Na Grécia como em Portugal, e em Portugal como no resto do mundo (“desenvolvido”)

Social, economica e politicamente, o mal-estar grego em nada difere do português: trata-se de um caldo de factores ligados e reforçados pelo despudor do poder político que mente (Sócrates, por exemplo, prometeu um bom ano de 2009), impõe e expõe bodes expiatórios (professores, função pública e “corporações”, para falar à Vital Moreira), brinca com os números do desemprego (Sócrates é nisso o cúmulo da provocação e despudor); desinveste nos serviços de saúde (fechando-os fazendo crer que é para o “bem” das polpulações) e na educação (atacando os professores, deixando as escolas públicas afundarem-se nos famigerados rankings e impondo em clima de “guerra civil” um modelo de avaliação de professores, modelo que já assumiu ir abandonar para o ano); além de tudo isso, agora o governo, ou os governos português e grego, surgem dia-a-dia como os salvadores de bancos e banqueiros, nunca tendo mostrado idêntico furor e empenho para com a Segurança Social.

Este caldo permite tudo menos uma vida digna e paz social, e nunca em Portugal houve tão pouca como nestes últimos três anos “PS-istas”. Se Sócrates for reeleito, então, estamos perante uma situação à la Bush (e não ironizei com um meu post antigo): ou seja, o pior acaba por ser recompensado. Mas, há aqui um factor decisivo: como a Grécia (e também a França, ambas veementes) pode agora provar, o pior pode gerar o pior, e a maior parte da população grega, em recentes sondagens, desaprova a governação. Em Portugal, o “bushismo” acéfalo ainda é válido, infelizmente: Sócrates, como Bush, é popular e pode ganhar duas vezes – como Bush, exactamento do mesmo modo! É a democracia que decide, como se diz? Será? Poderá o socratismo quedar-se impune? Não haverá antes um rastilho que despolete uma crise, não à grega mas à portuguesa (cada caso, digamos, é um caso)? Poderá ser a política educativa e a sua chefia esse rastilho? Não acho improvável. E julgo que a “democracia” não me impede de dizer estas coisas: uma ministra à grega pode pedir respostas à grega.

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Mas o objectivo deste pequeno texto é o de partir das análises que Anselm Jappe (As Aventuras da Mercadoria: Para uma Nova Crítica do Valor, trad. port. da Antígona, 2006) faz de Marx, para entender alguns dos percursos do capitalismo actual em geral, e do grego (e português, porque não?) em particular.

No Capital, Marx procede à definição e crítica do valor. De forma simples, a situação é esta: o empresário, o capitalista (e não se tape a boca quando se usa a expressão correcta, à boa maneira de L. Delgado há pouco na SIC-N), pretende produzir um valor de uso que tenha um valor de troca, mas, acima de tudo, uma mercadoria cujo valor seja superior aos custos de mão-de-obra e mercadorias necessárias à sua produção. Portanto, produzir valor de uso, valor e mais-valia. Mas, como diz Marx, este valor é imaterial, ou seja, “não existe um único átomo de matéria que entre no valor da mercadoria” (Livro1, cap.1, 3).  Para Jappe, o que é verdadeiramente marxista é esta “crítica do valor” e não uma concepção teleológica da sociedade e da história que faz com que o feudalismo seja sucedido pelo capitalismo e este pelo socialismo ou pelo comunismo. 

Para Jappe, como para Marx, a “crítica do valor” sinalizam, de facto, a autodestruição do capitalismo, mas Jappe acrescenta algo que, porque partindo à letra de Marx, contraria um certo marxismo simplista apressado; diz o autor: “o fim do capitalismo não implica necessariamente uma passagem garantida para uma sociedade melhor. (…) O que nos ameaça não é tanto o grande Estado totalitário, como a anomia, a decomposição geral”. E é aqui que somos chegados à Grécia de hoje ou a Portugal (ou ao resto da Europa que nada imune está a este panorama). Porquê, a Grécia e Portugal e os outros “países ricos”? Porque a economia mercantil actual é, ela própria uma garantia de produção e reprodução de desemprego em massa: “a última palavra da economia mercantil é declarar que a humanidade se tornou inútil para a valorização”.

