Alain Badiou e a arte, a arte e Badiou: um tema explicado às criancinhas que não gostam de “elites”

Imagens: Arnold Schoenberg, “Moses und Aron” e Alain Badiou, o “mestre”

Vamos lá deslindar isto. Num comentário ao meu post aqui em baixo, “Uma obra de arte não pode nem deve estar acessível a qualquer pessoa”, um estranho e anónimo comentador “sub-comandante M” (percebe-se a imaginativa referência), decide enveredar por um arrazoado ignorante e impreparado, tão impreparado e irreflectido que, se eu for directo ao assunto, serve o presente post para explicar Badiou às crianças, para citar um título de Lyotard. Por isso se justifica este post como resposta, pois o comentário do “sub-comandante” é extenso e o post também será (talvez). O sub-comandante decide atacar o meu post citado em três pontos: 1. diz ser uma defesa de um elitismo à la Filomena Mónica, no que eu posso sempre passar-lhe esta questão: se ele, militar e sub-comandante, defende uma arte “democratizada” à la Tony Carreira, sendo que eu, entre Filomena Mónica e Tony Carreira não escolho obviamente, por desprezar os dois (mas já o sub-comandante parece estar mais próximo do Tony). 2. diz que eu, ao defender uma “arte elitista”, ajudo uma indústria cultural que alimenta os mercados económicos e políticos, o que é uma contradição nos termos, pois se defendo uma arte “minoritária e elitista” não é certamente este “minoritarismo” que exponencia a indústria cultural. 3. por último, acusa-me de fazer uma salada teórica entre Badiou, Deleuze, Foucault, Debord, nomeadamente, quando aí mostra desconhecer as relações entre todos os citados (além da partilhada suspeição da democracia parlamentar), bastando para tal pegar nalguns textos de Badiou para exibir a impreparação do sub-comandante. Vejamos de seguida.

Aquilo que Nietzsche elegeu como a maior abominação, desde sempre, foi o espírito da gravidade, o passo obediente das botas cardadas daquele que marcha numa estrita obediência dos seus impulsos e ordens superiores. Trata-se, como explica Badiou, da antítese simultânea da dança, da leveza e da inteligência. A dança é pois a antítese deste movimento impulsivo e obediente, a dança é a força duma retenção e a negação de um impulso (Badiou, cap. 6, “La danse comme métaphore de la pensée”, em Petit Manuel d’Inesthétique). Mas o problema é outro: que fazer e que dizer quando essa entrada com botas cardadas, a do sub-comandante, é profundamente ignorante? Responde-se? Porque não? Porque não um pouco de pedagogia (e de bibliografia) contra as botas policiais deste representante de clichés “democráticos”, impreparado sem trabalho e sem amor à arte. É pois somente a defesa da arte que motiva este meu escrito, mas não da “arte democrática” de Tony Carreira, como o pluralista sub-comandante M. defende. Quando o meu amigo Bruno Peixe, estudioso do filósofo em causa, contestou a minha frase “uma obra de arte não pode nem deve estar acessível a qualquer pessoa”, contestou-a inteligentemente. Não é o caso militarizado do sub-comandante M. O sub-comandante não leu nem a pergunta do Bruno nem a minha resposta, baseada no fulcral ensaio do “mestre”, “Troisième esquisse d’un manifeste de l’affirmationnisme” (2001, e doravante dito apenas “Esquisse”).

Alain Badiou apelida a sociedade em que estamos imersos (já o explicarei) como um materialismo democrático. Ora, “Esquisse” configura precisamente a resposta artística a esse materialismo tal como definido no opus magnun badiano nº 2: Logiques des Mondes: L’Être et L’Évenement, 2. Logiques começa com uma pergunta simples, cuja resposta igualmente simples e imediata releva e revela o totalitarismo em que vivemos: em que pensamos quando pensamos espontaneamente no que somos e é a nossa sociedade, ou aquilo que nela somos? A resposta que nos obrigam a dar (“espontaneamente”) é: no nosso mundo e sociedade não há senão corpos e linguagens, visão que restringe o mundo a um leque de mandamentos que vai, digamos, de Wittgenstein aos “direitos humanos”. E nada mais. Parece que o sub-comandante leu umas coisa daqui, mas não percebeu nada da resposta artística ao tema. Nada de nada.

A nossa redução materialista democrática ao corpo e à linguagem institui um indivíduo forjado pela finitude (corporal) e pelo sofisma da doxa (a questão da linguagem que Badiou relaciona com Wittgenstein e a antifilosofia). Isto sujeita-nos acriticamente ao dogma da finitude e da exposição carnal ao sofrimento, ao prazer e à morte. Esta nossa redução impõe concomitantemente uma retórica linguística, um programa de “direitos” (“humanos”, à “diferença”, etc), em suma, institui uma biopolítica e um biomaterialismo (e aqui já divisamos uma primeira hipótese de referência a Foucault, contrariando desde logo o “pensamento” de que Badiou e Foucault são uma “salada” inconciliável).

