O meu caso com Manuel Alegre

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Foto de Luís Zeferino

Já não me lembro como e quando comecei a embirrar com Manuel Alegre. Mas sei bem que cada novo discurso seu, invariavelmente ornamentado com quilos de quinquilharia retórica, delicodoces intenções e tiradas cheias de som e de fúria, me relembra essa comichão persistente. Antes de reproduzir um post antigo sobre a figura, com que me reencontrei agora graças ao Google, fica uma última declaração: no dia em que Manuel Alegre fizer parte de uma qualquer “Nova Esquerda”, desato a votar no PS. «Sendo eu simplesmente humano (e a custo), sempre tive um respeito instintivo e saudável por essa galeria de titãs que orbita, a grande altitude, em torno do nosso mundinho chão: os “Grandes Vultos”. Figuras larger than life, imunes a discordâncias, superiores a qualquer veleidade crítica. É como olhar para as estátuas que juncam as nossas melhores avenidas e as rotundas mais selectas. Quer se trate do Duque da Terceira, do Imperador Maximiliano ou do sub-visconde da Bobadela, o passante inclina o pescoço para contemplar a postura heróica da entidade lá no alto do pedestal e só consegue tartamudear: “este gajo deve ter feito coisas do caraças!” Trata-se de um mecanismo de servil admiração que funciona também face a gente que ainda não se viu transmutada em bronze coberto de cocó de pombo. Gente viva, até. A quem lembrará negar o brilho de um Ruy de Carvalho? Quem não reconhecerá a profundidade abissal de Eduardo Lourenço? E a Mariza, não é certo que reencarna mesmo a divina Amália? Manuel Alegre, para mim, sempre foi um Grande Vulto. Sem dúvida. O Grande Poeta. O Vate, o Bardo, o Resistente, o Baluarte da Esquerda, e mais uma catrefada de qualificativos sobre-humanos. Verdade é que a sua poesia nunca me agradou por aí além. Mas sempre atribuí esse facto à minha relativa incapacidade para entender algumas subtilezas da arte poética. E não é certo que a “Canção com Lágrimas” tem lá dentro versos dele? (Note-se que a belíssima composição de Adriano até resiste ao “cristal” que se parte “plangente” e aos “mortos amados” que batem não sei aonde.) Também não fiquei muito impressionado com o desempenho do Poeta na recente corrida à liderança do PS. Então aquelas reclamações acerca da votação no Porto e a subtil sugestão de um excelente nome para candidato a PR, que até podia ser o seu… Empurrado por estas magnas inquietações, deitei-me hoje a ler um livro de prosas várias de Manuel Alegre, de seu nome “Arte de Marear”. Título críptico, capa solene com um compasso em gravura de ar antigo. A encher a contracapa, uma foto do Vate, encarando o leitor com olhos graves e queixo adequadamente apoiado em mão de indicador esticado. Comme il faut. O pior é mesmo o conteúdo do raio do livro. Trata-se de uma recolha de textos heterogéneos a propósito de tudo e mais alguma coisa: recordações de infância, apontamentos biográficos, uma entrevista, etc. Nem sei por onde comece. A hagiografia respeitosa e delicodoce é pródiga na distribuição de mantos diáfanos de prosa acrítica: de Garrett a Amália, todos são despachados com adjectivos grandíloquos que nada mais fazem que confirmar banalidades de manual escolar. As provas do convívio de Alegre com os grandes deste mundo pululam por entre aquelas páginas. As preocupações culturais e artísticas atacam o leitor em catadupa. Mas, bem acima de todas estas questões, ergue-se uma figura titânica, prometeica, insuperável: o próprio Manuel Alegre. E a cada esquina se torna mais óbvio o imenso interesse que o Bardo dedica ao seu assunto preferido: ele mesmo. Ele resiste; ele é insubmisso; ele é uma personagem de magna importância no curso da História; ele aceita honrarias com um encolher de ombros resignado à grandeza; ele cita pelo menos três Grandes Vultos por página; ele acha a sua poesia “camoniana”; ele compõe parágrafos recheados de lugares-comuns a propósito de qualquer assunto ou personalidade. E, acima do mais, ele é, visceralmente, de Esquerda; quase se pode dizer que ele é a Esquerda! Para que disso não permaneçam dúvidas, trata de proclamar tal paixão com as cornetas do costume: truísmos, verborreia pomposa, mais banalidades. À laia de exemplo, os “novos bárbaros” que apenas entendem uma tal de “fria linguagem do cifrão” levam bordoada da grossa. Tal como levou a minha resistência ao tédio.»

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