Quer dizer, o capitalismo actual não precisa de tanta gente para a produção, mas como não o pode assumir deste modo pretende iludir a humanidade com o “estado social”, outra mentira e a maior de todas, porque o capitalismo não quer nem pode mantê-lo ao produzir diariamente exércitos de desempregados que não pode sustentar.

Mas Jappe não pensa que a altermundialização, ou as simples lutas defensivas a ela ligadas, surtam algum efeito. Só uma completa ultrapassagem do sistema pode dar frutos novos. Se é isso que se passa no mundo actual e na Grécia em particular, ainda não o sabemos. Não era nada mau que o fosse.

O que sabemos é que o capitalismo não tem qualquer futuro, nem na sua vertente “liberal”, nem  “reformado” como “estado social”, porque “o trabalho já desapareceu ou nunca chegou a estar presente (…) para aqueles a quem a sociedade do trabalho fez saber que já não precisa deles e que o respectivo desaparecimento seria um bem [ !!! ] para a economia mundial”.

Ou seja, que as massas não chateiem, seria o sonho do mercado, o ideal e o paraíso para o mercado global. Mas, da França à Grécia as massas de deserdados, que somos todos, não dormem. E espero que, agora na Grécia, durmam cada vez menos.

E, para terminar, um graffiti do Maio 68 francês – para horror das almas sensíveis :

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Graffiti memorável:

“A humanidade não será feliz senão no dia em que o último burocrata seja enforcado nas tripas do último capitalista”

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26 respostas a Na Grécia como em Portugal, e em Portugal como no resto do mundo (“desenvolvido”)

  1. Ideafix diz:

    Sinceramente, muita confusão reina aqui.
    Vocês teorizam mas.
    Sabem mesmo o que se passa?
    Quem são Vocês?
    No movimento autónomo internacional e no pessoal no terreno ninguém vos conhece.

  2. Chama-se Cambodja, o local onde essa experiência de felicidade teve o seu zénite.

  3. Feliz ou infelizmente não é só a “democracia” que não impede que se escrevam certas barbaridades, como algumas do texto, a democracia também. Então, não vivemos em democracia?

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  6. Carlos Vidal diz:

    Nós, os que nunca votámos PS, não votamos nem votaremos, estamos meio tramados com essa gente (e com a sua “democracia”). Essa gente devota de Antónios Vitorinos e Jorges Coelhos e de Josés Sócrates, essa gente se pudesse já tinha erigido uma espécie de campo soft de reeducação lá para as bandas do norte montanhoso, desgraçada e bela terra que ficaria ligada à ocorrência. Por aqui, como por outras caixas de comentários, furor máximo, argumentos zero.

  7. O.Pina diz:

    O conteúdo deste artigo, felizmente ao contrário do que acontece com muitos outros, é um chorrilho de disparates

  8. Carlos Vidal diz:

    Felizmente O. Pina, é um chorrilho de factos.

  9. Pois eu estou em completo desacordo com O. Pina. O conteúdo deste artigo, infelizmente ao contrário do que acontece com muitos outros, levanta questões interessantes e faz pensar. Concordo com as questões, mas não com as respostas.
    É pena é que insista na comparação estapafúrdia do Sócrates com o Bush. Você não percebe nada de como o Bush foi eleito (da primeira vez nem foi). Você não percebe nada do que se passa nos EUA. É demasiado míope.

  10. nuno castro diz:

    chateia-me nos comunistas a diabolização dos socialistas. e esta por sua vez tem o condão de levar o PSD ao governo. ora sou daqueles que acredita – se calhar ingenuamente – que a estratégia deve ser sempre evitar partidos da direita no governo: que não são partidos – são camarilhas.

    o caro Vidal retorquirá com certeza que o PS é de direita. certo. e estamos de acordo. mas o problema é provar-me que o PSD não é ainda mais de direita! Ora, pela lógica, seria preferível direita (-) a uma direita (+). mas o pc não pensa assim. pensa que minar o ps é um golpe assestado na confluência das direitas. não tenho a certeza. e a bem dizer tem muito de estratégia partidária de sobrevivência do próprio pc.

    quanto à superação do capitalismo, acredito nela quando os Jappes, Badious, Zizeks, Vidais, etc, nos oferecerem um modelo alternativo, que nunca o fazem. aliás parece ser essa a crise da esquerda actual: ganha a rua, mas não ganha a teoria.

