Uma obra de arte não pode nem deve estar acessível a qualquer pessoa

As imagens são de Douro Faina Fluvial, 1931 e A Caça, 1963

Habituei-me a amar profundamente o cinema de Manoel de Oliveira, desde que vi o Douro, já faz algum tempo.

Não me lembrava que hoje, exactamente hoje, faz cem anos. Sempre preferi valorizar os seu filmes, o seu visionarismo plástico, os seus tempos (num sentido duplo: cinematográfico e musical; a propósito de “sentido musical”, gostaria de falar em LEONARD BERNSTEIN, um dos directores de orquestra que mais admiro. Nos seus últimos anos, optou em gravações memoráveis – de Sibelius, por exemplo – por prolongar os tempos, “arrastando-os”, muito mais do que os desejados ou indicados pelos compositores, no que ficou conhecido como “Bernstein late style”: o resultado é esplendoroso – permite fruir texturas sonoras inimagináveis), sobre Oliveira, dizia, sempre preferi ver os seus filmes em lugar de comemorar exclusivamente a pessoa. Mas esta tem de ser comemorada, como pessoa e como cineasta, para que faça muitos mais filmes, tantos quantos mais desejar.

De resto, esta coisa das artes serem divulgadas como chocolates ou automóveis, é um disparate gigantesco. Sempre achei que as artes têm pouco a ver com democracia ou democratização vulgar. A expressão “democratização da arte” sempre me irritou solenemente. Sobretudo para quem diz que uma obra é “chata”, “enfadonha”, “aborrecida”, “mal feita” (ah meu bom El Greco !!, como pintavas mal mal mal !!!!). Sobretudo para esses para que é a “divulgação” ??

Terão direito à arte ?? Não, sem dúvida que não (força Greco, continua a pintar cada vez pior, dá cabo dessa anatomia das figuras, inventa-as, torce-as, reinventa-as !!!!!).

A ARTE NÃO PODE SER PARA TODOS !

À minha amiga Fátima Ribeiro, trabalhadora infatigável do cinema e cineasta, e que comenta na caixa de Luís Rainha (“A chateza está nos olhos de quem a vê”, bom título), pedia-lhe um breve texto sobre o Oliveira, para eu publicar aqui num post por mim assinado. Um texto sobre o Oliveira cineasta, um texto pequeno que se esquecesse momentaneamente de efemérides. Como Oliveira gostará, estou certo.

Vamos à forma e ao osso e deixemo-nos de foguetes vazios.

Dois dos bons, no fundo.

(ADENDA: Olhó Buonarrotti preocupado com as pessoas, e com o número de entradas na Capela Sistina. Qual foi a afluência hoje? Só? Tão pouca gente? )

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

50 respostas a Uma obra de arte não pode nem deve estar acessível a qualquer pessoa

  1. Luis Rainha diz:

    Cá para mim, tal como a arte não “tem” de ser coisa alguma, também se exime a essas coisas do “não pode”. Felizmente.

  2. Carlos Vidal diz:

    Isso não deixa de ser verdade, Luís. De acordo, a arte não é “útil”, eu sei. Mas a tua observação e a minha não são lá muito diferentes. Há-de haver sempre quem diga que Greco não sabia pintar e Oliveira filmar.
    A obra “não pode” ser acessível porque pura e simplesmente há sempre quem a ela não queira aderir nem pensar nem trabalhar nem senti-la. Ela “não pode” ser acessada (isto é português do Brasil?) por certas pessoas. Há mesmo quem não queira aceder a uma obra de arte (falando genericamente, nem de Greco nem de Oliveira em particular). Que fazer nesses casos? Democratizar? O que é isso?
    Quem esteve em Serralves?? Houve quem não pudesse, houve quem não quisesse. Que fazer nestes casos? Explicar? Explicar o quê?

  3. alice diz:

    Pelo EL GRECO, e depois pelo MANOEL DE OLIVEIRA, o maior cineasta do mundo, que faz hoje 100 anos, faço minhas as palavras de Carlos Vidal :

    De resto, esta coisa das artes serem divulgadas como chocolates ou automóveis, é um disparate gigantesco. Sempre achei que as artes têm pouco a ver com democracia ou democratização vulgar. A expressão “democratização da arte” sempre me irritou solenemente. Sobretudo para quem diz que uma obra é “chata”, “enfadonha”, “aborrecida”, “mal feita” (ah meu bom El Greco !!, como pintavas mal mal mal !!!!). Sobretudo para esses para que é a “divulgação” ??

