Cem anos de Manoel de Oliveira

Faz parte da minha actividade profissional participar regularmente em seminários, a maior parte das vezes a assistir. Quem assiste a seminários técnicos com a duração de uma hora, ou está muito interessado e muito por dentro do assunto, ou inevitavelmente perde a concentração (pelo menos é o meu caso) a um dado momento. No primeiro caso pode-se intervir activamente, fazer perguntas e, no fundo, é um pouco como se se fosse também orador. No segundo caso, a maior parte das vezes quando o orador começa a descrição dos pormenores mais técnicos, acaba-se por adormecer brevemente. Passar pelas brasas. Dar ar às pálpebras, como eu costumo dizer. O facto de o seminário ser em salas fechadas e consistir em ouvir-se a mesma voz durante uma hora, muitas vezes sem interrupções, contribui muito para este efeito.
(O fenómeno de dormir nos seminários já foi estudado e existe literatura sobre o assunto, usando o meu orientador de doutoramento como case-study. O meu orientador de doutoramento é uma espécie de Mário Soares da física teórica: é mais respeitado e percebe mais do assunto a dormir do que muitos acordados. Tenho uma grande admiração por pessoas assim. Recomendo-vos vivamente The Art Of Sleeping In Seminars, pelo meu professor Warren Siegel, dedicada ao seu colega meu orientador.)

A maior parte das vezes consegue-se acompanhar o seminário e perceber a mensagem, mesmo se se passa pelas brasas uns minutos. Mas é muito frustrante se calha estarmos a dormitar quando é apresentado o argumento principal, e quando acordamos já não percebemos nada e não podemos pedir ao orador para voltar atrás. Neste aspecto assistir a um seminário é como ver um filme no cinema ou na TV (também se pode adormecer e perder o fio à meada), mas com a vantagem de podermos ler na maior parte das vezes a literatura (artigos) original. Mas não deixa de ser frustrante quando perdemos o principal de um seminário (ou de um filme) por causa de um pequeno cochilo.
Existe porém uma terceira categoria de seminários: os que não nos dizem nada, que não têm nada a ver connosco, mas a que temos que assistir por mera cortesia. Neste caso o efeito da voz do orador não se aplica, pois não lhe estamos a prestar atenção nenhuma. É a sensação mais irritante: estarmos a assistir a um seminário que não nos interessa para nada e de onde não podemos sair, pensarmos “ao menos era bom que adormecesse agora! Dorme! Dorme!” e nem assim conseguimos adormecer. Só adormecemos nos seminários a que prestamos (ou queremos prestar) atenção. É triste mas é verdade.
Tudo o que eu acabei de descrever em relação aos seminários é directamente transponível para os filmes. A classificação dos filmes (bem como dos seminários) de acordo com as três diferentes categorias que enunciei é evidentemente pessoal e subjectiva: depende dos gostos e interesses de cada um. Tomemos como exemplo Manoel de Oliveira, que faz hoje cem anos (os meus sinceros parabéns!) e que é alvo das mais diversas (e merecidas) homenagens (como esta do Rui) por parte de quem supostamente vê os seus filmes, quer adormeça quer não. No meu caso, a esta terceira e última categoria pertenceriam os filmes do cineasta Manoel de Oliveira, se por alguma razão eu me visse obrigado a vê-los mais do que o que já vi.
O que eu penso do cineasta Manoel de Oliveira, numa frase, é isto: Manoel de Oliveira é tão chato que nem sequer me consegue fazer dormir.

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15 respostas a Cem anos de Manoel de Oliveira

  1. Sagitário diz:

    Faz dormir qualquer um (exceptuando os franceses, os únicos que rejubilam com a sua obra, pasme-se), mas 100 anos com esta vitalidade é um feito do caraças. Boa soneca!