    até porque sujeita_se a ser acusada de um certo facilitismo quando o modelo alternativo se esgota na crítica do modelo vigente. não chega. embora seja salutar…mas não chega.

    ora eu não tenho a alternativa, e parece que poucos têm; é que por trás de coisas abstrusas como “política dos comuns”, “hipótese comunista”, respectivamente Negri e Badiou, pouco fica de palpável.

    o que seria isso e em que é que se baseia de concreto: essas são as grandes questões.

    era ainda necessária uma grande síntese ao nível de um Leviathan (para um lado) ou de um Kapital (para o outro). mas eu não as conheço e elas teimam em não aparecer.

    não esquecendo que quer uma quer a outra não trouxeram propriamente felicidade eterna.

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  12. teofilo m. diz:

    Só uma completa ultrapassagem do sistema pode dar frutos novos

    Bela frase! E por onde se fará a ultrapassagem? Pela direita, pela esquerda. por cima, por baixo…

    E como? A pé, de burro, a cavalo (em quem), de mota, de carro, de tanque?

    Adoro as belas frases…

  13. dasse diz:

    “a economia mercantil actual é, ela própria uma garantia de produção e reprodução de desemprego em massa ”

    Andam nisto há mais de 200 anos e continuam…

  14. Paulo R. diz:

    Resolvi comentar, embora nem sempre o faça por não estar inteirado dos factos e temas abordados. Ontem já o tinha lido, mas cheguei tardíssimo em casa para comentar. Está claro para mim, também outras questões referentes à linguagem não tinham passadas despercebidas quando pude ler com calma. Estarei atento à Nova crítica do valor, a ver se aprendo algumas coisas. Por aqui no 5dias, mesmo não estando completamente por dentro dos assuntos não é difícil compreender o essencial, posso dizer. Sempre há comentários que também ajudam a compreensão e, há aqueles que não interessam mas também facilmente detectáveis.
    Gostaria de dizer algo sobre a questão da mentira, que menciona. Pois, segundo vejo a mentira é usada sempre de modo defensivo por governos, ideologias, instituições e pessoas. Quer me parecer que é usada para manter o status quo por que quem a usa e/ou criou para si sistemas defensivos sem os quais já não consegue funcionar (a não ser que houvesse aí uma consciencialização, ruptura com certos esquemas). A mentira faz mal, as pessoas são capazes de ouvir a verdade sem sucumbir nem revoltar-se (bem, talvez não todas, vá lá) Serenamente eu diria, pois são sensíveis à verdade. Mas quem já assumiu essa forma de funcionar defensiva por não perceber que se pode dizer a verdade e não despoletar necessariamente uma revolução, continua sempre. Ou talvez por outra ordem de razões defensivas (?)
    Às vezes tudo o que alguém precisa para sentir-se digno, é tão pouco (lembra-me algo que vi no ‘curtas’, domingo). Agora estou a falar do ponto de vista pessoal, que algo cá dentro ecoou. Mas é sempre deste ponto de vista pessoal que partimos para nossas análises, não? É que a mentira, além do dor moral que pode causar, causa transtornos. À mim causou ambos, recentemente. Quando tudo o que preciso, seria tão pouco. Obrigado. Cumprimentos.

  15. Almajecta diz:

    Grande comentário o das 10:40, é como a “experiência conceptual ” que constitui um ponto de não-retorno no terreno da emancipação do imperativo formalista.
    Se te metes com a corporação ardino-política, levas. Evita arrastar os pés, deixa-te de saudades de Alhandra e das alternativas marialvas. Vota Samouco, um corredor de investigação, a linguagem é tudo, Samouco ou Morte.

  16. Almajecta diz:

    Acrescentemos então um pouco mais de realismo e dignidade á carreirinha de palavritas para não ficarmos apenas pela literatura e voltar a passar a existir: nós que nunca votamos PS ou BE, não votamos nem votaremos etc. Está bem assim, ou ainda continuas com a ideia do conclave.

