É agora ou nunca

Temos lido muito em jornais, TVs, blogues, e o próprio primeiro-ministro já disse, a seu modo, não estar para esperar mais trinta anos até que haja vontade ou condições políticas para “reformar”, como acha necessário, a educação. Ou para encetar essa “reforma”. De outro modo, houve quem dissesse o mesmo: se não for agora, se o governo ceder, jamais alguma “reforma” será possível na educação em Portugal.

Ora há que ver isto de outro modo: se os professores cederem agora quando têm a razão do seu lado (ver no meu post abaixo larga exposição dos pontos de vista em confronto), se cederem agora, então, nos próximos trinta ou mais anos, todo e qualquer governo pensará que, só porque vencedor de uma eleição, pode fazer tudo o que quiser num determinado sector da vida pública, contra tudo e contra todos. Isto dará origem a um despotismo iluminado por uma errada concepção de legitimidade. E a democracia será terraplanada (ou quase).

Aqui o problema já não é o do conflito entre Ministério da Educação e professores – o problema é o da qualidade da democracia em Portugal.

Adenda 1: o título do post poderia ser acrescentado: É AGORA OU NUNCA – VAMOS DEIXAR QUE ESTES INDIVÍDUOS TERRAPLANEM AINDA MAIS A POUCA DEMOCRACIA QUE RESTA ?

Adenda 2 (e última): espero que a greve da próxima quarta-feira tenha o maior impacto possível, pois a desobediência (sobretudo relacionada com a rejeição desta “avaliação”), a desobediência deve ser uma coisa sagrada em democracia. Aliás, acho que a define muito bem: não pode haver democracia sem desobediência.

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59 respostas a É agora ou nunca

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  2. Su diz:

    Esta começa a ser outra “causa facturante” e parece-me que há culpas de ambas as partes. O discurso que se alguém ceder nunca mais há retorno é tramado e falacioso.
    Vou lembrar outro caso na Educação, o das propinas. Até certa altura o valor que os alunos do ensino superior público pagavam era irrisório e teve o prof. Cavaco a brilhante ideia de estabelecer um sistema de pagamento por escalões, baseado nos rendimentos declarados dos agregados familiares. Estalou a luta estudantil , o slogan “não pagamos”, a coisa meteu polícia de choque, cargas de porrada e tremenda polémica. Parte da sociedade achava que os estudantes eram uns mamões que queriam um canudo à borla. Os estudantes rebatiam com direito constitucionalmente consagrado de educação gratuita e com a injustiça dos escalões. A coisa foi rolando em crescendo até que o governo mudou e a primeira medida de Guterres foi suspender o diploma. Voltou a calmaria, os estudantes desmobilizaram. Tempos depois foi instaurado outro sistema, que indexava o valor das propinas a um salário mínimo. Toda a gente comia por igual e o argumento da injustiça dos escalões foi eliminado. Também houve constestação, é certo, mas esse sistema vingou até porque, supostamente, o valor das propinas serviria para financiar a melhoria das condições nas universidades e não para despesas correntes, o que era algo positivo.
    Moral desta história: uma suspensão não implica que não se consiga prosseguir uma reforma. A suspensão da avaliação nos moldes actuais, neste ponto do campeonato, pacificaria a comunidade escolar, mais ainda se rolasse a cabeça da ministra. Vinha outra cabeça, com outra postura (isto é essencial), reviam-se os aspectos onde esta avaliação é de facto injusta, chamavam-se os sindicatos e punha-se uma cenoura à frente dos profs. Por exemplo, em vez de haver quotas para as notas das avaliações, haver x número de vagas na progressão e os melhores é que trepam. Às vezes basta mudar a forma como se põem as coisas.
    Até agora a classe estava muito bem, com progressões automáticas que só subvertem o sistema, ao nivelar todos por baixo, eliminando qualquer pretensão de excelência no ensino. É óbvio que para isso mudar não é com um sistema imposto, repleto de burocracias e falhas. Tem de se lhes retirar esse argumento, de modo a limitar a contestação áqueles que não querem avaliação de todo, o que o eu acredito que não seja a maioria.
    Basta que tenham qualquer coisa a ganhar e não só a perder.

  3. Ricardo Santos Pinto diz:

    Digo mais: se rolasse a cabeça da ministra, eu já ficava todo contente. O modelo de avaliação até podia ficar como está. E digo mesmo dos dois calhaus que a ladeiam.
    Isto já se tornou uma guerra. Uma guerra pessoal. Basta ver na televisão a imagem dos coisos para eu ficar com os nervos em franja. E não sou só eu.
    Excelente comentário, Su!

  4. Carlos Vidal diz:

    Se é que já não começou a rolar ontém com o seu silêncio absoluto.

  5. Ricardo Santos Pinto diz:

    Hoje, até já admite suspender o modelo… mas só no fim do ano.
    Ó minha senhora, não me chateie, não estou para aturá-la.

  6. Carlos Vidal diz:

    Tempos esquisitos, caro Ricardo Santos Pinto.
    É preciso tentar sobreviver.
    É assim a vida, como diria o outro engenheiro-engenheiro.

  7. Ricardo Santos Pinto diz:

    Qual, aquele que era mesmo engenheiro?
    (eu gosto é de ouvir aquela voz de tensão, de nervosismo, de quem-vai-bater-em-toda-a-gente da ex-casapiana)

  8. Carlos Vidal diz:

    Pois, o que fugiu e diz que não quer voltar.
    A voz, ah a voz da senhora. É de frequentar a Gulbenkian, alguns concertos e tal.

  9. Su diz:

    O tal que diz que ocupa uma posição de poder como não há equivalente no mundo? Nessa dia D só faltou comparar-se ao Obama…
    A Ministra lembra-me uma citação de Zun Tsu “começar com empáfia para depois temer o número de inimigos, demonstra uma total falta de inteligência”. Com um inimigo assim, meus caros, as probablidades pendem a vosso favor e parece-me uma questão de tempo. É outra arte, a da espera enquanto se aguça o dente.
    Quando saírem as notas do 1º período os pais vão-se juntar ao clamor de vozes a pedir a cabeça da ministra numa bandeja.
    It´s just a lucky guess…

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