  2. Pois a mim não me faz ele dormir, ou se adormecer não é do filme. Não consigo prestar atenção àquilo.

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  4. Filipe, também eu sofro dos mesmos problemas nos seminários. Depende realmente tudo do apresentador. Se for bom, o tema pode ser chato que ele (ou ela, OK) consegue agarrar-me. Caso contrário l´saltam os apontamentos para pensar nas experiências que preciso de fazer na semana seguinte.

    Quanto a Manoel de Oliveira, ele foi o único que me fez dormir. Na abertura de Vale Abraão, em que adormeci profundamente e assim fiquei até que acendessem as luzes. Sei que não ressonei porque ninguém me deu um safanão. A Oliveira devo um dos mais belos sonos que tive, confesso, mesmo que tenha perdido o filme por completo.

    Mas não lhe disse isto quando o conheci, há coisa de oito anos, quando o festival Caminhos do Cinema Português o homenageou. Ele veio à sessão, fomos levá-lo a jantar, bebemos um belo vinho e voltámos do Terreiro da Erva (em Coimbra, na Baixa) para o Teatro Académico de Gil Vicente (quem conhece Coimbra conhece o percurso) a pé. Tomara que os filmes dele tivessem a vivacidade dele próprio.

  5. Berta Neto diz:

    Eu cá sou da opinião que se não usassem power points nos semários e se o ambiente não fosse a média luz seria muito mais difícil adormecer. Como se criam as condições do sono, é normal que ele surja. Ainda bem que há o coffee break.

    Quanto ao cinema, eu cá adormeço impreterivelmente em filmes de acção. No princípio, quanto se está ainda a esboçar a história, está tudo bem, mas mal começam as explosões e perseguições de automóvel, adormeço. É como se o meu inconsciente já soubesse de antemão o que vai acontecer e desliga.
    Nunca adormeci num filme de Manoel de Oliveira, porque não os acho chatos. Classificar o filme de chato até é a última coisa de que me lembrava. É a ausência de movimento que o faz pensar assim? Analisemos a coisa sob outro ângulo: o que é para si um fime “não” chato e já agora, apresente alguns exemplos.

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  7. Berta, o que é que para mim não é chato? Tudo menos o Manoel de Oliveira (e o Wim Wenders). Não é assim mas é quase. Se eu lhe dissesse do que gosto em cinema nunca mais saíamos daqui.
    Pode ver aqui http://avesso-do-avesso.blogspot.com/2007/12/cinco-filmes.html os meus cinco filmes favoritos. Mas gosto de muito mais do que isto.
    Sabe o que para mim não é chato? A cidade de onde me escreve. Sabe o que é belo? A vista do edifício de onde me escreve, que eu conheço bem. Quer beleza? Vá à janela. (Hoje não é o melhor dia: está de chuva.)

    João, espero que tenhas gostado do The Art Of Sleeping In Seminars, um clássico (isso não é nada chato, Berta!). Divulga-o. Um abraço e parabéns pela tese.

  8. Berta Neto diz:

    Obrigada pela pronta resposta Filipe. Confesso-me ainda admirada por ter reconhecido tão facilmente o meu local de trabalho. Imagine que até estava a olhar pela janela antes de ler o seu comentário!

    Mas gostaria de retomar o tema do que é chato em cinema e noutros assuntos. Estou a pedir-lhe uma definição mais objectiva. Designar algo de chato é ser demasiadamente vago. Está no domínio da opinião mais pessoal. Se não forem fornecidas explicações adicionais, é como dizer “eu não gosto de papas de sarrabulho”. E daí?

