A arte para o povo explicada aos velhinhos que gostam de elites

Rómulo de Carvalho escreveu “Física Para o Povo”:

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Paul Krugman fala de economia para o povo (via João Pinto e Castro).

Herman José fez “Cozinho Para o Povo”:

Googlei “arte para o povo”. O primeiro resultado da pesquisa foi Diego Rivera, o famoso pintor mexicano que gostava que a sua arte estivesse em sítios públicos para poder ser contemplada por todos. Por isso Rivera (e muitos dos seus contemporâneos mexicanos) gostava de pintar sobretudo murais.

Rivera demonstra que querer tornar a arte acessível a todos não implica necessariamente ter que fazer concessões. É conhecida a história da sua disputa com Nelson Rockefeller, a propósito do mural que o milionário lhe encomendou para o Rockefeller Center em Manhattan. Rivera queria incluir a figura de Lenine no mural; Rockefeller recusava, mas Rivera incluiu-a à mesma. O mural nunca chegou a ser exposto em público e acabou por ser destruído. A história é conhecida: foi contada por exemplo no filme Frida. Um filme de Hollywood. Outro exemplo de “arte para o povo”.

“A massificação destrói a “aura” que envolve as obras de arte”, escreveu alguém num comentário lá atrás. Façamos disto uma causa: destruir a aura elitista da arte. Destruir a aura das elites.

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17 respostas a A arte para o povo explicada aos velhinhos que gostam de elites

  1. Jorge P. diz:

    Filipe,

    O post é interessante, mas está a falhar-me o que é que entendes por “arte para o povo” e “arte elitista”?

    Jorge

  2. Luis Rainha diz:

    Mas porque é que não deixas a bendita “aura” em paz? Não aprecias? Come menos. Acho que não andou ninguém por aqui a exigir que se proibam novelas, filmes de Hollywood ou seja o que for.
    Irrita-te que o Estado subsidie coisas de que não gostas? Pensa que até o Camões recebeu um subsídio real… e não me parece que o povo da altura conseguisse sequer lê-lo.

  3. “Irrita-te que o Estado subsidie coisas de que não gostas?”

    Não sei mesmo onde leste isso. Estás a ler tudo ao contrário.
    Não, não me irrita nada. De resto nem sequer tenho moral para isso… Bem tramado estava se dependesse da vontade de quem gosta de física teórica para ser financiado.

  4. Digamos que eu ainda não desisti de que as pessoas gostem de física (“Física para o povo”, estás a ver?). Nem de arte. Entendo que faz parte da minha função fazer com que as pessoas gostem mais um pouco de física. Tal como faz parte da função de qualquer artista fazer com que as pessoas gostem um pouco mais de arte.
    Já disse isso muitas vezes mas repito: tal não implica baixar o nível da arte (ou da física, ou seja do que for). Agora não o fazer é voltar as costas às pessoas. Acho isso inaceitável.

  5. Luis Rainha diz:

    Filipe,

    Se alguém quer fazer arte “para” alguém – seja o povo ou a vizinha – é lá com ele. Mas que não o fazer seja uma coisa “inaceitável”… isso já é absurdo.

    Repara que usas duas bitolas: não te passaria pela ideia escrever o teu próximo artigo científico de forma a que o “povo” (ainda irás explicar-me quem é tal entidade ao certo) o entenda sem problemas. Seria impossível? Claro.
    E se as artes plásticas andassem hoje por territórios também um pouco duros ao entendimento comum? Que fazer?
    Talvez escrever mais e mais sobre Arte; que é precisamente o que o Carlos tem andado a fazer por aqui.

    O facto de a divulgação facilitar o acesso a algo não implica alterações à matéria divulgada: nem a tua Teoria das Cordas nem a Arte Conceptual alguma vez serão grandes hits populares. E daí não vem nenhum mal ao mundo. Embora também não convenha esquecer que muita arte para elites se transforma, volvido algum tempo, em arte massificável. E vice-versa.

