Anti-pop

Nas duas vezes que morei em Bruxelas, morei sempre na comuna de Ixelles, um antigo arrebalde da capital que se tornou um bairro seu e está ligada ao centro da cidade por uma rua comprida, a Chaussée d’Ixelles, que a minha amiga S. insistia em chamar a Calçada de Chelas. A coisa irritava-me; fazia-me lembrar a malta que escreve ‘bora aí, ganda nóia e coisas parecidas: pareciam-me herdeiros da antiga república coimbrã do Prakistão, que eu sempre contei que a Índia amiga um dia fizesse desaparecer, e antepassados da malta dos chats, esse-éme-esses e quejandos, que encheram o português de kapas, como em Destak. Descobri pela S. que detesto a língua pop e hoje acho que todos os telemóveis deveriam vir acompanhados de um exemplar da Estilística Portuguesa, do Prof. Rodrigues Lapa, para evitar mal entendidos.

Ontem, por acaso, vi os Gatos Fedorentos na televisão. Às vezes sorri, mas rir, nunca. Pelo contrário, hoje pensando nisso, dou comigo até com pena. Deve ser uma maçada a vida dos piadistas, sempre engraçados, sempre em festa. Parece que não percebem os prazeres da condição séria.

Para quem trabalham eles? Quem é o destinatário imaginário das piadas que eles dizem? Sim, não é preciso ser Barthes para perceber que escrevemos sempre com um leitor ideal em mente (e daí o embaraço quando há outros que também nos lêem), se não estávamos quietos e calados, ou guardávamos tudo na arca, como o outro, em vez de escrevermos em blogues (eu, por exemplo, quando estou a escrever isto estou obviamente a pensar em si).

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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9 respostas a Anti-pop

  1. Paula Telo Alves diz:

    “Calçada de Chelas” tem a sua graça e é um excelente atalho linguístico que traduz a invasão daquele bairro por portugueses, bem hajam (e digo isto sendo adepta dos prazeres da condição séria e ficando frequentemente transida de horror com a língua pop). Terei lido o texto por engano? Olhe que não, olhe que não…

  2. António Figueira diz:

    Bem-vinda, Paula, estava à sua espera.

  3. Paula Telo Alves diz:

    Demorei-me um bocadinho no trânsito: a internet na “rush hour” fica muito congestionada, e ali no nó que liga os arrabaldes da Calçada de Chelas a Lisboa estava infernal.

  4. maradona diz:

    Embora sem ter percebido metade, sinto que eu (próprio) não diria melhor. Mas, por exemplo: considero que a conexão que identificou entre escrever “com um leitor ideal em mente” e o “embaraço” provocado (pelo imaginar ser lido) merecia ser explicitada, que não se ficasse pelo “não é preciso ser Barthes” (há ignorantes a ler isto). Revejo-me, no entanto, nessa cena (ou “circunstância”, não quero ferir a sua hiper-susceptibilidade à língua pop) do “embaraço”, tendo adoptado a técnica do apagar aquela merda (“merda” sei que não fere, que não considera língua pop) toda regularmente. Se for, como diz, o “embaraço” que me leva ao suicídio metafórico (e a si apenas ao “embaraço”, sem mais consequências), como e onde é que eu, quando estou a escrever, localizo esse meu “leitor ideal”? Você já viu o seu?, sabe quem é?, é magro? Ou essa coisa do “não é preciso ser Barthes” foi só uma maneira dificultosa de dizer que escrevemos apenas para nos vermos confirmados pelo semelhante?; o “embaraço” seria, portanto e nessa medida, um pudor exacerbado pelos excepcionalmente dotados para cuidar da sua própria imagem? ou seja, ele próprio, o “embaraço”, não seria então transformado numa vaidade extraordinária, indesculpável, mesmo (e veja que ando aqui como um maluco a evitar palavras como “espelho”, “narciso”, etc…. estaou a um milímetro do José Luis Peixoto, um milímetro!, o que eu faço por si!)?; Estou muito cansado (eu).

  5. Paula Telo Alves diz:

    Pronto, chegou mais um prosélito do hermetismo. Há posts mais bem frequentados que outros, de facto. E isto explica por que é que este fds nao conseguia dar com o link dos arquivos do maradona: ele apaga-os! Acho uma merda.

  6. António Figueira diz:

    Caro Maradona,
    Nunca duvidei que, por baixo da caralhada densa, se escondessem nos seus textos os embaraços delicados de um autor; primeiro, na composição da sua persona literária, o cruzamento do tolo da aldeia com o cientista de ponta, do reaccionário no-nonsense, que gosta da besta do Gonçalves, com o pensador inteligente, de dense argument; depois, na composição da sua persona tout court, da imagem que quem não conhece Maradona deve fazer de Maradona, o suburbano que pratica uma cozinha sumária e usa slips (supõe-se que comprados no hipermercado) e ao mesmo tempo tem o bom gosto de não se levar muito a sério e é capaz de parir texts that need careful attention and slow reading; enfim, no distintivo pormenor da insegurança autoral que é a versão moderna dos inéditos na lareira: enquanto uns gritam no future, Maradona, the performer, decide no past e apaga todos os dias o seu arquivo. Eu não partilho mas acho interessante, sinceramente. Eu também não sei quem é o José Luís Peixoto, mas aprecio o seu esforço por não usar palavras como espelho, narciso, etc.: isto é um exercício lúdico, não é um exercício clínico. O Barthes, entre outras coisas, lembrou-nos que era necessário esquecer de vez aquela ideia singela que tantas vezes nos surge quando lemos um texto, que esse texto implicou duas pessoas, um autor que o escreveu para nós e nós que o estamos ler a pensar nele: na verdade, há milhões de leitores, milhões de leituras, os textos são criaturas livres dos seus criadores, que podem dizer mais do que eles escreveram, ou quiseram escrever, ou julgaram que escreviam, e cada autor não escreveu obviamente a pensar em cada um dos seus leitores (eu, neste momento, não posso nem sequer inconscientemente abstrair-me do facto de que esta resposta bilateral vai ser lida por mais umas dezenas de pessoas), mas sim no famoso leitor ideal, que por definição é impossível de ser conhecido por terceiros. Se eu sei quem ele é? Sim, o meu eu sei, às vezes – as mais das vezes – mas obviamente não digo quem é (já pensou nas chatices que isso me ia trazer?)
    Muito obrigado pelo comentário, apareça sempre, é um prazer lê-lo, AF

  7. Nuno Cruz diz:

    Ah, a Chaussée d’Ixelles e as idas a pé ao Flagey beber cervejas, ao Matongé comprar roupa, ao UGC quando não há nada de jeito no Arenberg!

    Mas não existe lugar melhor para morar que a avenida que desce de Albert lado a lado com o Parc de Forest. é uma espécie de Foz ou Príncipe Real de Bruxelas, embora a vista para o Tejo seja substituída pela vista sobre o imenso subúrbio de Anderlecht.

    Está a nevar em Bruxelas.

  8. Pitucha diz:

    Nunca me tinha passado pela cabeça chamar Calçada de Chelas à Chaussée d’Ixelles! Olharei para ela de outro modo, nas minhas passagens diárias…

  9. bloom diz:

    eu fiquei-me pela Rue du Noyer, logo ali ao lado do Parque do 50aire. também foi simpático…

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