    Terão direito à arte ?? Não, sem dúvida que não (força Greco, continua a pintar cada vez pior, dá cabo dessa anatomia das figuras, inventa-as, torce-as, reinventa-as !!!!!).

    A ARTE NÃO PODE SER PARA TODOS !

    E com um pedido de autorização para utilizar este excerto em post que colocarei ainda hoje.

  4. Carlos Vidal diz:

    Grato, alice, com um abraço.
    Pode utilizar o excerto, claro.

  5. É muito simples: há que procurar as pessoas. Há que ter um respeito mínimo pelo contribuinte que paga os subsídios e os ordenados. A Fundação Calouste Gulbenkian há dois anos fez uma retrospectiva do Amadeo que foi um recorde de afluência. O mesmo com a Paula Rego em Serralves. Lá está – a grande diferença entre os cientistas e (certos) artistas é mesmo esta. Se o Carlos Vidal acha que a arte não é para todos, então tenha a decência de não pedir um tostão dos meus impostos para a pagar. A sua arte (e a de alguém que pense assim) eu preferia não pagar mesmo. Por mim tudo bem.

    “Sobretudo para quem diz que uma obra é “chata”, “enfadonha”, “aborrecida”, “mal feita” (ah meu bom El Greco !!, como pintavas mal mal mal !!!!). Sobretudo para esses para que é a “divulgação” ??

    Terão direito à arte ?? Não, sem dúvida que não (força Greco, continua a pintar cada vez pior, dá cabo dessa anatomia das figuras, inventa-as, torce-as, reinventa-as !!!!!).”

    Nenhuma obra de arte jamais foi unânime! Nem sequer os filmes de Hollywood, do bom Clint Eastwood que o Carlos fez o favor de colocar ao lado do Oliveira (a arte não é para todos, mas colocar uma estrela de Hollywood sempre dá outra credibilidade, não é?). O que o Carlos pelos vistos não quer é que digam mal das obras de que gosta.

    “A obra “não pode” ser acessível porque pura e simplesmente há sempre quem a ela não queira aderir nem pensar nem trabalhar nem senti-la. Ela “não pode” ser acessada (isto é português do Brasil?) por certas pessoas.”

    O Carlos já ouviu falar nos saudosos encontros ACARTE? Sabe de que é que ACARTE é sigla? Já ouviu falar em Madalena Perdigão?

    “A expressão “democratização da arte” sempre me irritou solenemente.”

    Não é só a da arte. Nisso você é coerente.

  6. Almajecta diz:

    Onde não se conserva a herança do passado, pobre ou rica, grande ou pequena,não esperemos que btrote um pensamento original ou uma ideia dominadora.
    Um povo novo pode improvisar tudo, menos a cultura intelectual. Um povo velho “não pode” renunciar à sua, sem extinguir a parte mais nobre da sua vida e cair numa segunda infância muito próxima da imbecilidade senil.

  7. Carlos Vidal diz:

    Filipe Moura, vou já ali ao centro comercial mais próximo, saber qual é o detergente que vende mais.

    Será o Tide ????

    Olhó Buonarrotti preocupado com as pessoas, e com o número de entradas na Capela Sistina. Qual foi a afluência hoje? Só? Tão pouca gente? Ó Miguel, comé que é?

  8. Anotei: muito pró fundo…

  9. Carlos Vidal diz:

    Oh bom almajecta, e nós lá vamos ensinando os filhos do povo. Oh fado!

    Oh Filipe Moura, continue, continue …………………..

  10. Pedro diz:

    Ó Carlos Vidal, acredita que o Buonarroti se haveria de preocupar a sério se pouca visse a sua obra. Os gajos naquela altura eram mesmo artistas comerciais e ter poucos espectadores afligiam-nos concerteza. Os atormentados românticos que desprezavam os espectadores vieram muito depois.

  11. GL diz:

    Quando cheguei cá, todos diziam-me que “Manoel de Oliveira é uma seca”. Nunca percebi porquê. Já vi 5 ou 6 filmes dele e nenhum foi seca. Ele é excelente.

