que datado de 1987 salvo erro, n tenho aqui. ah! y é um artigo de jornal, dai a minha referência à intemporalidade, ou melhor ao decalque na situação portuguesa de 2008 … Dizia … intitulado “Dos qe fazem Cultura” … é Editado pela Relógio d’água y andam a vendê-lo em Saldos!!! Imagina!

    Num dia destes se tiver pica ainda o dedilho para aqui! n tenho scanner … tenho que fazer à antiga … Mas vale a pena. Ilumina!
    …………..
    Não faço uma síntese da “moral” do texto, porque é realmente um momento ímpar de leitura y isso é coisa rara.

  2. Carlos Fernandes diz:

    Excelente texto e post. Convém no entanto não esquecer que, Adorno e H. se esqueceram, ou fingiram que esqueceram, que …o principal ideológo, mentor e arquitecto da Alemanha Nazi, Goebells, foi (por este confessado em entrevista!) guiado pelas ideias do seu principal inspirador, o americano Bernays, considerado o “pai” da publicidade e do marketing americanos…

  3. Nuspirit diz:

    O Luís Rainha é um intelectual.
    Sendo certo que Adorno já está um pouco ultrapassado, o seu estudo não deixa de ainda hoje ter alguma pertinência. Atente-se nas suas palavras a respeito desta questão acerca da cultura: “a indústria cultural impede a formação de indivíduos autónomos, independentes, capazes de julgar e de decidir conscientemente”. O próprio ócio do homem é utilizado pela indústria cultural com o fito de mecanizá-lo, de tal modo que, sob o capital capitalismo, nas suas formas mais avançadas, a diversão e o lazer tornam-se um prolongamento do trabalho.

  4. alice diz:

    Sim, existe um certo atraso e ponto assente para as economias progredirem só assim, na ganância de tudo multiplicarem e de tudo explorarem sem dó nem piedade, etc por aí fora.
    E em Portugal, a nosso Ministério da Cultura está a dar apoio com toda a naturalidade e força, a iniciativas no âmbito dessas mesmas insústrias culturais.
    Mas não esqueçamos que estamos noutros tempos, e em tempos de mudança ou de grande mudança. A História como se fez até aqui, daqui em diante já não está nas mãos de alguns, mas nas mãos de todos nós. É que por ironia ou não, essa mesma tecnologia tem-nos vindo a fornecer possibilidades de alterar o que está mal e a criar o equilíbrio. É que agora, e dando o exemplo da net, podemos ser interventivos, de muitas formas e creio, que possam ser eficazes a muitos níveis, embora ainda não estejamos a entender, muito bem como.

    E já agora, permita-me Luís Rainha, deixar aqui estes excertos do mesmo livro:
    … Uma das lições que a era hitlerista nos ensinou é a de como é estúpido ser inteligente.
    (…) Depois, os inteligentes disseram que o fascismo era impossível no Ocidente.
    Os inteligentes sempre facilitaram as coisas para os bárbaros, porque são tão estúpidos.
    (…) notar na diversão a tentativa de impingir mercadorias, a sales talk, o pregão do charlatão da feira. (…) Divertir-se significa estar de acordo.
    (…) Divertir significa sempre: não ter de pensar nisso, esquecer o sofrimento.
    (…) A indústria cultural realizou maldosamente o homem como ser genérico.
    (…) A indústria só se interessa pelos homens como clientes e empregados…

  5. Nuspirit … qual é o teu Blog?? Vá! se n tens, arranja um y faz post para eu ir lá ler … Muito fixe y saudável o teu comente.

  6. Maria do carmo Peralta diz:

    Pois, meu caro, não há dúvida, tem imensa razão. É neste mundo que vivemos! Contudo, não podemos “culpar” a hiperindustrialização. cada qual faz o que pode e o deixa. Que fizeram os leitores de Adorno e Horckeimer para o impedir: continuaram na leitura de Bourdieu e Derrida, deslumbrados, agora, pela Ars Industrialis. E se, sem dúvida, a análise é boa, que prática foi seguida para contrariar, nem que seja à roda do nosso pequeno lar, a força demolidora da indústria cultural: nada. Os intelectuais e académicos erigem à sua volta um mundo de lamentações, – Este povo, ignorante, consumista, patego e medroso! – sem perceberem que, sem acção, sem uma qualquer acção que não passe exclusivamente pela leitura e exposição académica ou bloguista das teorias nada será mudado. Na verdade, sequer a discussão na ágora se processa. Cada qual fala por si e para si. A ver quem diz melhor, leu mais, épater le bourgeois. Difícil, difícil, é, no silêncio da acção, com espírito de serviço, na base – onde estão os consumidores da “arte das massas” – concretizar projectos de acção que ajudem a mudar mentalidades. Só que, aí, ninguém nos conhece…quem não está nos media, não existe.
    Saudações fraternas

  7. Carlos Fernandes diz:

    A imagem é do Robot do Leonel Moura, correcto?
    Muito vanguardista o conceito… E sob a capa de vanguardista, que deslumbra sempre inúmeros papalvos convencidos de que estão prestes a (re)descobrir a roda, está também o conceito de “oportunista”, faz-me lembrar ( quem me contou merece-me todo o crédito) um pintor bastante conhecido da nossa praça que metia ouriços caixeiros com tinta a passear na tela e depois limitava-se a aparar os excessos, LOL LOL.

  8. Luis Rainha diz:

    É esse, é.

  9. O teu texto é tão fixe … y os gajos n te leram …. cambada de “…”urros.

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