Ah Jugular Jugular …..

(BACON, claro – não conheço outro pintor em que a gestualidade seja marcação de ritmos estruturais e compositivos; por outro lado, trata-se de uma gestualidade tão intensa e violenta que se imbrica e desaparece nela própria, produzindo superfícies lisas e quase nunca texturadas: onde está o gesto, a fisicalidade matérica do gesto em Bacon? Enigma. O gesto dissolve-se no próprio gesto. Alisa-se nele mesmo. A composição é gritantemente básica: reparem – três rectângulos ao alto, um rectângulo ao baixo; duas verticais (uma ligeiramente tombada) e uma horizontal interrompida; os pontos de encontro entre as verticais e a horizontal delimitam os campos de cor. No fim, quatro rectângulos dentro de outro (o quadro). A pequena seta branca tem inclinação oposta ao corpo. Quer dizer, seta, se a prolongar, e corpo formam ângulo de 90 graus. Raramente se fez tanto com tão poucos elementos.)

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22 respostas a Ah Jugular Jugular …..

  1. Carlos Vidal diz:

    BACON, ninguém te liga. Sintomático.

  2. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Bacon é fixe e o Sócrates que se lixe!

  3. j diz:

    «ninguém te liga»

    Quando estou a cagar também não gosto que me incomodem.
    Portanto, acho que compreendo bem o Bacon.

  4. Carlos Vidal diz:

    j, apenas isso? E o toque, o gesto, a temperatura?
    Porte-se à altura, j, o pintor já morreu!

  5. Luis Rainha diz:

    Olha que por acaso até discordo de ti no que toca ao desaparecimanto da gestualidade. A pintura de Bacon, vista de perto, tem pouco de “lisa”, revelando muita da acção do pincel, da mão.

  6. Carlos Vidal diz:

    Parece, mas repara por exemplo no tronco-costas, excluindo para já aquela curva (decidida, rápida) a branco no lugar da omoplata. O tronco desta figura é exemplar quanto à dissolução do gesto a da cor. Porque aquela tonalidade cinza é resultado de uma saturação subtractiva. É isto: a mistura aditiva, de luzes, à medida em que se somam tons evolui para o branco; na pintura a mistura é subtractiva, não recuperamos mais os tons iniciais, e essa mistura produz “não-tonalidades”, manchas cinzentas “sujas” a caminho do negro, terra sombra profundo, cor “suja” sem cor. O tronco da figura é exemplar dessa amassamento de cor e pincelada: dá uma superfície cinza “suja” sem marcas de gestos – o único é o traçado branco que parece sugerir a omoplata, como disse. Este destaca-se imenso porque vem de um fundo cinza enegrecido. É um pouco como em Velázquez: usar o pigmento com muito “medium” solvente-diluente, usar pouco a tinta em pasta. A superfície fica quase líquida, a pasta de cor não tem corporalidade. Velázquez é superlativo aí: as manchas são aquosas, as radiografias mostram-nos uma reduzidíssima altura de tinta. Ticiano era tb um exímio gestualista, mas a “pele” das suas telas (sobretudo as últimas) é uma “pele” com uma altura significativa. Bacon está mais próximo de Velázquez. E Picasso mais de Ticiano. No malaguenho, o gesto tem corpo, relevo. Ao toque da mão (é proibido, mas experimenta se puderes) a pintura de Bacon é suavemente plana.

  7. Almajecta diz:

    Provocação insuportável, esta de associar relacionar dois rectângulos verticais, simétricos e vermelhos-garganza a artérias do pescoço. Que irrealismo, que incultura, este blog já teve melhores dias.
    Não faz qualquer sentido falar em marcação de ritmos estruturais a propósito de gestos semiescos,expressões pulsionais sob controle afins de nivelamentos planimétricos, estou completamente de acordo se o rectangulo negro central vertical representar o desastre obscuro do stalinismo e os dois rectangulos laterais verticais o fracasso do socialismo real. Contudo a horizontal interrompida em baixo, cesurada, não invalida a emancipação que é o comunismo, apesar da cor de burro quando foge do rectangulo horizontal da base.
    O ambiente geral de angústia estranha anuncia algo de monstruoso numa atitude perversa e surreal levada ao extremo. Estou verdadeiramente indignado, pois o carlos, desculpe que lhe diga, apenas se preocupa com os aspectos mais sombrios da existência, ocultos ou manifestos.