    Sabe porque lhe digo isso? Durante anos, nunca tive vontade de ver um filme de Bergmann ou Fassbinder porque os meus colegas ou amigos com um certo ar de superioridade intelectual atiravam com o mesmo veredicto: “chato”. O mesmo se aplicava a autores como a Agustina Bessa Luís, Marcel proust, Herberto Hélder. Talvez interesse explicar que esses colegas e amigos vinham das ciências exactas, com um gosto mais voltado para a explicação lógica de tudo (que eu também perfilho aliás).
    Um dia, de forma casual vi um filme do Bergmann (no saudoso ciclo “cinco noites cinco filmes) e cheguei a ficar irritada comigo mesma por ter levado tanto tempo a ver um filme dele. Agora quando oiço alguém classificar um determinado autor de “chato” fico é com mais vontade de o ver e considero isso quase um acto de dissidência. E finalizo acrescentando que gosto de rever filmes que considerava chatos no passado a ver se o veredicto ainda se mantém. Às vezes sim, ás vezes não.

  9. Cara Berta (tratemo-nos por tu, colega!), a definição de chato é quase sempre subjectiva, então tratando-se de filmes! É uma opinião pessoal. Tens todo o direito de perguntar “e daí?”
    Não conheço ou conheço muito mal os autores que referes, mesmo o Bergman. Mas garanto-te que não é por nenhum amigo ou colega me ter dito que “são chatos”. Não sou maria-vai-com-as-outras; se fosse, não veria telenovelas :). Parece-me que o essencial da tua questão é isto. Eu não ligo muito a opiniões alheias, a menos que me pareçam bem fundamentadas. Não sou a melhor pessoa para fundamentar uma opiniao sobre cinema; agora, garanto-te que muitas pessoas que percebem bastante de cinema acham o Manuel de Oliveira maçador. Mas claro que ainda bem que há muita gente que gosta dele.
    Consigo identificar de onde me escreves pelo teu IP (e até pelo email!). Estive aí ainda há quinze dias (na Ciência Viva). Também estive aí numa conferência em Janeiro ou Fevereiro. Pelos vistos tens um gabinete com janela para o canal. Que sorte!

  10. Já agora imprime o The Art of Sleeping In Seminars. O Salema até é capaz de achar piada :).

  11. nuno castro diz:

    e já agora: uma classificação para textos, não se arranja.

    é que eu li este seu texto e não sei como classificá-lo. ocorrem-me vários insultos e palavras menos decorosas…mas acho que mesmo assim não se aplicam.

  12. Nuno, estás à vontade para discordar… Se conseguires exprimir a tua discordância, por mais frontal que seja, sem grosserias ou insultos, estás à vontade. Se conseguires explicar por que não gostas do texto, melhor ainda.

  13. Berta Neto diz:

    Caro Filipe, em jeito de conclusão, gostava de deixar o meu principal argumentos desta discussão: Tudo o que fazemos e dizemos é passível de influenciar outras pessoas e por isso quando voluntáriamente opinamos sobre algo, é sempre melhor ser o mais objectivo possível. E acredita que não é ser “Maria-vai-com-as-outras” e simplesmente humano.
    Se tiveres interesse em acatar uma sugestão minha, aconselho-te “O medo come a alma” de Fassbinder. Está editado em dvd pela fnac e é um belíssimo filme.
    Quando passares por cá outra vez terei todo o gosto em te conhecer pessoalmente e talvez continuar esta discussão.

  14. O «Non ou a Vã Glória de Mandar», por exemplo, não acho nada chato. Já aquele filme de 6 horas é capaz de ser um bocado chato.
    Mas nada disto invalida o valor de quem, com 100 anos, não pára de fazer filmes.
    Está mais lúcido do que muitos mais novos. Do que Mário Soares, por exemplo.

  15. Berta, é uma característica (e não sei se um defeito) minha: não ligo muito a opiniões, nem dos outros nem minhas :). Não deixo que me façam a cabeça. (Já factos é diferente: não gosto que me ponham em causa quando afirmo algo que sei ser verdade).
    Falaste em filmes de acção: não é de todo o meu género favorito. Ao contrário da maioria dos meus colegas, nunca tive paciência para o Star Wars, por exemplo.
    Vou procurar o filme que sugeriste. Obrigado. E até um dia! Até lá vai comentando sempre.

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