Atenas, mote & glosa

Mote

“Parar um país, queimar carros e atacar as lojas, ‘bora’ dar cabo da Grécia é capaz de ser uma boa ideia. Conheço pouco do país, só lá estive num momento de festa (Jogos Olímpicos) e não sei se aquilo merece ou não ser derrubado. À partida não me parece. Melhor nível de vida que Portugal, eleições, há décadas, nos prazos previstos, não me parece exactamente o Zimbabwe… Mas posso acreditar que sim, talvez haja um Mugabe em Atenas – é tanta a convicção dos jovens e dos sindicatos nas ruas que só pode. Esse é um pressuposto justo para luta: um tirano, um governo iníquo, muito Esparta e pouco Atenas. Mas se é assim, diga-se. Ninguém o diz. Agora, ver os sindicatos gregos com bandeirolas “contra o assassínio a sangue-frio do jovem Alexander” e daí exigirem o fim dos despedimentos e mais dinheiro do Governo para a Saúde e Educação, dá para perguntar: o que tem o cu a ver com as calças? Um polícia atirou para o ar, a bala fez ricochete e matou um jovem é uma situação que merece que o polícia seja julgado. É o que está acontecer. A justiça grega tranquiliza-me. Assim me tranquilizasse a polícia grega acabando com a bandalheira nas ruas.”
Ferreira Fernandes in DN, 11.12 08

Glosa

Conforme já foi amplamente explicado, o “daí” que surge a meio do texto que precede, porque não há razões para pensar que seja pura e simplesmente uma desonestidade intelectual, é um erro: muito antes que o jovem Alexander tivesse morrido já os sindicatos tinham anunciado descer à rua, no dia em que o fizeram, “exigir o fim dos despedimentos e mais dinheiro do Governo para a Saúde e Educação”.

Mas para além desse erro, o problema é que, por esse mundo fora, e por essa história abaixo (e se calhar também acima), parece que as massas (passe o palavrão) nem sempre lêem o DN e os avisados conselho dos seus comentadores e insistem em confundir, na sempre expressiva linguagem de Ferreira Fernandes, “o cu com as calças”: os esfomeados de Paris de 1789 confundiram a sua fome (o seu cu?) com as calças que terão guilhotinado Luís XVI e Maria Antonieta, os russos de 1917, em vez de se contentarem com o pão, a paz e a terra, misturaram isso tudo com o poder dos sovietes e a electrificação de toda a Rússia (porque não leram eles Ferreira Fernandes?!), os jovens de Nanterre, em 68, que ao princípio queriam só poder ir aos dormitórios das raparigas (e vice versa), sabe-se lá para quê, e acabaram a pedir a imaginação ao poder, também deviam ter parado a tempo (logo que estivessem com as calças na mão, se calhar) e percebido a tempo que o raio de uma luta menor não se pode transformar na causa maior de um país inteiro – e se calhar até a malta que em Portugal, em 73 ou 74, queria melhores salários, estava contra a guerra em África ou contra a reforma Veiga Simão, nunca devia ter misturado o cu com as calças e posto em causa a questão do regime ou do poder de Estado. História fora, é longa a lista dos enganados: trocando Ferreira Fernandes por Romain Rolland (à sua maneira, dois clássicos), os gregos foram os últimos desta longa e aperentemente inesgotável linhagem a confundir a “bandalheira nas ruas” com a “felicidade de lutar”: é preciso perceber o que faltou para que eles pudessem avaliar a larga distância que separa o rabo das cuecas, por assim dizer.

Eu só estive em Atenas uma única vez em toda a minha vida, em 1972, e uma das piadas mais estúpidas e mais recorrentes lá de casa contava que nessa altura, estando eu, o meu pai e o meu primo J. na Praça da Constituição, o meu pai deu uns dracmas ao meu primo e pediu-lhe para ele ir a um quiosque ali ao pé comprar “CT Grande” (a marca de cigarros que ele fumava e que, evidentemente, não chegava sequer a Badajoz); aí o meu primo foi e na volta disse, com um ar convicto: “Eles disseram que não há” (risos da família). Ora eu acho que hoje se poderia repetir a graça, com o DN no lugar do CT, que eles voltariam a dizer que não havia, infelizmente.

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SEXTA | António Figueira
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5 respostas a Atenas, mote & glosa

  1. “o que tem o cu a ver com as calças? ” Tb peguei por aí, para comentar…
    Neste caso, tem tudo. Se uma sociedade civil não se indigna, está a legitimar que entre as já “n” possibilidades de Morte Precoce se acrescente mais um tipo: Assassinado pelo Sistema/Estado/ Governo/ Poder-etc.
    Bem, o FF é um prodígio em Originalidades-coisa-tosca.

  2. Paula Telo Alves diz:

    Touché.

  3. Tudo bem, na questão do “daí” estou de acordo contigo (e não é nada de somenos). Mas não consigo lobrigar o fundamento da comparação com os esfomeados franceses em 1789 ou russos em 1917. Olha, em 1914 também se confundiu o cu (assassinato do arquiduque Francisco Fernando) com as calças, dando origem à mais estúpida e desnecessária das guerras. Achas isso bem?

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