  6. Dizer que a “função de qualquer artista [é] fazer com que as pessoas gostem um pouco mais de arte” é o maior disparate que alguma vez se pode dizer sobre uma obra de arte.

    Se o Filipe se dedicasse só à ciência que sabe (estrita, reduzida e muito especializada) todos teríamos a ganhar com isso: o que é aqui escrito (e exemplificado com Rómulo de carvalho / Gedeão e Herman José) não interessa nada nem aos artistas nem a uma conversa sobre arte. Nem sei se interessa ao 5dias (mas julgo que não).

    Quando produz obra o artista não produz para nenhum público “alvo”, isso é a negação da arte e da história da arte. Quando dá uma entrevista, faz um seminário ou conferência o artista pode falar ou não da sua obra. Pode até falar das obras dos outros, e o ouvinte pode divisar sentidos da obra do próprio. É preciso saber-se ver e ouvir, ser-se inteligente, em suma, e não esperar que o artista promova o gosto pela arte. Se não sabe nada, um físico não tem de falar sobre arte. Não é obrigado.

    O IST tem entre os seus docentes alguns críticos musicais, por exemplo: o Henrique Silveira ou (suponho) o Jorge Calado, que gostam de artes e não misturam arte com divulgação da arte nem arte com física. Nunca vi uma crítica de ópera de Jorge calado referir-se à Física. O absurdo tem de acabar de uma vez por todas!

    Beethoven não escreve para o público gostar da sua obra, nem é seu dever esforçar-se por isso. João de Freitas Branco, esse saudoso personagem e musicólogo, falava para que as pessoas gostassem de Beethoven.

    Quem não percebe isto porque é que não se cala e fala de física, só??
    Custa muito ?????

    É que a ignorância e a insensibilidade pedregosa já começam a enjoar.

  7. Fiiiiiiliiiiiiiiipiiiiiiiiinhooooooooooooooo!

    Não sei porquê, mas acho mesmo que a Arte é para o H-U-M-A-N-O, mas com a qualidade de gente que a gente vai vendo por aí parece que humano é uma coisa extraterrestre y depois é ver gente tb gente confunde a Arte com a aquelas coisas que resolveram industrializar como produto cultural massificado ….
    Não esqueças que uma coisa é animação cultural, boa! ( boa de tás a perceber?) y outra muito distinta é expor um “Objecto” que tendes tu entrado no jogo de tudo o que já se fez com ele y conhecedor todos os detalhes y significados de cada coisinha te confrontas com uma nova abordagem que até te trocas nas voltas todas, mas como sabes das coisas atiraste para a luta y vais fruindo das novíssimas jogadas até te confrontares com um novo objecto-malandro que te faz para y etc. boa?

    Cerelac é para os bebés, BOA?
    Compra os livrinhos do António Franco Alexandre y degusta, tá!!! … para não apareceres aqui a impingir POETAS-POVO p.ex. Pedros Mexias, Franciscos Josés Viegas y Poetas-quasi, BOA?

    Grrrrrrrrrrrrrrrrrrr! Levas com os meus Sapatos de Salto-Alto! de 10 cm, como o Bush! Quais Poeta-Povo!? Qual Poesia-Povo!? Qual Livro-Povo!? Qual-Pintura-Povo!?