A pergunta mais importante é esta: que arte defende “Esquisse” que se oponha à paralisia entre corpos e linguagens? Quando respondi ao Bruno, no mesmo post, sintetizei a estratégia fundamental de “Esquisse” em 3 pontos:

– A arte não se destina à comunicação, porque a arte é feita daquilo que não é feita a comunicação (a arte não está obrigada à clareza, à rapidez e à eficácia – quem não compreende isto não comprreende nada, caro sub-comandante M.)

– A arte, hoje, deve autocensurar-se, sobretudo se a sociedade disser que “tudo é permitido”.

– Se o artista tem de se confinar ao exigido pelos mercados democráticos (o que um Tony Carreira faz bem e eficazmente), se se tem de confinar à democracia mercantil, então que se recuse a produzir “arte”.

Não vou desenvolver este ponto, pois se o sub-comandante M. quiser que vá ler o “Esquisse” e daí retirar as consequências quanto à igualdade na circulação democrática dos objectos de arte. Ora se o sub-comandante não entende isto, nada feito também: à igualdade, Badiou junta a necessidade de inumanidade e o afirmacionismo, ou seja, a arte (como o erotismo em Bataille) liga-se ao desejo de infinito e à sua plena afirmação (que é mais do que a consciência de que somos “corpos e linguagens”, logo, somos ao invés “inumanos” – essa é a nossa verdade). No “Esquisse” o axioma “elitista” (nos termos impreparados do sub-comandante) é este:  exijamos “uma arte deslocalizada, tão ambiciosa quanto impessoal, tão despida para o pensamento universal quanto o traço daquele que, há trinta mil anos, gravou na sombra de uma gruta o signo intemporal de um bisonte e de um tigre. Aquele que, nessa nudez afirmou a inumanidade do belo”.

Consequências, sub-comandante M., tenho que lhe explicar?

Se partilho a violência deste enunciado? Sim, partilho. Se isto equaliza todas as formas de arte e as coloca num plano de acessibilidade genérica? Não, Badiou é cuidadoso na selecção dos seus afirmacionistas: Pessoa, Schoenberg, Picasso, Ossip Zadkine, Faulkner, Merce Cunningham, Alban Berg, Webern, Malevich, Mondrian, Rothko, Virginia Woolf, Welles, Pollock ….. Está aqui algum nome do agrado de Filomena Mónica? Poucos, creio – a senhora de Oxford não é dada a “vanguardices” (e o sub-comandante também não).

Vamos acabar com a “salada de frutas teórica” que já estou farto de aulas.

Começo por Badiou-Debord, por estranho que pareça. O sub-comandante conhece a crítica de Badiou ao filme de Debord In Girum Imus Nocte et Consumimur Igni ? Em Le Perroquet, Novembro, 1981, republicada em Guy Debord, In Girum Imus Nocte et Consumimur Igni suivi de Ordures et Décombres (Gallimard, 1999). Aí Badiou solidariza-se com o comunismo “amigo” de Debord, escrevendo isto sobre o filme: “É raro sair de um filme como se sai deste de Debord, forte, alegre e inteligente! Porque acabámos de ver, numa lentidão magnífica, um homem que não cede nunca”. E mais, diz Badiou que Debord ajuda-nos a concluir que nós esquerdistas, depois de 68 e de todas as nossas aventuras, nós não nos enganámos! O comunismo de Debord é o do amigo que não é colega de movimento, mas é amigo numa “igualdade (ou comunidade) de amizades”. E Debord, quando achou necessário até interditou a circulação dos seus filmes. Há mesmo coisas que não podem estar sempre acessíveis.

Sobre Badiou-Deleuze há três documentosimportantes: o livro dedicado ao co-autor de Anti-Édipo, Deleuze: La Clameur de L’Être, e capítulos dos livros Court Traité d’Ontologie Transitoire e, claro, essa homenagem sentida aos colegas mortos que é o Petit Panthéon Portatif, onde o texto sobre Foucault é um dos mais encomiásticos e onde Badiou destaca de Foucault o que já tinha destacado de S. Paulo, noutro lugar: a convicção íntima e abrupta, tenaz e científica. Badiou, Deleuze, S. Paulo, Debord, Foucault, homens irmanados numa mesma luta e, deixando S. Paulo na sua época, os outros estão de facto irmanados numa idêntica suspeição da democracia parlamentar.

A minha perplexidade é esta: O que é que há aqui que o obscuro sub-comandante não entendeu ??

No Deleuze: La Clameur … Badiou é claríssimo: é mesmo necessário passar por Deleuze para entendê-lo, a ele, Badiou. Badiou e Deleuze são os dois filósofos da multiplicidade. Deleuze é-o pela via vitalista, bergsoniana, aberta ao devir. Badiou é-o pela via da matemática dos conjuntos (de onde extrai a ideia da igualdade, da teoria dos conjuntos de Cantor concretamente), e pela via poética-estelar, como lhe chama, de Mallarmé.

