– Aimez-vous Brahms?

Eu assistia agora à minha vida como a um filme, de trás para a frente e de frente para trás, eu via e ouvia o filme da minha vida, pois, como é sabido, modernamente todos os filmes acordam a imagem com o som. Segunda de manhã, à saída da faculdade, um motorista psicopata, que ouvia música clássica na rádio do táxi e depois falava sem parar e sem deixar ouvir a música clássica que passava na rádio do táxi, não me deixava a mim ouvir as sonatas para piano e violoncelo de Brahms que passavam àquela precisa hora na rádio do táxi. E no entanto devia, pois para além de maçador e descortês (não deixava os passageiros em paz, gozando o prazer de uma viagem por entre o trânsito da cidade de janela aberta e com o vento na cara, entregues apenas aos seus pensamentos e eventualmente a Brahms), implicava também, embora não o soubesse nem pudesse saber, com uma muito mais vasta e problemática ordem de questões, que a mim me dizia particularmente respeito (mas porque não se calava ele?). Pois com efeito, na noite da sexta-feira anterior, e graças a uns bilhetes muy honorablemente birlados que a minha gentil amiga D. me tinha arranjado sem quaisquer contrapartidas, tinha eu ido com Ela (que não a D.) ouvir, num cenário elegante, as ditas e altamente significativas sonatas para piano e violoncelo, as mesmas que eu tinha comprado em segunda mão, na versão Baremboim e Du Pré, coitadinha, quando roçava o cu pelas esquinas de Paris, procurando desesperadamente um fundo musical para as leituras oitocentistas que andava a fazer, do tempo em que Paris ainda era a capital de qualquer coisa, e não tinha dinheiro para mais, e depois foi nessa noite, depois de Brahms mas ainda com Brahms (ainda emocionado com Brahms, quero eu dizer), que se deu a cena final, talvez insignificante para Ela, mas definitiva para mim, e eu fui finalmente forçado a admitir perante mim próprio que a mulher com quem eu antes tinha rido, dormido, viajado, a mulher que eu tinha em suma amado, pelos anos fora, estava agora irremediavelmente longe e não havia volta possível. – Aimez-vous Brahms? (o livro tinha uma nódoa de tinta na capa branca e verde e estava numa prateleira por baixo do telefone de casa dos meus pais, acho que só a minha irmã A. é que gostava dele, para mim da Sagan a única coisa que se salvava era a Jean Seberg no Bonjour tristesse, aliás, por mim, a Jean Seberg salvar-se-ia sempre em quaisquer circunstâncias). Resposta: gosto muitíssimo da música de câmara, trios, quartetos, quintetos, tudo, mas a orquestral parece-me ao mesmo tempo fúnebre e pomposa, não consigo suportá-la; e tal como nunca percebi a expressão “pintura pura”, que ouvi uma vez aplicada a Richter, creio, também nunca percebi o que vai nesse lugar-comum, segundo o qual Brahms é “música pura”. Pura porquê?, porque não tem texto nem história, nem sequer matemática, é apenas emoção e virtuosismo? É a única hipótese.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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