Ideologia ou respeitinho?

Pedro Marques Lopes tenta explicar a aparente queda nas intenções de voto no PSD. Fá-lo recorrendo a um pressuposto que me parece algo contraditório: «a desfragmentação ideológica dos dois partidos tem levado os cidadãos a procurar nos partidos uma resposta às suas próprias convicções de uma forma avulsa, ou seja, neste momento as pessoas não identificam o PS ou o PSD com modelos ideológicos distintos e escolhem o seu sentido de voto ou apoio pontual em função do que elas próprias percepcionam como, há falta (sic) de melhor designação, politicas ou atitudes de direita ou esquerda.»
Ou seja, e se bem percebi coisas exóticas como a tal “desfragmentação”, os partidos terão perdido a sua ideologia mas o eleitorado manteve a sua pureza doutrinária, vendo-se assim forçado a desistir de escolher os partidos pela ideologia dos seus programas e recompensando-os pela ideologia visível nos diferentes momentos da sua praxis. Assim, toca a votar de acordo com as últimas atitudes dos partidos, usando raciocínios do género “aderiram a protestos? Só podem ser de esquerda!”
Destarte, o PSD, tradicionalmente «um partido reformista, institucionalista, sem medo de confrontar corporações ou movimentos de rua e, sobretudo, um partido respeitador da ordem e autoridade» lá se viu minado pela reacção «de Menezes às reformas da saúde» e agora pelo aparente apoio à luta dos professores.
A teoria é patusca. Se dois partidos se confundem ideologicamente, só conquistarão votos pelas maneiras e pelo respeitinho que demonstrem. Assim, é escusado detectar no PSD um tremendo vácuo de pensamento ou de propostas alternativas. É inútil sequer tentar apresentar caminhos políticos e de acção concreta. Basta ficar quietinho, sem ofender «ordem e autoridade», para que o povo ali veja um partido de direita e corra a confiar-lhe os votos. Falta apenas perceber como é que o fenómeno inverso não tem afastado os votantes do PS…
Vai longe o PSD. com estrategas deste calibre. É como diz o outro: “fia-te na virgem e não corras, a ver o que te acontece”.

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3 respostas a Ideologia ou respeitinho?

  1. z diz:

    desfragmentação? ainda se fosse fragmentação ferrugenta percebia-se,

    portanto agora há bombas de desfragmentação e eu não sabia,

  2. ezequiel diz:

    contraditório, sem dúvida, caro Luís, sobretudo se considerarmos a possibilidade que não foram os partidos que se fragmentaram. Os partidos são um reflexo da sociedade e da cultura política (onde começa e onde acaba, ninguém sabe!) de onde emanam. Aqui a perspectiva analítica-genealogica do Michelin (excelentes pneus!) Foucault (porra, finalmente posso citar o gajo, mas não sou intelectual, palavra de honra com scones e mucho teazusco preto, moinha, só do genuíno da Gorreana ou, se preferirem, do PG mega black (UK), moinha, dos estivadores de Liverpool!…there we go: working class attachments out of the way! swiftly LOL LOL)

    Ou seja, a cultura fragmentou-se. A história fragmentou-se. As pessoas fragmentaram-se.(não por esta ordem, necessariamente) E o lyotard escreveu sobre o assunto. Amen! LOL 🙂 o problema central nunca foi o da fragmentação per se. O problema essencial, para as democracias liberais, é e sempre foi o das dinâmicas relacionais! Esta fragmentação (por ex.) nos EUA transformou-se nas políticas dos Issues. A Issue politics permite novas constelações (agregações, ou seja, a transformação da fragmentação em processo político de legitimação: or, if you wish, in alliances. strategy, innit)

    A bem da verdade e correndo o risco de parecer pateticamente PC (coisa abominável) devo dizer que me parece evidente que fomos todos NÓS q fragmentamos x ad inf. E seremos nós que desfragmentaremos (LOL). Isto não é um argumento ontológico-histórico. Trata apenas de dois aspectos ou possibilidades. Assim, de forma sucinta, a minha tese seria esta: os partidos políticos não conseguiram lidar com x. Alguns conseguiram (Blair? terceira via? ). Outros não. Pas de drama. (isto não é uma descrição metafisica…constatação de aspectos, nada mais)

    http://www.gorreana.com/

    http://www.pgmoment.com/

  3. Luis Rainha diz:

    Ezequiel,
    Claro que os partidos apenas se adaptaram a um mercado de votos em mudança. Pelo menos por cá; creio que nos EUA a ideologia, pelo menos o seu reflexo em alguns assuntos concretos, ainda faz parte do menú eleitoral.

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