Mas porque é que eu estive aqui a perder tempo com um impreparado sub-comandante sem exército ????

O que é que este tipo, no fundo, quer ???

Enfim, entre a perda de tempo e uma minha revisão da matéria, surgiu este texto. Publique-se.

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3 respostas a Alain Badiou e a arte, a arte e Badiou: um tema explicado às criancinhas que não gostam de “elites”

  1. CV. O Tony Carreira é bo-ni-to pra gente ouvir às escondidas, naqueles dias de nem às paredes confesso … não vale. … o toy é melhor para ilustrar …

    ……..
    Pois. Já para a gente não falar que tb transporta uns Eus elitistas dentro de nós – que aparecem y desaparecem.
    ………………
    http://f-se.blogspot.com/2008/12/f-se-vem-abasement-of-dolls-suzzan-b.html
    ………….
    y este. http://f-se.blogspot.com/2008/12/f-se-please.html Arte para os blogs. Fixe, n é?

  2. simplesmente Marcos diz:

    Sub comandante stands for Marcos

    Uma vez um velho amigo disse-me: «vai e dá-lhes trabalho!»

    Trabalho dei à suprema autoridade badiouana cá do burgo, que explicou a esta pobre criancinha «ignorante e impreparada», «tão impreparada e irreflectida» como se cose a desigualdade.
    Embora o blogger diga o contrário, a democracia, o corpo e a linguagem (e os seus exessos) são os seus atributos. Certamente que a «verdade» não está a passar pelos arrazoados elitistas deste «Mestre castrador», armado com a espada da desigualdade e o escudo do explicador e que sentencia: «A ARTE NÃO PODE SER PARA TODOS !».
    Felizmente que as criancinhas sabem que a «república não necessita de sábios», muito menos daqueles que na instrução pública nacional (o braço secular do progresso que eles tanto admiram) estão dispostos a adiar indefenidamente a igualdade.
    Para eles, tudo se joga num só princípio: «a desigualdade de inteligências». Este princípio admite uma só hipótese: a direcção da multitude estúpida pela casta inteligente. Bastaria, como diria Rancière, aprender a ser homens iguais numa sociedade desigual, para saber se «emancipar». Mas essa coisa tão simples (e tão bela, «afinal o que é o comunismo») é de difícil compreensão, sobretudo para os explicadores desencantados com o mundo que, para além de pouco afirmacionistas, são pouco voluntaristas e não demonstram um pingo de confiança nas pessoas! (infelizmente o blogger não perfaz nenhum dos requesitos para uma política no século XXI: «igualdade, terror, voluntarismo e confiança nas pessoas!»).
    A sua missão de pedagogização integral da sociedade conduz à infantilização geral dos indíviduos que a compõem (daí eu ter sido apelidado de criancinha). Apostado na formação contínua, ou seja, na coexistência entre a instituição explicadora, a sociedade e a nação; o profeta da desigualdade vaticina que a sociedade será «igual» quando se transformar inteiramente numa sociedade de explicadores/explicados.
    A desigualdade é assim mesmo, ela não é consequência de nada, ela é uma paixão primitiva que tem ódio à «vertigem da igualdade»: a preguiça que essa tarefa imensa exige, o medo que ela se possa efectivar, etc. A desigualdade prefere estabelecer uma espécie de troca social, onde a glória de um é o desprezo de todos, onde a superioridade de um é a inferiorização de todos.
    Por muito que custe ao blogger, «igualdade» e «inteligência» são termos sinónimos, tal como são razão e vontade. A lição da emancipação opõe-se a lição embrutecedora do professor, apostado na divisão entre os que possuem e não possuem inteligência.
    Deixo-o com uma citação sobre o tipo de escolas que nos recusamos a aceitar: «A escola não é, como se supõe, o lugar onde se aprende a fazer, mas o lugar onde se aprende a não fazer, a escola, toda a escola, da mais baixa à mais alta, é o lugar onde se assegura a formação contínua duma continuada conformação, onde se aprende o que se não deve fazer e o que se não deve pensar, o que se não pode fazer e o que se não pode pensar; a escola é desde o início o lugar onde se deixa de fazer, onde se deixa de fazer o que é natural fazer e onde se deixa de pensar o que é natural pensar, essa é a escola» em Alberto Pimenta «Discurso sobre o filho-de-deus»

    Simplesmente Marcos

  3. Carlos Vidal diz:

    Esta coisa é mesmo para “elites” ó “simplesmente Marcos”, ninguém vem aqui, a não ser o meu caro (no que faz muito bem). Por isso a questão, continuando, passou agora lá mais para cima, post “Alain Badiou e a arte explicado às criancinhas, parte 2”.

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