  17. Carlos Vidal diz:

    caro Alma, o BE com 10% (se lá chegar, ainda que não seja com o meu voto) é necessário.
    O conclave deve ter uma missão para já, como cheguei a dizer:

    1. Impedir a maioria absoluta do PS.
    2. Não negociar a posteriori com o PS.
    3. Empurrar o PS em nome da clarificação para os braços do PSD – forçar um bloco central oficializado pois ele já existe em tudo o que é sítio não oficializado.
    4. Ver até que ponto a pressão centrífuga no PS pode fazê-lo perder 8 ou 10% de eleitorado para uma nova coligação ou formação, com ou sem Manuel Alegre.
    5. Por mim, em nome da decência, aposto PCP. E desejo que o PS se rompa.
    6. O BE viria atrás desta movimentação.
    7. Como disse, prefiro esta movimentação com o PSD no governo, do que o PS no governo sem esta movimentação/reconfiguração (atenção que isto tb é para nuno castro).

    teófilo m., preveja-se ou não, os sistemas estão condenados a serem ultrapassados em nome de um desejo espectral (como dizia Marx) de justiça. A justiça é idesconstrutível e paira sempre onde não existe – nas nossas sociedades, precisamente.

    Caro nuno castro, o seu comentário é interessantíssimo para encetarmos uma longa discussão sobre o sentido da emancipação politico-social. O que virá em termos de superação do que existe, com ou sem esforço de Negris e Badious, com menor ou maior esforço destes, o que virá é sempre desconhecido e imprevisto/imprevisível no desfecho. Repare que todas as revoluções do século XX (Lenine e Mao) foram traições à matriz, como Lacan foi “traição” a Freud. Uma revolução ou uma alternativa não pode passar por aquilo que se está à espera e se adivinha (prevê). Se se previsse ela era “evitada”. Então, útil, muito útil, é programar uma alternativa, depois esperar que ela seja traída – e aí poderá nascer algo de novo. Fiz-me entender? Voltarei ao assunto.

    Filipe Moura, a comparação Sócrates – Bush aqui diz respeito a um juízo meu que não passa forçosamente pela semelhança (inexistente em teoria) das políticas de um e outro. Vamos a esse juízo e ao paralelo (que não é político nem ideológico): creio que o governo Sócrates é um dos piores de que tenho memória em Portugal. A sua reeleição é para mim tão imcompreensível quanto a reeleição de Bush. Fui claro ?
    Diz ainda o Filipe concordar com as questões e discordar das soluções. Refere-se ao facto de eu parecer estar aqui eventualmente a apontar soluções violentas? Não estou.
    Creio que as soluções dependem das circunstâncias de cada momento e lugar. Se há uma reacção popular violenta colectiva na Grécia, ela tem uma razão de ser – não nascemos nem somos vândalos. Sabemos o que fazemos, sabemos desesperar como e quando quisermos. Além disso, uma reacção violenta pode ter consequências fantasticamente positivas a posteriori.

  18. Carlos Vidal diz:

    “Gostaria de dizer algo sobre a questão da mentira, que menciona. Pois, segundo vejo a mentira é usada sempre de modo defensivo por governos, ideologias, instituições e pessoas. Quer me parecer que é usada para manter o status quo por que quem a usa e/ou criou para si sistemas defensivos sem os quais já não consegue funcionar (a não ser que houvesse aí uma consciencialização, ruptura com certos esquemas). A mentira faz mal (…)”
    Caro Paulo R, grato pela sinceridade do depoimento.

  19. Paulo R. diz:

    Obrigado, atento à sua análise do quadro em questão. Há sintonia.

  20. Almajecta diz:

    Googlei em livre arbítrio e epi fanaram-se-me estes 35,74%.
    http://eleicoes.cne.pt/raster/index.cfm dia=20&mes=02&ano=2005&eleicao=ar

  21. teofilo m. diz:

    Claro que os sistemas evoluem, mas deseja-se que o façam de forma pacífica, pois as mutações violentas, por muito bons resultados que alguns aplaudam causam vitímas demais para me deixarem tranquilo.
    Que dizer ao pai que perde o seu filho em prol de uma sociedade diferente que já não viverá? Ou quem estará de acordo em perder a casa e a família para que o seu semelhante possa vir a viver outra experiência?

    Porque se revoltam então os gregos? Por causa de um miúdo que estava no local errado na hora errada, ou porque estão insatisfeitos com o seu modo de vida?

    E os pais do miúdo? Concordarão com a sua morte, se o resultado vier a ser um melhor governo?