    “Sempre achei que as artes têm pouco a ver com democracia ou democratização vulgar. A expressão “democratização da arte” sempre me irritou solenemente.”

    Mais um sacrilégio de Carlos Vidal… nem vale à pena embirrar consigo.

    Acho que essa coisa de a arte não é para todos de um profundo egoísmo. Era bom entrar no museu e estarmos só nós, não é? Ah, pois.

    Vidal, a gorda turista americana que se entope de hot dogs antes de entrar na Galeria Uffizi para fazer a digestão é um ser humano. Arte é para todos, não é só para quem a manipula e de quem dela se apropria.

  12. Almajecta diz:

    De momento está cá o João o da Luz em S. João mas ainda influênciado pelo Kardec, um bom positiveiro cristológico à luz da lamparina. Está com uma barriga enorme e um assento de investigador orientado em si. Manda-te um abraço.

  13. Luis Rainha diz:

    “É muito simples: há que procurar as pessoas.”
    Filipe, se isto fosse verdade, tínhamos os museus e as retinas cheios de Medinas. Não ia ser bom, acredita.
    A reacção ao pólo do “não pode nem deve” será tudo menos o “tem de”.

  14. Luis Rainha diz:

    Mas também a ideia de «Onde não se conserva a herança do passado, pobre ou rica, grande ou pequena,não esperemos que btrote um pensamento original ou uma ideia dominadora» não faz grande sentido. Onde estaria o Stuart Davis se tivesse ligado a tal máxima? E onde andaríamos nós? Todos a admirar os pós-modernistas italianos? Safa!

  15. Carlos Vidal diz:

    Caro GL, quanto ao Oliveira, estamos de acordo.

    Quanto à democratização da arte, não estamos em desacordo. Prefiro colocar as coisas assim.
    Falou-me há dias em Jeff Koons, e eu escrevi, para si e para quem quis, sobre Jeff Koons. Democratizar para mim é isto. A arte está onde está, no museu, na galeria. Para acedermos à arte é preciso querermos, e eu sei que você quer e gosta de arte. A democratização consigo funciona, com outros nunca.
    Volte sempre, OK ?

  16. Há que procurar as pessoas, sim. Sem se prostituir. Sem desvirtuar a arte. Ninguém aqui defende isso, Luís. Mas a arte também é para ser ensinada. Isto para mim é uma questão, eu diria, ideológica. Está no meu âmago.

    Não percebo que moral tem quem escreve um texto destes para (supostamente) defender a “escola pública” (à maneira dele). Mas todos os textos do Carlos Vidal acabam por se virar contra ele. Como já disse uma vez, visto de fora é divertido.

  17. Carlos Vidal diz:

    Luís, os pós-modernistas italianos, vulgo transvanguardistas segundo o mentor (bom homem) Achille Bonito Oliva, em nada contribuiram para conservar ou entender a herança do passado. Eles copiaram superficialmente o passado porque acharam que as vanguardas tinham morrido. O Carlo Maria Mariani não tinha nem tem interesse nenhum, isso sabemos. E já está esquecido. Acho que o almajecta pretendia outra coisa, não era, ó alma ?

  18. “Democratizar para mim é isto. A arte está onde está, no museu, na galeria. Para acedermos à arte é preciso querermos”

    Tudo bem, até aqui estou de acordo. Ninguém diz que toda a gente deve gostar de arte. Mas a toda a gente deve ser dada a oportunidade (preferencialmente na escola) de saber o que é a arte, para ver se gosta ou não. A isto chamo eu democratização.

  19. Carlos Vidal diz:

    Oh Filipe, não desista ………………………

  20. Luis Rainha diz:

    Não é uma questão de contribuir para coisa alguma; é mais venerar e tomar como única e indispensável fonte.

  21. Carlos Vidal diz:

    Luís os transvanguardistas italianos, no programa deles e do Oliva não tinham a tradição e o passado como fonte única. No programa do bom do Oliva (e eu continuo a gostar do tipo, mais do que dos pintores dele), a coisa eras explícita – a regra era o eclectismo, não era propriamente a tradição.

    Entretanto, ó alma, manda sempre.
    O Nina boite, ontém, esteve bom ?

