a inquisição não fez os mestiços

Este estudo, referido pelo Pedro Vieira, está a suscitar, na minha modesta opinião, conclusões demasiado precipitadas. Sucede que os haplotipos de um judeu sefardita são indistintos dos de um palestiniano ou dos de um libanês. Lembram-se dos fenícios? Aguardemos o confronto com este estudo que trará resultados igualmente interessantes. Parece-me mais razoável supor que estaremos perante a confirmação de uma bem mais ancestral mestiçagem entre descendentes de fenícios provenientes de toda a bacia mediterrânica e judeus e árabes provenientes do Norte de África.

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8 respostas a a inquisição não fez os mestiços

  1. António Figueira diz:

    A Inquisição em si não os fez – mas o sistema de que a Inquisição fazia parte, por horrível que nos pareça hoje, e que incluia as conversões forçadas – em boa parte fez (tanto em Portugal como no Império, aliás).

    Dito isto, e percebendo muito pouca coisa de antropologia física, também me parece que o estudo referido é mistificador (um judeu sefardita é uma categoria cultural, não um tipo físico, e não percebo como é que semitas das mesmas regiões mas com religiões diferentes podem ser traçados também diferentemente) e obscurece o traço essencial de que falas, i.e., as grandes miscigenações que se terão produzido no território que viria a ser Portugal durante a idade antiga.

  2. Fernando diz:

    Viva,

    Como já comentei no Arrastão não vou dizer muito mais, apenas que:

    1) Houve um estudo relativamente aos Fenícios e à sua presença genética, e Portugal (bem como toda a costa atlântica) não tem presença considerada minimamente significativa (“Following the Phoenicians: Genetic methodology complements historical record” já saiu, já o li, e foca sobretudo na bacia mediterrânica, sendo a presença no ocidente peninsular completamente residual)

    2) O “estudo” não diz nada de novo: o mapa de Y-DNA da Europa já existe (http://www.julepe.org/GenographicProject/Y_MAP_arrow.gif) e como se pode ver se usarmos as “conclusões” do estudo e do Público então a Alemanha é completamente Judaica e a Itália norte-africana (ver cores preta e azul clara).

    3) Estes haplogrupos têm várias origens, sendo em boa parte do Neolítico e ligados à revolução agrícola. A peninsula ibérica continua a ser o local da Europa com maior antoguidade genética, fruto da prevalência do haplogrupo R1b.

    Estes estudos – mas principalmente o uso que deles fazem – apenas se destinam a um fim puramente político. São completamente retiados do contexto e as “conclusões” feitas à pressa são apenas formas de justificar a táctica que defende que para um verdadeiro anti-racismo nada melhor que transformar os Portugueses em mulatos.

  3. António,

    de acordo contigo. Aquele título foi só uma opção de estilo.

    Fernando,

    obrigado pela sua achega. Confesso que não domino estas questões da genética, nem para mim têm grande importância. Chamei a atenção para os fenícios porque é uma civilização que me fascina e porque a sua colonização nalgumas zonas costeiras, daquele que é agora o território português, me tem causado algum interesse depois de ler alguns trabalhos de antropologia neste domínio da autoria do Prof. Moisés Espírito Santo (refiro-me designadamente ao estudo sobre uma alegada marcante influência fenícia – explicada por este antropólogo com argumentos interessantes ligados ao estudo das toponímias e das expressões populares locais – na religiosidade mariana das populações litorais do Oeste -Nazaré, Alcobaça, Leiria -, envolvendo a transposição da adoração de Deusas orientais como Astarté/Cibele/Selene/Ísis).

  4. Pedro diz:

    Não percebo o “pânico” do Francisco Santos perante a leitura perfeitamente possível de que a população portuguesa tem uma herança judaica. É que se fosse o fórum do PNR a reagir assim era uma coisa (metade das pessoas que comentam estes posts são de lá)…

  5. filinto diz:

    Um passeio por algumas regiões do país (de Leiria a Belmonte, passando pela Covilhã, Viana e Porto, pelo menos) seria o suficiente para não se ficar admirado com os resultados, no nosso caso. E estou admirado com a surpresa dos investigadores.

  6. (tal como o Fernando, também já comentei por ali)

    Caro Fernando,

    Como sabe, o Genographic Project é um estudo de migrações, em permanente actualização e, embora com objectivos louváveis, a sua abordagem à recolha de amostras pode tornar os resultados tendenciosos, principalmente no caso europeu. Eu próprio *paguei* o teste e, surpresa das surpresas, sou um reles descendente, pelo lado do pai, de um haplotipo atlântico (português, espanhol noroestino, bretão, irlandês não-céltico, inglês) sem sombra de arábias ou cabalas.

    Caro Francisco Santos,

    As questões não são de genética. Esta é uma forma, a par da arqueologia e antropologia, de estudar as migrações e fixações humanas. A leitura de mutações comuns a certos grupos humanos (marcadores) é aqui apenas uma ferramenta desse estudo.

    Caro António Figueira,

    Se calhar convém frisar que não se procuram, p.ex., “genes sefarditas” mas sim pequenas mutações (sem fenótipo) que são encontradas com maior frequência em populações consideradas, continuando com o exemplo, como de origem sefardita e com menor frequência em, sei lá, sauditas (o semita julga-se um descendente de Sem, n’est-ce pas?).

  7. DS2 diz:

    Os investigadores ficaram surpreendidos porque este estudo desafia todos os outros realizados até hoje.
    A presença Norte Africana (proveniente já dos Iberos) era apontada em diversos estudos como sendo o dobro da do haplogrupo J (sendo o J1 Semita, e o J2 típico do Mediterrâneo Oriental como Grécia 40%; Itália 25%; Sul de Itália 35%; Roménia 30%; Bulgária 30%, Húngria 20%). Neste estudo os números estão revertodos.

    Aliás, este estudo não faz muito sentido, de todo. Qualquer mentecapto é capaz de depreender que Portugal e Espanha têm muito mais influência do Norte de África que do Médio Oriente, ou até do Mediterrâneo Oriental.

    E quanto a mouros e Judeus, as estimativas de estudos sérios são os seguintes: Berberes Norte Africanos: 4% Judeus e Árabes e outros povos oriundos do Médio Oriente: 2%.

    E já agora, isso dos Fenícios (e Cartagineses) é muito bonito, muito bonito mas não tem qualquer sentido. A Norte da Península de Setúbal a sua presença genética é um zero estatístico e a Sul é extremamente reduzida, insignificante até. No entanto a sua influência atinge o máximo em Cádiz (10%) e cai para menos de 1% fora da “barriga de Gibraltar”. Volta depois a aumentar perto da actual Cartagena e nunca para o Ocidente. Quanto ás devoções Marianas serem na verdade devoções Semitas… não faz qualquer sentido. E quem afirma isso não conhece o povo Português, os povos islâmicos ou como os Castelhanos levam a sério a sua religião á maneira quase Semita.

    Uma boa tarde.

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