É preciso desabituar o olhar

É preciso desabituar o olhar. Esta manhã saí de casa ainda não eram oito, e eles davam especialmente nas vistas porque pareciam estátuas negras postadas às esquinas, junto às carradas de obras que há pelo bairro todo, história de transformar de vez a zona num gueto burguês. É claro que eles também lá estão lá nos outros dias, só que a gente não os vê, vêm cedo e saem cedo (comem ao meio-dia como os cantoneiros) e depois recolhem-se lá para os sítios onde moram – sítios que a gente não conhece mas de cuja absoluta fealdade suspeita, porque sabemos que Portugal é um país muito bonito excepto onde a maioria das pessoas, pretas e brancas, mora. Também se vêem aos domingos, vestidos à domingo, sozinhos na rua – e isso é o mais triste de ver. É preciso procurá-los, não nas sombras, mas onde há luzes que não os deixam ver. É preciso impedir a visão de ser parcial e a memória de ser selectiva: eu, de Lisboa, quando era pequeno, lembro-me sem esforço do Saldanha na sua antiga regularidade, dos passeios sem carros tão arrumados que eles eram e da Baixa toda arranjadinha – não me lembro dos estropiados a pedir como em mais lado nenhum da Europa havia, das velhinhas a pedir à porta da Igreja dos Mártires a quem a minha mãe dava esmola sem sequer olhar para elas, tão natural aquilo era, nem dos desgraçados que vinham pedir à porta de serviço. É preciso, por exemplo, olhar para as Amoreiras onde estou agora e para o caos urbano que existe aqui à volta, imaginar aqueles casebres por dentro e, à falta de melhor, ter um bocadinho de pudor.

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SEXTA | António Figueira
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5 respostas a É preciso desabituar o olhar

  1. /me diz:

    Era só para chamar a atenção para o erro (certamente resultado de uma desatenção) na última linha do post. É daqueles que convém corrigir.

    Já está, obrigado. AF

  2. ezequiel diz:

    “É preciso desabituar o olhar.”

    Esta tua frase, caro António, lembrou-me a máxima de Maurice M-Pty.

    Quando era puto assisti a muitas situações destas.

    ” É preciso impedir a visão de ser parcial e a memória de ser selectiva.” Muito bem escrito, António.

    cumprimentos,
    ezequiel

  3. Paula Telo Alves diz:

    Eles andam aí também nos supermercados: uma pessoa distrai-se à procura das “rice crackers” de baixas calorias, dá duas voltas de carrinho cheio (e aquilo é tão complicado de manobrar quando está cheio), e quando volta a passar no corredor dos enlatados lá está ele, ainda a olhar as mesmas latas sem se decidir, e não é a etiqueta dos ingredientes nem a quantidade de E239s que o mantém assim especado a escrutinar a etiqueta. É preciso desviar o olhar para não perder de vista a lista e comprar tudo o que é preciso antes que as caixas fechem. Que feio que é o chão do supermercado, nunca tinha reparado mas é cinzento.

  4. Ana Cristina Aço M. diz:

    “É preciso desabituar o olhar…impedir a visão de ser parcial e a memória de ser selectiva…”É preciso desabituar o olhar…impedir a visão de ser parcial e a memória de ser selectiva…
    tão natural aquilo era.”..

    Deixem-me começar esse comentário assim: a essência do homem como criação à imagem de Deus (conf. Gn 1.26) é uma ideia inesgotável. Não só na linha judaico-cristã. Em culturas arcaicas e noutras grandes tradições religiosas, esta é uma noção fundamental. Mas enquanto nos textos orientais tal privilégio é reservado somente aos reis e faraós (altos funcionários em alguns periodos) a inovação que Génesis traz é da ordem de uma universalização; todo o homem.

    Esta pequena introdução para dizer, da perspectiva de alguém que crê, claro está, que o homem ‘é’ imagem de Deus em seu próprio ser e sua vocação. Se Génesis descreve Deus como criador, o homem se define então por sua criatividade; esta inclui autonomia e liberdade.
    O Deus criador (a tradição sacerdotal presente neste texto) faz o homem como ele, criador. O homem é a última das suas obras, especial e única.
    Significativo é que quando é o homem é posto no mundo (ainda me referindo ao texto) Deus pára de criar. Cabe ao homem expressar sua criatividade neste mundo criado. A ideia chave que rompe com o esquema mítico de outra culturas é a ideia de criação onde o mundo já não é lugar dos deuses, mas do homem. A relação Deus-homem já não é cósmica mas dialogal, e acontece na história onde o homem é responsável por um destino mas interpelado também nessa relação que o transcende.

    Para não me estender mais, fica ao que crê uma questão que precisa de respostas mais do que pessoais (estas também) mas também colectivas (e aí ele não está sozinho) em vista do ‘pecado estrutural’ que permite a alguns todos os privilégios que nega à outros e os oprime (não está fora de moda dizer, para milhares não está).

    “Só quando unimos Pai nosso* com pão nosso, é que podemos dizer amém.” Leonardo Boff

    *nosso, plural….

  5. Ana Cristina Aço M. diz:

    Correcção:
    1. a repetição da citação acima foi involuntária.

    2. nosso, plural – o meu sublinhado referia-se sobretudo (mas não só) ao pão nosso…de todos.

    Obrigada António, pelo desafio.

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