1, 2, 3, lá vamos nós outra vez

Uma reportagem em que uns quantos professores se entretinham a cantarolar qualquer coisa como «um, dois, três, já cá estamos outra vez» encheu o prato a muito fabricante de opiniões, talvez por mostrar umas criaturas estranhamente alegres – muito pouco estalinistas e sisudas para marionetas do PCP.
Fernanda Câncio, por exemplo, deu voz a uma suposta maioria silenciosa: «sim, lá estão eles outra vez, pensa uma parte não negligenciável das gentes, saturada de protestos professorais». E parte para uma curiosa análise da coisa: «chama-se ao processo eleitoral processo de legitimação democrática por alguma razão. E a última vez que olhei para as eleições os professores não se tinham candidatado a governar». É o ponto de vista já aqui expresso pelo Filipe: o governo manda e os burros baixam as orelhas. E «é altura de pararem para contar quem têm do lado deles»: a oposição, com claro destaque para o PCP.
Há uns tempos, aquando da provocadora visita aos nossos mares do barco da Women on Waves, já a Fernanda não se mostrava tão preocupada com isso da legitimação. Depois, até se imaginava a dar razão a quem «tentar impedir um navio baleeiro de matar uma baleia ou caçadores de focas de as espancar até à morte», por mais governos democráticos que tais enormidades tivessem autorizado.

A distinção entre legítima desobediência civil e comportamento antidemocrático depende assim de um curioso fenómeno: quanto mais perto de uma causa estamos, mais ténue e difusa nos parece a linha fronteiriça.

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11 respostas a 1, 2, 3, lá vamos nós outra vez

  1. Ricardo Santos Pinto diz:

    A culpa é dos professores!

  2. Se os professores estivessem de boa fé propunham modificações ao método de avaliação para o tornar justo e praticável. Não fazem nada disso.

    Conscientemente ou não participam numa caça à cabeça da ministra, e por tabela do Sócrates, usando o sistema de ensino como refém.

    Eu, e creio que não estou só, não gosto de ver que afinal há portugueses de primeira e de segunda em termos democráticos.

    De primeira são aqueles que, usando abusivamente as suas profissões, se arrogam o direito de correr com os governantes eleitos.
    De segunda são as pessoas como eu que não têm hipóteses de ameaçar ninguém e têm, por exemplo, que pagar os impostos com que são pagos os professores mesmo não concordando com eles.

  3. Ricardo Santos Pinto diz:

    Suspendem as greves e tudo.
    Quer mais boa-fé do que esta?
    E logo a seguir, o pedras vem mostrar-se irredutível!

  4. manuela diz:

    A ministra construiu paulatina e irracionalmente o seu próprio isolamento. Nunca tinha assistido a um processo que se assemelhe.

  5. Sou forçado a concluir que o caso, com a srª F., já não é de cegueira política mas de pura e simples ignorância.

  6. Chico da Tasca diz:

    Faço minhas as palavras do Fernando Penim Redondo !

    O facto de a classe corporativa dos professores, apoiados pelos agitadores politicos do PCP e do BE, é um insulto a todos os portugueses que trabalham, que não têm voz nem privilégios.

    É também uma verdadeira subvsersão dos votos das pessoas !

  7. Su diz:

    Até simpatizo com a f. e acredito que ninguém é perfeito. Quem nunca caiu em contradições por defesa às suas damas que atire a primeira pedra. Mas este post está bem visto, sim senhor.
    Seguindo a lógica do Fernando, então as populações que andaram na rua exigindo que não se fechassem maternidades, também se arrogaram o direito de ajudar a despachar o ministro da saúde?
    Se os professores não se andassem a insurgir contra a avaliação, não tinha vindo a ministra apresentar alterações, dando a mão à palmatória sobre alguns dos vários pontos do sistema que eram altamente burocráticos ou injustos à partida. A mesma ministra que tem uma postura de uma arrogância atroz, mas que ontem já considerava a suspensão do diploma, mas só no final do ano.
    Sou um bocado ingénua, mas para mim governar em democracia inclui conversações entre as partes, ouvir de quem se sente prejudicado e agir em conformidade, balanceando, com bom senso e sentido de justiça, cedências e imposições.
    A ideia de que em democracia o povo tem de comer com qualquer coisa que venha do governo, porque votou logo aceita, é algo que há muito não ouvia. E que me assusta verdadeiramente.

  8. Carlos Vidal diz:

    A lógica de Penim Redondo é esta: se eu adoecer, não pretendo tratar-me, pretendo antes que os outros também estejam doentes; ou: se eu por ser mulher não voto, também acho que ninguém deve poder votar.
    Ele coloca a questão da solidez contratual do prof (maldito funcionário público) como algo que contrasta com a sua precariedade contratual, ou porque é liberal ou outra coisa. E se ele não coloca as coisas desse modo, já o vi fazer-se muito (desculpe, Penim Redondo, se não é o seu caso).
    Quer dizer, o prof. é um privilegiado, tem mordomias, e, como tal, deve deixar de tê-las (por isso se atacou no início socratista a ADSE, por exemplo). O trabalhador precário, manietado pela lógica socratista não luta pelos seus direitos, nem por quaisquer direitos. Luta para que aos outros sejam retirados direitos. Quer dizer, eu quero que sejam como eu, sem direitos, ou com poucos direitos – porque eu até pago os impostos deles. Assim, eu, doente (ou trabalhador precário) não quero ter saúde, eu quero que todos sejam doentes como eu.
    Por isso a conclusão: eu não posso ameaçar ninguém, mas pago impostos; os que podem ameaçar e reivindicar não o devem fazer porque eu também não o posso.
    Devíamos todos pois ser cidadãos de segunda, obedientes e sem ameaçar poderosos e governantes, sobretudo se eleitos – se eleitos, eles são a lei. E todos somos iguais perante a lei: para obedecer.

  9. Luís, conforme frisei nos respectivos comentários o meu texto “Da desobediência” não era para ser lido à luz da presente crise da educação (que eu lá evitei abordar). Era somente uma resposta ao Carlos Vidal, que dizia que o governo a querer cumprir o seu programa (contra a vontade de uma classe profissional) punha em causa “o que restava da nossa democracia”. Também frisei nos respectivos comentários que não ponho minimamente em causa o direito à greve e à manifestação. Disse simplesmente que quando as pessoas desobedecem têm que sofrer consequências, que é diferente de dizer que “o governo manda e os burros baixam as orelhas”.

  10. A lógica de Carlos Vidal:
    se eu vir um tipo a votar duas vezes não devo denunciar a chapelada mas sim tentar fazer o mesmo.

  11. Carlos Vidal diz:

    F. Penim Redondo,
    O que disse não tem nada a ver com o que eu disse.

    Mas vou pensar na sua lógica. Mas agora não, vou almoçar.

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