  8. alice diz:

    Há que ter em conta que a arte manifesta-se sempre distante de todos os parâmetros, regras ou conceitos rígidos que se lhes queira incutir. E querer aproximá-la do que ela não é, será o mesmo que dizer que essa aproximação tenderá mais tarde ou mais cedo, a dela se afastar inevitavelmente. Ou seja, embora se tenha pretendido, nesta nossa contemporaneidade, que massificar as artes era possível, no sentido ou no intuito (ou desespero das mercantilidades) de que um objecto multiplicado maquinalmente n vezes e a ser colocado num espaço bonito (museu, galeria…), possa ser considerado de arte, não passa de uma moda, que a seu tempo se estabelecerá em seu devido lugar.
    E porque sem parâmetros ou regras explícitas a «aura» numa obra de arte (e até numa pessoa) é o significado do indizível dessa beleza expressa, muito para além do que lhe é óbvio.
    E por muito que se escreva a explicar o que quer que seja relativo à arte ou às artes, jamais alguém poderá torná-la entendível aos que a ela jamais a entenderão ou possam vir a entender e é aqui ou a esses e porque insensíveis, a desvirtuam nos seus mais variados sentidos, que se encaixa a frase: «A arte não é para todos!»
    E embora se pretenda dar um qualquer sentido que não o verdadeiro, as artes em maior ou menor proximidade e às vezes numa certa antecipação, sempre se manifestou lado a lado com as pessoas (ou com o povo) a revelar ou a desvendar o que é de insuportável para esse mesmo povo, para ao encontro de uma «verdade» (não suportar o que é insuportável para o ser humano) e a ocasionar o tal de «acontecimento» designado por Badiou.

  9. Rainha,
    A industrialização do “produto” pelo qual o homem se afirmava na sua qualidade de andar a pisar esta terra mais para descobrir o poder que em si residia do que para ceder a este y fazer prevalecer os poderes a ele estranhos, descambou em caricaturas toscas y que hoje impingem a todos nós como artefactos exemplares desse gozo humano as tais coisinhas que embonecadas y com festarolas à mistura vão fazendo as delícias de um grande número, aliás poucos são aqueles que por muita informação que a sua fresca y airosa cabecinha armazene, não deslindam, nem por mais uma, falácia – explicadinha já há mais de 2000 anos – da quantidade. Isso não lhes entra na cabeça. Logo os best sellers para além do Mito viraram cânone, valha-nos Deuses! Valham-nos Deusssssssssssses!
    Como é que se vai explicar à bicharada que a Dmocracia é da qualidade do Objecto/ Produto Culural y não da quantidade do Objecto eh eh ehe ficas bicharoco-esquisito, mais nada…

  10. CMF diz:

    “O IST tem entre os seus docentes alguns críticos musicais, por exemplo: o Henrique Silveira ou (suponho) o Jorge Calado, que gostam de artes e não misturam arte com divulgação da arte nem arte com física.”
    Não misturam arte com divulgação da arte nem arte com física!? Veja lá com mais atenção o “trabalho” do Jorge Calado. Não custa nada, e talvez lhe modere a linguagem e os ataques de arrogância. Ou então espere mais umas semanas, talvez tenha uma surpresa.

  11. Que excelente post. Falta de pachorra para as elites herméticas e arrogantes. Falta de paciência para gajos que falam complicado com o único propósito de não serem compreendidos.

  12. Nuspirit diz:

    Caro Filipe,

    Fui eu, teu leitor de longa data , que escreveu “A massificação destrói a “aura” que envolve as obras de arte”. Concedo que numa leitura apressada se pode ver nessa frase algum elitismo. Mas não é isso que ela pretende transmitir. Como bem se pode inferior do que dizes, o processo de massificação contém um germe positivo, na medida em que ao possibilitar um relacionamento das massas com a arte, dota-as de um instrumento eficaz de renovação das estruturas sociais. Mas o ponto que eu pretendia realçar não era esse. O ponto é que a obra-prima só o poderá ser quando o acto de criar é totalmente livre. E quer queiramos, quer não, a obra-prima não se compagina com as lógicas subjacentes ao negócio e portanto de massas. De resto convém estar atento pois sob a capa de“cultura de massas”, pode-se induzir ao engodo que satisfaça apenas os interesses dos detentores dos veículos de comunicação. A indústria cultural, ao aspirar à integração vertical dos seus consumidores, não apenas adapta os seus produtos ao consumo das massas, mas, em larga medida, determina o próprio consumo. Interessada nos homens apenas enquanto consumidores, a indústria cultural reduz a humanidade, no seu conjunto, assim como cada um dos seus elementos, às condições que apenas representam os seus interesses. Cuidado!

