Verdades Para Vesgos

Sobre este artigo de VPV, Bruno Peixe e José Neves, escrevem o seguinte (via Spectrum):

“Vasco Pulido Valente publicou no dia 16 um artigo intitulado Marx e a crise, no qual procura dizer toda a verdade sobre o Congresso Internacional Karl Marx e revelar ao país as verdadeiras intenções dos organizadores. O artigo possui o estilo a que o autor habituou os seus leitores e, na verdade, a única coisa que sobra do artigo é justamente esse estilo, que consiste num recurso repetitivo à ironia e ao cinismo. Com o passar dos anos, o recurso incessante ao rancor e ao sarcasmo tem levado o autor a descurar o método das suas análises: em V.P.V., trata-se hoje do método do “evidentemente”, pelo qual anuncia o que entende ser um conjunto de evidências.

Assim, discorre acerca do que designa como “previsões de Marx”, afirma que o proletariado desapareceu ou ainda que Marx escreveu fundamentalmente acerca da sociedade inglesa de meados do século XIX. Sem surpresa, em relação a estas e outras questões, a animar o antimarxismo de V.P.V. acabamos por encontrar uma concepção ortodoxa do próprio marxismo. Em relação às famigeradas “previsões de Marx”, o Marx de V.P.V. em pouco se distinguirá das teses mais simplistas do socialismo científico. Não surpreende, por isso, que V.P.V. se limite a tomar um pensador como Marx (mas poderíamos dizer o mesmo de Adam Smith, Carl Schmidt ou outros) com a mesma leviandade com que julgará as previsões do meteorologista de serviço cujas previsões falham ou acertam. Quanto à extinção do proletariado, a sua afirmação só é possível na medida em que o Marx de V.P.V. partilha duas características definidoras de um marxismo ao qual se contrapuseram inúmeros marxismos: por um lado, a ideia de que só a classe operária industrial é proletariado; e, por outro lado, o provincianismo nacionalista que desde logo ignora os processos de proletarização industrial em curso em países como a China ou a Índia.
Diz ainda o autor do artigo que os organizadores do congresso se pretendem aproveitar da presente crise económica para mostrar que o marxismo não está morto. E aqui entramos no domínio dos efeitos alucinantes da preguiça: com efeito, um pequeno esforço reflexivo ter-lhe-ia permitido concluir que um congresso com cerca de 150 comunicações, e investigadores de vários países, terá necessariamente implicado um processo de trabalho demorado. Talvez porque o Marx dos organizadores do congresso não seja o mesmo Marx de V.P.V., lamentamos não possuir os dons de adivinhação que nos teriam permitido prever, logo em 2007, a crise que agora surge. Entretanto, a nossa incapacidade de adivinhação permite ainda um último reparo. Afirma V.P.V. que o colóquio finge discutir Marx, quando, na verdade, discute a extensão do poder do Estado. Ora, aqui chegados, torna-se ainda mais claro que V.P.V. não sabe do que está a falar. Com efeito, um mínimo de conhecimento acerca de alguns dos conferencistas (e bastava “googlar” o nome dos dois conferencistas da primeira sessão plenária: Alberto Toscano e Paolo Virno) permitiria perceber que vários dos autores presentes não só não desejam a extensão do poder de Estado como pretendem inclusivamente pensar a política para além do Estado; que outros comunicadores, é verdade, defendem posições mais ou menos estatocêntricas; e que outros nem sequer abordam a questão do Estado, tendo sido justamente esta diversidade de propostas e este conflito entre diferentes correntes marxistas (e não marxistas) que entusiasmaram os organizadores do congresso.
Provavelmente, nada disto impedirá que V.P.V. se reivindique, uma vez mais, como a “verdadeira consciência” do congresso. Do alto do seu antimarxismo, V.P.V. expõe-se hoje como um dos melhores intérpretes de um marxismo de pacotilha: ausente do congresso, e, “apesar” do que se discutiu no próprio congresso, V.P.V. resolveu elaborar a “síntese final” que ninguém propôs elaborar. Deste seu exercício resultou uma pequena farsa. Esta pequena farsa pode ser explicada através do seu estilo peculiar de escrita ou em razão do seu posicionamento político-ideológico: contudo, do que a nosso ver se trata é do seu desconhecimento acerca dos debates políticos e ideológicos que hoje atravessam o difuso campo marxista, de autores como Daniel Bensaid e Negri a autores como Badiou ou Meszaros. Que V.P.V. não tenha pejo em demonstrá-lo publicamente tal não é reflexo do seu estilo intempestivo e inofensivo que nos vai entretendo: é simplesmente sinal da sua actual incompetência e desqualificação intelectual. Por isso este nosso texto não é tanto um protesto como um lamento: lamento pelo facto de serem raras as vezes a que, em Portugal, no espaço mediático, os marxismos têm direito a uma oposição baseada numa crítica trabalhada e inteligente. “