    A História é imensa, mas Cristos só conheço um, e esse sabia que ía ressuscitar…

  22. nuno castro diz:

    Carlos, a ideia da revolução estocástica está muito em voga ultimamente. Não aparece apenas nas esquerdas, mas também nos escritores pós-modernaços como o Ballard ou Delilo. É uma fantasia e parece uma daqueles arroubos estéticos de quem acha que ars longa vita brevis.

    sinceramente, nem percebo o que é que se quer dizer com isso: mas que é muito romântico, lá isso…sem dúvidas. Romantismo soixante-huiter fora duma época romântica fica sempre bem.

    e continuo na mesma: o que traria essa tal revolução?

    É porque se o amor é pela revolução enquanto “acto” – com a sua apropriada dimensão estética – então também disso temos exemplos noutro lado: chamou-se fascismo e apregoava uma revolução vinda da profundeza da alma nacional. Quem ler Ernst Junger e os seus correlegionários na época de Weimar encontra lá um amor arrojado pela revolução estocástica…

  23. Almajecta diz:

    Clarificando águas, por conseguinte, o artista do novo realismo é um misto de poeta e de ferro-velho: capaz de captar uma espécie de segunda vida ou uma vida diferente, nas coisas usadas, está decidido a exibir a sua pobreza aparente, enriquecida, porém, pela espessura do tempo que essas coisas atravessaram.

  24. Carlos Vidal diz:

    nuno castro, vale sempre a pena voltarmos ao assunto: primeiro, de forma genérica, depois através de um exemplo muito concreto.

    Eu disse que há uma ideia de revolução. Todos o sabemos. Mas se eu disser que a revolução inclui Ésquilo tanto quanto inclui Robespierre (ou Lenine) já será mais difícil de se perceber. Mas é o que eu penso. A revolução não tem forma nem campo de presentificação predeterminada. A verdadeira revolução é pois aquela que, como disse, trai a ideia de revolução que temos de antemão. De outro modo, a revolução é anti-revolucionária, não confundir com contra-revolucionária. Se não trair uma matriz (a sua suposta matriz) não é uma revolução, é uma repetição. E uma coisa é a antítese da outra.

    Aonde leva? Aonde o sujeito quiser sem se perguntar precisamente aonde é que isto me vai levar. O sujeito fideliza-se e quer participar naquilo que não entende. Eu não tenho dúvidas que Lacan é o que é porque não seguiu Freud querendo lê-lo à letra. Lacan disse que o cérebro funciona segundo o modelo da linguagem, e não foi isso que Freud exactamente explicitou (preferindo verdades ou realidades biológicas). Deu-se uma traição, mas o edifício manteve-se. Nunca pode haver revolução sem traição à própria (ou à primeira) revolução. Aonde depois isso leva? Nem faz sentido a pergunta – há algo que é premente e inadiável. Sabemos isso no momento, e não sabemos nada mais: isso é a revolução.

    Um caso particular: Vivaldi escreveu, entre centenas de concertos, os RV269, RV315, RV293, RV297, ou “As Quatro Estações”. Se eu ouvir – experimenta nuno – estas obras pelo Concerto Italiano e direcção de Rinaldo Alessandrini, eu estou perante uma revolução. Aquilo que todos ouvimos centenas de vezes, afinal, nunca ouvimos. E esta é a primeira vez, com Alessandrini. Isso também é a revolução. Mas nada de transfigurações: a obra e a vida estão lá como sempre foram. É a detecção daquilo que Badiou chama, e muito bem, o indiscernível – é isso a revolução, nuno: o indiscernível que conduz ao indecidível e imprevisível.

    O fascismo, em Itália, não se apresentou indiscernivelmente: ele impôs uma verdade. O momento da revolução tem sempre um início e um final indiscernível – o fascismo nunca o foi. Não pode ser para aqui chamado.

  25. Carlos Vidal diz:

    Alma, o artista revolucionário é mais ou menos isso: alguém que vê uma vida diferente no que está usado. Aí o realismo é uma espécie de socialismo.

  26. Almajecta diz:

    Qual Socialismo o Líbio ou o Pan-Africano? A versão do Alessandrini (Vivaldi) não me parece causadora de transformação de algum movimento revolucionário.

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