Grécia: consumismo e urbanismo

Há dois aspectos ligados à situação na Grécia que têm sido pouco reflectidas e que seriam provavelmente interessantes discutir:

  • O consumismo – Será coincidência a explosão dar-se na altura em que  a máquina mais se esforça para criar o sentimento de necessidade, de insatisfação nos cidadãos-consumidores? A máquina, à sua maneira, faz o maior esforço para nos fazer sentir insatisfeitos com o que temos. Aponta as baterias principalmente aos jovens. Sempre me fez um pouco de confusão como a esquerda portuguesa convive tão bem com a publicidade e o marketing. Felizmente, nem toda.
  • O espaço urbano – Com os motins, a rua torna-se um lugar em que se faz mais alguma coisa sem ser viajar de automóvel e consumir. O espaço público assume uma natureza de discussão, convívio e confrontação, uma natureza humana. Um testemunho de um estudante erasmus neste muito recomendável novo blogue, dizia “também andei na rua a curtir”. A curtir, repare-se, não a transportar-se, não a comprar. A curtir. Quem me dera andar nas ruas de Atenas a curtir. 

Pelo que me têm dito colegas gregos, as reportagens na imprensa internacional que melhor têm tratado o assunto são as do The Guardian. Claro que  vale também sempre a pena passar pelo Indymedia.

Ainda acerca do urbanismo, há coisas à espera de uma faísca para se inflamarem. Hoje chegou à minha caixa de correio uma reflexão de uma “honest-to-God-9-to-5-working-lady”, sobre as palavras de Paulo Marques, o presidente da Associação Nacional de Segurança Rodoviária, que quer responsabilizar os peões pelas suas mortes, dizendo que  «Os peões não precisam de ter carta para andar nos passeios e isso retira-lhes muita responsabilidade em termos de acidente».

Aqui vai ela:

Hoje almocei no Largo do Rato, numa pastelaria com vista para a estrada (que linda vista!). Como não podia deixar de ser, uma hora e tal a ver latas a rolar no asfalto tinha de me recordar as conversas na mailing list, e claro que o meu nível de revolta disparou para os níveis usuais de quando penso nestas coisas. Ainda para mais, sendo Lisboeta, fico bastante infeliz por ver a minha cidade a transformar-se num corredor de automóveis com cada vez menos espaço para as pessoas (con)viverem na rua.
Cheguei a casa, abri o email e vi a conversa toda acerca dos peões (Ah malandros! A atravessar indevidamente!). E vi também este artigo num dos emails, para aumentar a coincidência: http://menos1carro.blogs.sapo.pt/134063.html

Passei precisamente a hora do almoço a pensar na perfeita estupidez que era um peão ter de esperar em tanto semáforo para ir a qualquer lado. E na rua ali ao lado, aquela com o Museu de Ciência e o Museu de História Natural, os passeios são tão estreitos que o meu chapéu de chuva batia contantemente nos candeeiros de rua e nas paredes. No entanto, os carros já têm espaço para estacionar, tanto do lado esquerdo como do lado direito. Nada de novo…

Não tenho bem a noção do que já se tem tentado fazer, mas os gregos nestes últimos dias têm dado excelentes ideias! Talvez hoje esteja com um espírito revolucionário, mas apetecia-me mesmo mesmo era encher todo o Largo do Rato com montes de gente, tipo aquelas malvadas velhinhas assassinas que atravessam passadeiras no vermelho, reformados a ler o Record, jogar dominó e sueca, bicicletas, trotinetes, patins, piqueniques, juventude a jogar à bola e ao berlinde e quiçá mesmo uns vendedores de castanhas com assador incluído (ou carrinhos de gelado se for no Verão).

Se calhar estou a delirar, mas parece-me ser uma experiência interessante, apesar de extremamente ilegal. 
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4 respostas a Grécia: consumismo e urbanismo

  1. Diogo MD diz:

    Já agora, um pequeno resumo do que tem acontecido na Islândia nos últimos tempos http://aftaka.org/2008/12/12/direct-action-in-iceland/ . Não tinha conhecimento de tudo isto e fiquei bastante admirado. Parece um movimento bem mais consequente e coerente do que o da Grécia, com propósitos bem mais claros.

  2. Onde os peões se haveriam de revolta era em Amesterdão. Contra as bicicletas…

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