  22. Luis Rainha diz:

    Olhando para os ditos pintores, ninguém diria.

  23. Luis Moreira diz:

    Este Vidal é um atrazo de vida.Fala de assuntos mil vezes revistos,como se acrescentasse alguma coisa de novo.Chega ao desplante de colocar em MAÍSCULAS uma das maiores javardices de que há memória.A arte é só para os que se interessam por ela, como se o interesse não possa ser favorecido, pela formação,pelo tempo disponível,pelos meios económicos que sobram no fim do mês.Quem é que vive numa barraca e não tem dinheiro para cuidar dos filhos e vai para o Museu de Arte Antiga,de cabeça limpa,ver o tríplico de S. Vicente? Os mesmos que vão ao Benfica, responde rápido,o Vidal.Como gritar no futebol exigisse a serenidade com que se olha para uma obra de arte! Caro Vidal, o meu amigo aguente lá os cavalos olha que por aqui há gente que começou a visitar museus quando
    a vida deixou.Quer que explique?

  24. Caro Luís Moreira, o nosso Vidal aqui afirma que “Uma obra de arte não pode nem deve estar acessível a qualquer pessoa”. No texto de cima, do Luís Rainha (com título oposto ao deste), já afirma que “deve” estar acessível (pelos vistos ainda não “pode”). Não tente perceber que não vale a pena. Eu no fundo desconfio que o problema dele é que não sabe distinguir “ser” de “estar”. Se no título deste texto estivesse “ser” em vez de “estar” eu não teria nada a opor. Assim, tenho tudo.

  25. Carlos Vidal diz:

    Caro Luís Moreira
    Coloquei em maiúsculas, que me lembre o nome de LEONARD BERNSTEIN, que muito admiro e não sabia que era uma javardice.
    Claro que tem razão quando diz que uma obra de arte é para ser lida ou vivida com uma serenidade diferente de um jogo do Benfica.

    O Filipe Moura não percebe que uma obra de arte não é um objecto para decorar a vida de chatos sem pingo de imaginação, nem serve para decorar salas com sofás coloridos. Uma obra de arte tem consequências, e faz mal a certas pessoas.
    Por isso não deve estar acessível a todos (ou deve estar apenas aos que procuram mais as consequências do que a obra propriamente dita). A Filipe Moura faz mal de certeza. Não lhe deve estar acessivel, sobretudo se for muito complexa. Mas que ele não desista …………………………….

  26. Luis Moreira diz:

    Claro,caro Filipe, a educação tambem foi tida como não sendo para todos.Hoje é pacífico que sem educação nenhum de nós vai longe.Quando as sociedades chegarem a um determinado nível de bem estar vai ser determinante a arte,tanto como é hoje a ciência.Alguns de nós já estamos nesse nível.Mas impedir o acesso de pessoas à arte é estar contra o progresso e a libertação do ser humano.O Carlos tem que pensar antes de postar!

  27. Luis Moreira diz:

    Caro Carlos,você escreveu em maísculas “A arte não pode ser para todos”! Se você me diz que a arte não é entendível por todos, estamos de acordo.É como a matemática, mas isso não quer dizer que não se ensine ou que se ponham em quarentena os matemáticos.Não, há que tornar a matemática o mais próxima possível do homem comum.Se não for assim, temos as castas,a realeza, o clero e sem acesso à arte, o povo.Mas isto não é o contrário de quem posta e comenta no 5 Dias? Ali para o Atlântico há menino a defender isto “`a outrance”!(só para armar que sei francês).

  28. Carlos Vidal diz:

    Caro Luís Moreira, não leve a mal eu usar a terceira pessoa. Mas ele, o Carlos, além de escrever sobre arte, ensinar arte, também faz arte. E, por vezes, a relação afectiva com as obras é de tal ordem que se deve colocar o dístico de direito de admissão nos lugares de exposição. Disse para não levar a mal, Luís Moreira, pois não me refiro a si. Acredite se faz favor. Quem acha um artista chato só porque é complexo (ou parece que é complexo), quem o acha chato não deve ter acesso a certas obras de arte, ou mesmo a nenhumas. Mas o Luís Moreira não pode estar incluído nesta espécie de “proibição”: por diversas vezes já aqui se referiu a formas de relação produtiva com as obras, à formação, a uma abordagem gradual às obras, em suma, ao trabalho com as obras.

