João Miranda não lê João Miranda?

O mais famoso economista autodidacta de Portugal vem dar uma magna lição ao Jorge Palinhos, pois sabe bem que «isto da alta finança é uma coisa complicada». A propósito do caso Madoff, ficamos agora a saber que a Segurança Social também é um Ponzi scheme, ou um esquema de pirâmide, ou uma espécie de Dona Branca. É tudo o mesmo. A acusação resume-se assim: «Madoff usava os depósitos dos novos clientes para pagar juros aos antigos. O Estado português usa as contribuições dos novos contribuintes para pagar reformas aos mais antigos. É tudo.»
Estranhamente, ainda há um escasso mês, não era “tudo”. O mesmíssimo João Miranda levantava a lebre, que até era «capaz de ser relevante»: a Segurança Social andava a… investir o seu dinheiro (no BPN), procurando rendimentos elevados!
Em que ficamos, então? As nossas pensões andam metidas em jogadas financeiras de alto risco ou apenas provirão dos descontos dos nossos filhos? Eu sei que a coerência não e uma matéria-prima abundante na Mirandéria; nem cogitações mais complicadas como a reformabilidade do sistema de pensões ou a sua transparência (consta que as vítimas de Madoff estavam um pouco mais às escuras) e legalidade. Mas ler o que se escreveu sobre um assunto antes de lá voltar um mês depois parecer-me-ia coisa da mais salutar prudência…

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19 respostas a João Miranda não lê João Miranda?

  1. jorge a. diz:

    Caro Luis Rainha,

    mas você acha que Bernard Madoff com o seu esquema também não teve periodos em que tinha liquidez que lhe permitia investir parte do dinheiro na bolsa ou noutra coisa qualquer? O problema de Madoff foi que nos últimos tempos o ritmo e montante envolvido dos que solicitavam o seu dinheiro de volta era bastante superior ao ritmo e montante encontrado com novos investidores. Claro que a Madoff falta o poder coercivo do Estado para forçar soluções ou alterar as regras a meio do jogo, mas o essencial mantém-se: a segurança social está dependente de rendimentos futuros (incertos) para cumprir as obrigações actuais – e o pouco dinheiro que tem capitalizado em bolsa é uma gota de água face a todas as obrigações pelas quais é responsável.

    “As nossas pensões andam metidas em jogadas financeiras de alto risco ou apenas provirão dos descontos dos nossos filhos?”

    Quanto à resposta a esta pergunta, com a minha idade, ceteris paribus, nem a reforma dos meus “filhos” servirá para pagar a pensão a que teria direito com as regras actuais. Não que isso importe muito aos actuais politicos, nem ao Luis Rainha, 2050 é um ano muito afastado no tempo. Mas eu, para não andar “às escuras”, há muito que antecipo que até lá as regras do jogo voltarão a mudar.

  2. jorge a. diz:

    Só mais uma coisinha para deliciar o Luis Rainha:
    http://ablasfemia.blogspot.com/2006/04/segurana-social-como-um-ponzi-scheme.html

    O caro é que faz por não ler, quanto mais perceber, o que diz o João Miranda.

  3. lucklucky diz:

    Isto é suposto ser uma resposta?
    Tem alguma dúvida que o esquema só se aguenta por causa da força o Estado?

  4. anonimo diz:

    Só no assunto Bush podese voltar lá ler um mes , un ano, um quinquenio que aí sim vai continuar bloquisticamente sólido e imperturvavel.

    Com dizer que nao chegou ainda aos límites que ja o propio B ush trespassara…

  5. Luis Rainha diz:

    Senhor cowboy,

    Se se aguenta por isto ou aqueloutro, já pouco tem a ver com esta discussão. Os pagamentos da segurança social são feitos apenas com o dinheiro que o sistema vai colectando à população activa? Se sim, então trata-se de um esquema de Ponzi e o JM tem razão. Se não, como os investimentos no BPN parecem confirmar, ele não tem razão.

  6. Luis Rainha diz:

    Jorge,

    Certo, certo é que ao JM tanto faz afirmar uma coisa ou o seu oposto. O que interessa é ir sempre afirmando “coisas”.