  8. Carlos Vidal diz:

    É a faculdade da pintura poder ser exemplarmente existencialista. Angst, meu caro, tudo mui bem arrumado, compartimentado. As verticais dividem em três partes a parte superior do quadro. Cada vertical, está bem de ver, duplica a moldura de cada lado. O pintor existencialista adorava, necessitava de jaulas. Ou as indicava explicitamente ou compositivamente. O Todolí, nosso irmão de Serralves, fez uma Bacon temática onde as jaulas eram explícitas. Jaulas transparentes, o que reforça a angústia – vês o exterior mas não lhe podes aceder.

  9. Isto é que vai animado CV. … ( Já me ri!) Vou postar umas coisas mais logo depois aviso-te, vale … ( é de um jovem pintor que mi gusta muito …)…

  10. Carlos Vidal diz:

    De Puta Madre, tenho de conhecer dezenas de novos pintores por ano: colheita de Julho a Dezembro. Mas venham, mais, venham mais. Sempre. Grato.

  11. Almajecta diz:

    Isso do “angst” não é uma invenção da malta da floresta negra dos idos dos dezanove?
    Floresta em movimento, Massa e Poder, Nibelungos, e o Moderneirismo escatológico como última fronteira interna e desesperada das vanguardas.
    Pois sim, meu caro são os eskaletos a saltar a toda a força dos armários na post regressão da carne salgada em bacon.
    Picasso e Ticiano, Bacon e Velasquez, tambem não está mal visto, não senhor, nomes em bom, não fazes a festa por menos. Ou são arrubos lá dos estudos comparatistas das alamedas de futuro, talvez puro lixo de referência franceza. E já agora, dos estudos culturais, queerie e post coloniais, tambem não vai nada?
    Adenda:
    Não esquecer as seguintes pérolas atlantes: você escreveu uma vez, é muito grave, gravíssimo, lógica de argumentos inatacáveis, serenidade serenidade, é proibido proibir, não pode comparar, é inqualificável e este blog já teve melhores dias.

  12. Vírgula diz:

    Bacon, mais um dos fetiches dos profs de belas artes.
    Daqueles que as pessoas “normais” não alcançam.

  13. CV. Aqui vai http://f-se.blogspot.com/2008/12/f-se-quando-o-ttulo-indissocivel-do-que.html
    Ouuuuups, deu um trabalhão … pois, há quadros que perdi o link y fiquei sem título, como poderas constatar um verdadeiro acto de vandalismo da minha parte

  14. Carlos Vidal diz:

    Oh Vírgula, Bacon é uma coisa lá dos idos de 50 e já nem é ensinado, felizmente, nas Belas-Artes.
    Aquilo é mais antigo que a minha avó da avó. Até o professor, o saudoso Varela Aldemira o apreciava. Nas Belas-Artes, fetiches, só de Bruce Nauman (anos 60) para a frente.
    O Bacom é para auto-didactas, e se o meu amigo não o percebe, vá à FNAC e gaste proveitosamente dinheiro.

    Almajecta, o Nibelungenlied, ou Canção do Nibelungo é de 1200 e mais antigos são os Eddas e a história dos Valsungs, que o nosso ídolo Richard W. pegou e recriou am algo sem angst – o pessimismo não lhe deixou espaço para mais, acho eu. Também é um gesto de pessimismo que eu partilho: o 5dias já teve muito melhores dias, o 5dias poderia ter sido jugulado, mas já não vai ser. E aqui nasce o “homem novo”, fruto de uma engenharia de almas inacreditável e salutar, ou mais do que isso.

