Um quadro (remix)

Tinha sete anos. Ir a casa dos meus avós paternos era uma aventura fantástica. Entrava nas salas que cheiravam a coiro dos livros, misturado com os odores da madeira queimada da lareira.  O objectivo das minhas explorações na casa deles, para além de tentar mexer nas armas antigas que estavam espalhadas pela casa, era normalmente o mesmo, escapulia-me pelas escadas que davam para o sótão, para percorrer a minha ideia de um mundo fantástico: umas escadas em que os quadros se amontoavam nas paredes. Cubistas, neo-realistas, impressionistas, modernistas de vários matizes faziam da subida das escadas um percurso único. No cimo de tudo, antes da enorme janela, do tamanho de uma parede, que nos permitia ver o Tejo a perder de vista, estavam dois quadros de Mário Eloy. O que encabeça este post era um deles e o outro em que a mesma mulher surge na mesma posição, mas vestida. Uma espécie de exercício de Goya, entre Maja vestida e Maja desnuda. O segredo da mulher misteriosa era sublinhado pelo facto de um, já não sei qual,  esconder a porta de um cofre, com um conteúdo que me excitava a curiosidade, quase tanto como as imagens.
O meu avô, que era ateu, não assinalava o Natal. Em vez disso, a família jantava junta no Ano Novo. Parecia que todo os momentos existiam para descobrir novas coisas. Os quadros e os livros pareciam-me uma janela mágica para os novos tempos que se aproximavam. Quando a minha mãe foi presa, por uns dias (um juiz proibiu-a de fumar numa audiência e ela, que não fumava, pediu um cigarro), lembro-me de ficar em casa dos meus avós, e aí li, pela primeira vez, Os Dez Dias que Abalaram o Mundo, os Capitães de Areia e São Jorge de Ilhéus.
Infelizmente, nenhum dos meus avós é vivo: talvez por isso, mais do que pela indescritível musiquinha, esta época me irrite tanto. Muitas vezes tento lembrar-me de como eram todos os meus avós, pensando que enquanto estiverem na minha memória existem num canto vivo da minha existência. Para o meu avô essa ideia devia ser completamente risível, dias antes de morrer ainda arranjou coragem para irritar as enfermeiras do hospital religoso onde o internaram. Olhou para o Cristo na parede e perguntou: “bonita cruz, quanto é que custa sem o atleta?”.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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6 respostas a Um quadro (remix)

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  3. z diz:

    obrigado pela viagem, sortudo

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  5. a.m. diz:

    Boa piada, acho, no final!
    Mas, lá em cima: Goya, sim. Mas Maya?
    (Lapso de simpatia?)
    Abc.

  6. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Toda a razão , o quadro da Maja desnuda e Maja vestida não levam o y.

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