  29. Carlos Vidal diz:

    Além do mais, Luís Moreira, você está aqui a colocar uma questão decisiva, quando me diz que nem toda a arte é entendível por todos. E estou certo que vai concordar comigo se eu lhe disser que o facto de não se entender uma obra não nos dá o direito de a definir como chata, soporífera. Eu não posso chamar os nomes que quiser àquilo que não entendo, não é verdade ?

  30. “E, por vezes, a relação afectiva com as obras é de tal ordem que se deve colocar o dístico de direito de admissão nos lugares de exposição. Quem acha um artista chato só porque é complexo (ou parece que é complexo), quem o acha chato não deve ter acesso a certas obras de arte, ou mesmo a nenhumas.”

    O artista Carlos Vidal pode fazer absolutamente o que quiser com as suas obras de arte. Pode guardá-las até só para si. O artista Carlos Vidal pode bater as punhetas intelectuais que quiser. Só não peça é um tostão de subsídio ao erário público para as financiar, se forem essas as suas condições.

  31. Carlos Vidal diz:

    Eh pá, este tipo é desequilibrado ………

  32. bruno peixe diz:

    Olá Carlos,

    Não posso deixar de vincar o meu desacordo contigo neste aspecto, eu que concordo com tanto do que tu dizes e que partilho muitas das tuas paixões. É que me parece que o valor universal da arte é justamente o facto de ser para todos, do destinatário ser um qualquer, ou seja, a qualidade que o nosso mestre Badiou chama de genericidade e que permite superar os falsos dualismos arte de massas/arte de elites. O que me parece é que a tua formulação reinstala justamente esse dualismo aristocrático-populista da cultura de elites/cultura de massas. E isto nada tem que ver com democratização nem com popularização. A arte é comunista ou não é. E a verdade é que o Straub e o Beckett são de facto arte para todos, muito mais do que o Clint Eastwood ou o Harry Potter, que mais não são do que extensões culturais da lógica mercantil (nota: falo do Eastwood realizador de pieguices-ao-gosto-classe-média e não do actor desse exemplo máximo do que deve ser a arte política que é o Dirty Harry).
    Um abraço amigo,
    Bruno

  33. Almajecta diz:

    Che succedde allora al disgraziato critico quando tutto viene rimesso in discussione? Il suo compito è il più ingrato
    E poi, al colmo della sfacciataggine, si fa critico.

  34. Carlos Vidal diz:

    Amigo Bruno, ainda bem que apareces por aqui, é com enorme prazer que podemos esclarecer estas questões. É verdade que assumimos aquilo que esse mestre Alain B. vem dizendo sobre a genericidade. Mas esta genericidade não é o mesmo que uma qualquer democracia, nem nela, na democracia enfeitada do capital, a arte fica 100% bem.

    Pensemos então, relê, nos três últimos pontos do “Troisième esquisse d’un manifeste de l’affirmationnisme” desse nosso amigo datado de 2001, depois revisto.
    No ponto 13., Badiou é muito explícito: a arte não se destina à comunicação. A arte é feita daquilo que não existe no fenómeno comunicacional. No ponto 14., diz o autor que se a sociedade sedutora que nos circunda nos diz que “tudo é possível”, isso é sinal que temos que o negar e sermos os nossos próprios censores.
    Por último, 15. : “Mieux vaut ne rien faire que de travailler formellement à la visibilité de ce que l’Occident déclare exister”.

    Ou seja, Bruno, não temos de, na arte, comunicar.
    Por vezes temos de nos censurar.
    E, ainda, por vezes, há que não fazer (que é o mesmo que “não mostrar”, não banalizar, se quiseres – a arte não serve para “educar”, para “elevar”, “humanizar”).

    Não comunicar, censurar, não fazer. Bruno, a aposta não é pela democratização a qualquer preço. Estes três pontos vejo-os essenciais, e é daqui que pode partir uma discussão séria sobre estas coisas. Não duvido que se tenha de, muitas vezes, restringir a circulação de certas obras, torná-las invisíveis, ou invisuais (como gosto de dizer tb).

    Um forte abraço.

  35. Almajecta diz:

    Fundamental e principalmente no Ensino da Arte.