  15. Almajecta diz:

    Ó sombra!
    Acabou, e apenas tu, não o ocultes, tu próprio és o culpado, pobre Tantalo, Profanaste o templo do Pioneiro, quebraste a bela aliança, Miserável! Isso hoje foi um barrete concerteza. Essa vida crente, ó néscio mesquinho, no consumismo e na indústria viciosa da cultura, não haverá em vós um vingador do tempo?
    Tu as grandes linhas do futuro tentado descambar de novo para a pele a cebola o nitrato de prata o gesto e o tal olhar mui particular, mais para a beleza aderente. Não se trata assim os comentaristas. Pois é ou não verdade que naquela e na maior parte das faculdades deste país idolatram-se nomes relacionam-se e comparam-se com conceitos filosóficos e do cinema num afan de busca de significado, sentido e reflexão,massa crítica, mas que não passam de mero jogo da pela. Jargão do tipo “tem muita qualidade”, ” é interessante” e “funciona”, o que querem dizer hoje para os nossos jovens? E o que é o brincar e a realidade á la Winnicott? Que a nobre imagem me fuja da mente perturbada e que apenas o ruído do dia me afugente essa sombra fraterna, que sempre me acompanha os passos silenciosos.

  16. CV y Almajecta, Que tal vos parece um Workshop sobre a “arte do insulto”? Vá, pensem nisso.

  17. Almajecta diz:

    Avó da avó, saudoso? E o que foram a semiologia a semiótica e as intertextualidades ? E a hermeneutica da metalinguagem na constituição do Mc World? Um estabelecimento de um totalitarismo económico planetário e de uma total dominação do mercado que ameaça destruir todas as condições da vida democrática. É essa a dialética negativa do globalism & tribalism, que se traduz nomeadamente pela aliança do tecnicismo pseudo-universalista e do absolutismo cultural, que levam a que se reduza a democracia ao mínimo processual.

  18. Carlos Vidal diz:

    O tecnicismo aliado ao absolutismo cultural, segundo a malta adornativa, já triunfou há muito. O globalism post-colonialist vai triunfando por cá empurrado por um “neo-antropólogo” sem carteira profissional da nossa praça que, com J Sócrates, se propõe fazer por cá um museíssimo grande, grande dedicado ao senegal-faso, ou burkinafaso ou como é que é. Entretanto o nosso bom do Franz Fanon (uma das pessoas que mais admiro), e o nosso bom do Stuart Hall, um dá voltas no túmulo (o Fanon) o outro diz: meu Deus, o que é que eu fui fazer e os empregos que eu proporcionei a certas gentes que me destroem a obra tão cuidadosamente elaborada. vim eu da Jamaica para isto ! Resta o Bhabha, mas esse vai a Davos, e, por lá, tudo se resolve. É canja.

  19. Cá pra mim, a democracia é um sacrifício, uma concessão arreliada de cada um, para o caldo não azedar. Depois, há os mais ferrenhos ao eu, de ipseidade transtornada por essa coisa que é um bom pretexto para o alastramento da estupidez, a democracia.

  20. Carlos Vidal diz:

    É verdade, esta democracia é uma forma de domesticação daquilo que, no fundo, não é nem pode felizmente ser domesticável.

  21. Vírgula diz:

    Carlos, então devia fazer uma visitinha à FBAUL.
    Pelos vistos andam lá muitos “auto-didactas” a dar aulas.
    Bacon é muito fácil de perceber. Nem à fnac é preciso ir.
    A não ser que se queira “ver” para além de Bacon.
    Também há quem consiga ver numa pedra da calçada muita coisa mais.

  22. Carlos Vidal diz:

    Vírgula, o Leonardo ensinava isso mesmo (com as manchas nas paredes) – é um bom começo.
    De resto, na FBAUL, não há, felizmente, autodidactas a darem aulas.

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