  7. Carlos Fonseca diz:

    Da mais salutar prudência ou da mais infíma inteligência?

  8. LA-C diz:

    Luís Rainha, aqui não interessa muito a opinião do João Miranda. O sistema de financiamento da Segurança Social está bem definido e não é uma questão de argumentação ou de opinião.
    A base do nosso sistema é simples. A população activa num dado momento desconta para pagar os pensionistas. Esta é a base do nosso sistema.
    Um sistema alternativo, um sistema de capitalização, em que os descontos de cada pessoa a essa pessoa pertencessem para quando se reformasse no futuro não é o que temos por cá. Tão simples como isto. Se tiver dúvidas pergunto-lhe directamente onde está o número da sua conta, onde pode ver o valor dos activos financeiros comprados com o seu dinheiro? Aliás isto é tão óbvio que basta perguntar-lhe de onde vem o dinheiro daqueles que nunca descontaram e que, apesar de tudo, recebem alguma coisa de reforma?
    Agora o facto de as reformas actuais serem essencialmente pagas com os descontos da população activa, não impede que, em alguns anos, a Segurança Social consiga acumular algum dinheiro (receitas maiores do que despesas) e que esse dinheiro tem, naturalmente de ser aplicado. Em anos maus é natural que esse saldo diminua e, em anos bons, que aumente. Essa almofada, ou amortecedor, é essencial para garantir que as reformas do próximo ano não dependam de uma forma absoluta das receitas da Segurança Social do próximo ano. Tal, evidentemente, não altera a essência do sistema.
    Acredite, quando (e se) se passar para um regime de capitalização a sério vamos dar conta e vai ser uma revolução na Segurança Social.
    Apesar de tudo, isto não chamaria a tal um jogo de Ponzi, pois este exige que o dinheiro captado para pagar as dívidas tenha sempre de ir crescendo (para pagar os juros). Ora na Segurança Social não há qualquer garantia, nem sequer uma promessa, de que venhamos a receber o que descontámos. O Luís Rainha tem alguma ideia de como vão ser calculadas as reformas daqui a 25 ou 30 anos? Não pois não? A única coisa que pode afirmar, com um grau de certeza razoável, é que vai ter direito a muito menos do que alguém que tivesse um percurso semelhante ao seu, mas que se reformasse hoje.

  9. LA-C diz:

    Já agora, acrescento, que de acordo com a última revisão o nosso regime de Segurança Social pode ser complementado com uma componente de capitalização pública (ou seja gerido pelo Estado) mas que é opcional. Mas isto nada acrescenta aos Planos Poupança Reforma privados que já existiam antes. A única diferença é que em vez de ser gerido por uma entidade privada é gerida por uma entidade pública. Dado o seu carácter opcional e meramente complementar, não altera (nem de longe nem de perto) a base do nosso sistema que, como explicado acima, é um regime de repartição e não de capitalização.

  10. LA-C diz:

    “Os pagamentos da segurança social são feitos apenas com o dinheiro que o sistema vai colectando à população activa? Se sim, então trata-se de um esquema de Ponzi”

    Já agora, remeto para este link (http://web.archive.org/web/20011007160228/www.ssa.gov/history/ponzi.html ), que explica muito bem por que é que a resposta, comdicional, que o Luís rainha dá à questão que levanta não está correcta. Ou seja, pelo facto de se dizer que “os pagamentos da segurança social são feitos apenas com o dinheiro que o sistema vai colectando à população activa” não permite concluir que se trata de um esquema de Ponzi.

  11. Luis Rainha diz:

    Luís,
    A resposta não é minha; é do João Miranda. Ele é que comparou a nossa segurança social à trapaça do Madoff. Ora se há investimentos por parte destes fundos, não é correcto afirmar que «o Estado português usa as contribuições dos novos contribuintes para pagar reformas aos mais antigos. É tudo.»
    E olhe que eu não afirmei que a SS é assim ou assado. Se quer a minha opinião, nem concordo com o presentre sistema.

  12. LA-C diz:

    “Ora se há investimentos por parte destes fundos, não é correcto afirmar que «o Estado português usa as contribuições dos novos contribuintes para pagar reformas aos mais antigos. É tudo.»”