  36. Carlos Vidal diz:

    Oh grande alma, ainda não me disseste como estava lá a boite ontém. Como decorreram os shows sempre memoráveis?
    As senhoras de ontém vieram de onde? Albânia? Não aprecio muito.
    Ucrânia? melhor.

    O pobre crítico quando tudo está em aberto tem de ser crítico de três ou quatro artistas só. Deve falar sempre do mesmo e pouco mais. É uma forma de dizer que nem tudo está em aberto.
    Ou então, no cúmulo da desfaçatez, que se critique a ele próprio, escrevendo apenas sobre o que é ser crítico. E mais nada.
    Sem nominaleiridades.

  37. Carlos Vidal diz:

    Exactamente, ó alma, fundamentalmente no ensina da arte, que deve ser duro, duro de verdade. E já foi mais duro do que agora.

  38. Luis Moreira diz:

    O que eu posso entender Carlos, é que o seu vínculo à arte é de uma natureza tão forte que o leva a pensar que a maior parte das vezes ” é como deitar pérolas a porcos…” .Sendo verdade, só nos resta informar quem não está informado.É tudo uma questão de informação e de formação.Aprende-se a gostar!

  39. Carlos Vidal diz:

    Caro Luís Moreira, se reler o que atrás lhe disse, verá que eu elogiei o seu anterior comentário na base do que agora me diz: informação, formação, aprendizagem do gosto.

    Se eu não entendo uma obra e por isso lhe chamo de punheta, não acha que devo ser “expulso” do museu, da galeria, ou retirado da secção de livros de arte da FNAC ?

    Tente entender o meu ponto de vista, que eu entendo o seu.

  40. Almajecta diz:

    Uma suave ondulação de Khazaria mais própriamente de Sarkel e é o que de mais perigoso existe.

  41. Carlos Vidal diz:

    Concordo, ó alma, mas o que vais lendo tu a estas horas da noite ?

  42. k.r. diz:

    Depois de todo essa conversa, resolvi deixar uma palavrinha de apreço por algumas coisas que li. Vou estar atenta ao “Bernstein late style”……por prolongar os tempos, “arrastando-os”….
    o resultado é esplendoroso – permite fruir texturas sonoras inimagináveis.” Interessante, não tinha visto assim.

    “força Greco, continua a pintar cada vez pior, dá cabo dessa anatomia das figuras, inventa-as, torce-as, reinventa-as !!!!!”
    Belo elogio! A El Greco, claro está. Pois.

    “Uma obra de arte tem consequências, e faz mal a certas pessoas.
    Por isso não deve estar acessível a todos (ou deve estar apenas aos que procuram mais as consequências do que a obra propriamente dita). ” Bolas! Essa teve graça, O Carlos sabe sustentar um
    argumento!

    Gostei da resposta ao B. Peixe. É isso mesmo.

  43. Almajecta diz:

    Estou tão cego (iconoclasta) que nem ler consigo.
    Habitualmente tenho visões recordações do bom método de pensamento do D.Juan de Carlos Castañeda.
    De resto, olhos na terra por cá na horta, mais importante do que a simples beleza, são os afectos do animo que podem produzir certos movimentos do corpo e as sensações que podem produzir determinadas paixões. O tédio de construir, fabricar e armar, cavar e abrir leiras.

  44. Carlos Vidal diz:

    k.r., acho que sintetizou muito bem os pontos desta discussão, muitíssimo bem porque, em primeiro lugar, localizou-os de modo certeiro: o prazer da lentidão (o Kundera tem um livro com esse título); a transfiguração como produção de expressão (Greco e Oliveira); por fim, a necessidade de não mostrar tudo – é decisivo, claro, senão não havia arte. Já se imaginou ao lado de cada obra uma tabuinha explicando integralmente o seu sentido? Não se mostra tudo, não se pode mostrar tudo: nem havia obra, nem arte, nem significado – havia absurdo (por isso é que, em arte, se tem de trabalhar).

    Alma, quem me dera poder dedicar-me às tuas coisas: “O tédio de construir, fabricar e armar, cavar e abrir leiras.”
    Até era o que eu mais desejava. Mas não pode ser.