Bruno Peixe e José Neves
Membros da comissão organizadora do Congresso Internacional Karl Marx
(22 de Novembro de 2008 do PÚBLICO)

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

6 respostas a Verdades Para Vesgos

  1. Pingback: Claro Online » Blog Archive » Verdades Para Vesgos

  2. Pingback: marxismo » Blog Archive » Verdades Para Vesgos

  3. Pingback: socialismo » Blog Archive » Verdades Para Vesgos

  4. Saloio diz:

    Estou convicto de que os autores têm toda a razão.

    Na verdade, nos últimos anos, VPV recorre de amiúde ao “notório” e ao “evidente”, dispensando-se por mera comodidade de esclarecer as situações, assumindo análises simplistas e simplificadas da realidade, apenas para se permitir ao seu exagerado sarcasmo – quem diria que o mesmo, com 18 anos, era do “contra” e intelectual empenhado, tendo chegado a chefe de redacção do “Tempo e o Modo”.

    Eu também não sou marxista, como VPV, mas não me é difícil aceitar que existem teóricos de Karl competentes e brilhantes, capazes de elaborar devidas adaptações e raciocínios do mestre de forma actualizada à presente realidade que nos rodeia.

    Acresce que tais estudos não me são indiferentes – antes pelo contrário; há que os ter em conta com efeitos de esclarecimento, apesar de não ser seguidor da retórica.

    Infelizmente, VPV decidiu tornar-se uma vedeta do jet-set, sendo as suas prestações com a Moura Guedes decrépitas e algumas ridículas, que apenas mancham a sua reputação se seriedade e exactidão histórica. Embora pense que VPV aceitou o encargo da TVI para assegurar um emprego à mulher (Constança Cunha e Sá, há muito pouco ocupada desde o fim do “Independente”), tomou o gosto de ser reconhecido na rua, e mantém aquele ar um pouco tonto a que todos podemos constrangedoramente assistir às sextas.

    É uma pena.

    Digo eu…

  5. António Figueira diz:

    A propósito da suposta “ortodoxia” do marxismo de VPV: haverá inúmeros marxismos, mas apenas um marxismo de Marx, um truísmo do Raymond Aron; talvez VPV estivesse a pensar nele quando escreveu o que escreveu (o que evidentemente não o impediu de escrever disparates).

  6. nuno castro diz:

    o texto do VPV é paupérrimo!!!
    e os autores do protesto têm toda a razão. comentar tipos brilhantes como Virno ou, um pouco menos, o Toscano com um texto deste calibre é gozar com o pagode.

    onde eles perdem – estas avantesmas aka VPV e Rapozos – é que enquanto os do outro lado lêem os seus autores de estimação (Mill, Federalist Papers, Poppers etc) e lhes vão ao ripanço; esta nova escola de aristocratas da treta muito anti-marxistas nem se dão ao trabalho de ler o que vem da esquerda actualmente. para quê? são eles que dominam as regras do campo discursivo…

    só um reparo: o texto do Neves e do Peixe é também um pouco básico, sobretudo o português é de “benzó deus”!

Os comentários estão fechados.