  13. grim diz:

    O Walter Benjamin, a propósito de Baudelaire, já havia escrito algo sobre a perda de aura da obra de arte, mas crei que não é disto que aqui se trata…
    A oposição entre “arte para todos” e “arte para as elites” é um perfeito disparate, porque nem é concebível que todas as pessoas tenham apetências artísticas nem é crível que a arte mais hermética seja para as elites (como a alta costura).
    Aliás, as elites económicas confundem-se cada vez menos com as “elites culturais”, porque, com a exclusão da comunidade artística em si, o público desta “grande arte” é em geral um público jovem que ainda não teve tempo para aprender certos desenganos ou para se ocupar de passatempos mais rentáveis. A ideia de uma arte erudita produzida para as grandes elites, os Wittgensteins deste século, é tão serôdia que nem merece discussão…

    Quanto à afirmação de que a função do artista é a de fazer com que as pessoas gostem mais de arte, é um disparate ainda maior. A função de um escritor ou de um músico é tão só a de produzir a obra de arte que livremente lhe aprouver fazer. Seja hermética ou não, tenha muitos leitores ou poucos, a sua função é apenas essa, escrever um texto ou uma partitura. O tempo depois dirá do seu valor.

  14. Carlos Vidal diz:

    A arrogância reaccionária de CMF julga-se conhecedora de crítica e de crítica de ópera em particular. Talvez seja colega de Jorge Calado no IST, quem sabe? Falei de ópera e Jorge Calado quando escreve sobre ópera pode ocasionalmente misturar uma ou outra ideia de Física ou de outra ciência, mas isso não faz mistura sistemática. Mas nunca escreve como físico, escreve obviamente sempre como melómano. Agora, quando Calado escreve e comissaria expos de fotografia, que CMF julga ser a sua “arte” aí Jorge Calado é sempre o físico, o químico e o cientista, sim senhor, que fala da fotografia enquanto matéria que a ciência revela e releva, mas também o apaixonado sensível das imagens, coisa que nem Filipe Moura nem CMF podem alguma vez ser. Por acaso, quando escreve sobre foto Calado sabe muito bem separar a ciência da estética. É quase imbatível em termos nacionais. Sabe pôr-se nos dois campos. Filipe Moura apenas sabe pôr-se num. CMF não sei nem me interessa (sei apenas que, há algum tempo, me interrompeu uma interessantíssima conversa com o meu contendor ezequiel sobre Israel).

  15. CMF diz:

    Não, não sou colega do Jorge Calado no IST. Sou “apenas” amigo. E por isso acho que nem vale a pena contra-comentar…

  16. Filipe, Liguei o PC de propósito para te escrever ista coisa:

    Então, tu que és um lutador! Essa coisa de uns caramelos colocarem rédia curto à vida de 90% da população mundial só para que eles possam ter vida folgada, etc etc…
    Usando a formula da castração intelectual massiva: desde o recurso à falta de pão na mesa,aos outrosmais pinocas: a aulinha de inglês y balé y xpto para um punhado enquanto o resto vê tv etc etc … qu tu sabes …
    Vens cá defender

  17. Esta coisa de alguns comentários serem automaticamente aprovados e outros não fez com que respondesse primeiro a comentários mais recentes.

    Jorge, o teu comentário fez-me reescrever ligeiramente o texto. Onde estava “aura da arte elitista”, passa a estar “aura elitista da arte”. Não é fugir à tua questão: era mesmo isto que eu queria dizer.

    Quanto à “arte para o povo”, e respondendo também ao Luís e ao Nuspirit, fica para amanhã.

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