  45. Sub comandante (sem tropas nem quartel) M. diz:

    Algures entre o elitismo de pacotilha da Mª Filomena Mónica e o nihilismo dos novos profetas da desigualdade surgiu esta afirmação espantosa: «Uma obra de arte não pode nem deve estar acessível a qualquer pessoa» (dixit Vidal).
    Resistente à implosão dos géneros e às formas de expressão que outrora possibilitavam o abaixamento de muitos e a elevação de alguns; o bloguista, auto-proclamado mediador e zelador de Alain Badiou em terras lusas, inverteu um dos axiomas centrais do autor: IGUALDADE. Assim, ao invés da arte possibilitar a «glória de todos», ou como diria o «mestre» (v. «teses sobre teatro») o «elitismo para todos»; o bloguer proclamou «A ARTE NÃO PODE SER PARA TODOS !».
    A frase, como as de Badiou, tem estatuto de axioma, mas só na forma, porque no conteúdo, não passa de uma expressão de melancolia cínica de um (falso) profeta mergulhado na sua impotência. Uma impotência misturada com a segurança da posição subjectiva do «sabedor», que olha de forma altiva e desencantada para o mundo, esquecendo que a retórica crítica e o pedantismo elitista foram não só engolidos, como hoje são ventríloquos do próprio sistema.
    Aliás, este tipo de posições alinha naquilo que o «mestre» denominou «materialismo democrático», ou seja, a ideologia espontânea da actualidade que apenas afirma a existência de corpos e linguagem. Esta ideologia tem como manifestações empíricas a existência do mercado livre, a tecnologia, o dinheiro, o trabalho, o blogue, as reeleições, etc; e vive à custa da linguagem e dos seus excessos, da opinião (doxa) dos bem sucedidos, do palanque autorizado pelo «bom gosto», etc.
    Para futuros posts, na expectativa que sejam mais igualitários, faltaria ao blogger seguir o conselho de Morpheus (lamentavelmente um exemplo pouco oliveiriano): «unplug yourself» (leia-se «subtracção»); porque não basta recorrer a uma salada de frutas teórica (misturando alhos com bogalhos: Badiou com Deleuze, «notre divergence mobile», que o primeiro apelidou de «fascista» em 1976 pela sua apologia do movimento espontâneo; Debord ; Zizek; Foucault), expressa tiranicamente na figura do autor, para deixar de ser um «agente potencial»…

    Sub comandante (sem tropas nem quartel) M.

  46. Almajecta diz:

    O que importa aqui e do meu ponto de vista preocupado e venerando á terra (horta), após hectómetros e hectómetros de película são: O Acto da Primavera, O Passado e o Presente e os fragmentos dispersos do Gigantes do Douro. Mas os meus amores vão para: Canção da Terra, Sonhar é fácil e o Fim do Mundo de outros e variados autores.

  47. k.r. diz:

    Ó boa Alma, as duas primeiras não sei bem mas Fim do Mundo é uma canção de que gosto muito.
    Trilho de pedrinhas tuas reflexões, obg.

    …” é mais venerar e tomar como única e indispensável fonte”.
    Luís R., do meu ponto de vista, isso me parece lindo!

  48. Carlos Vidal diz:

    Ó “Sub comandante (sem tropas nem quartel) M.”, anónimo como convém, está lá em cima um post intitulado “arte e Badiou, tema explicado às criancinhas”.

    Jecta, ó alma, por mim iria pelo Douro Faina Fluvial, A Caça, Acto da Primavera, O Passado e o Presente, Amor de Perdição, Palavra e Utopia (porque acho que Oliveira tem o Padre António Vieira como semideus e nada descurou nesse filme), Vou para Casa e ainda Porto da Minha Infância (um objecto muitíssimo comovente).

    Ainda A Canção da Terra, Nazaré, Maria do Mar (objectos expressionistas inquietantes), Verdes Anos e, evidentemente, Juventude em Marcha (o cinema do futuro, o futuro do cinema).

  49. GL diz:

    Aqui e no Público optam por fotos de Manoel de Oliveira com Dirty Harry.

  50. Almajecta diz:

    De notar com atenção e bem que as obras por mim supra citadas entre as imensas $janelas de oportunidade$, são as referidas a um £corredor de investigação£ muito específico. A terra (horta), ou atirados ao chão, terra chã, Coimbra & tal.

Os comentários estão fechados.