    Luis Rainha, o que lhe tentei explicar, pelos vistos sem conseguir, e’ que essa afirmacao esta’ essencialmente correcta. Essa e’ a base do Sistema de Seguranca Social portugues. Isto nao e’ uma questao de opiniao, e’ um facto. E’ a Lei de bases da Seguranca Social que temos.

    “E olhe que eu não afirmei que a SS é assim ou assado.”
    perdao, pode nao ter querido escrever o que escreveu, mas a verdade e’ que afirmou mesmo. o Luis Rainha afirmou: “Os pagamentos da segurança social são feitos apenas com o dinheiro que o sistema vai colectando à população activa? Se sim, então trata-se de um esquema de Ponzi”. Na minha opiniao, afirmar tal e’ errado. Nao se pode chamar a tal sistema de seguranca social um esquema de Ponzi (mas aqui concordo que e’ ja’ uma questao de opiniao, e nao um facto)

  13. MigPT diz:

    claro que o Palinhos e o Rainha é que estão certos. Todos sabemos que só existem trapaceiros no liberalismo económico. Em economias centralizadas tal NUNCA aconteceria, pois todos sabemos que os decisores nessas economias são omniscientes e omnipotentes e muito acima de qualquer interesse pessoal (vulgo anjos).
    Aliás, o história económica mundial está repleta de casos de sucesso de economias centralizadas (RDA, USSR, Albania, Coreia do Norte, Cuba e agora a nova coqueluche Venezuela, etc).

  14. Luis Rainha diz:

    Luís,
    Mais uma vez não. «Essa almofada, ou amortecedor, é essencial para garantir que as reformas do próximo ano não dependam de uma forma absoluta das receitas da Segurança Social do próximo ano»– esta é a sua explicação. Logo, não se pode afirmar “é tudo”, pois isso falsifica a questão. Não é tudo: existem investimentos e não apenas o entregar a uns o que se recebe de outros.

    Por fim, continua a ver mal a coisa: quis demonstrar a contradição do JM, usando a caracterização da SS que muitos liberais lusos hoje fazem (um “esquema de Ponzi”) e em que o JM insiste, comparando-a ao caso Madoff.
    Ou bem que o sistema não gera receitas próprias ou bem que anda a querer fazer negócios especulativos e arriscados. Não se pode é jogar nos dois tabuleiros acusatórios em simultâneo.

    E parece-me a mim que a SS, quando muito, seria mais um esquema “pay as you go”. Mas mais uma vez insisto: a ideia de a comparar às artimanhas do Madoff ou do Ponzi não é minha.

  15. Luis Rainha diz:

    Já cá faltava a boca tresloucada: “se apontam incongruências ao Miranda, só podem ser comunistóides e fãs da Coreia do Norte!”
    Claro que sim, claro que sim. Agora, tome lá o resto das gotas.

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  17. lucklucky diz:

    “Ou bem que o sistema não gera receitas próprias ou bem que anda a querer fazer negócios especulativos e arriscados.”

    Não percebo este raciocínio. O que interessa é o VALOR das receitas próprias para o VALOR das promessas feitas.

  18. Luis Rainha diz:

    Não se trata de um raciocínio, mas tão somente a constatação de que o JM acusa a SS de uma coisa e do seu contrário.

  19. “Um sistema alternativo, um sistema de capitalização, em que os descontos de cada pessoa a essa pessoa pertencessem para quando se reformasse no futuro não é o que temos por cá. Tão simples como isto. Se tiver dúvidas pergunto-lhe directamente onde está o número da sua conta, onde pode ver o valor dos activos financeiros comprados com o seu dinheiro?”

    Acho que se está aquia misturar aqui duas questões que me parecem diferentes (ainda que ligadas): a questão repartição vs. capitalização, e a questão de haver ou não contas individuais; realmente, a existência de conta individuais implica um sistema de capitalização (em principio, embora não excluo que alguém pudesse imaginar um sistema de repartição com contas individuais), mas parece-me perfeitamente possível um sistema de capitalização sem contas individuais.

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