O partido enquistado

Organismos unicelulares há que, mal vêem ameaçada a sua sobrevivência, tratam de enrijecer a membrana exterior e ficam assim a aguardar melhores momentos, protegidos das intempéries. Volvendo os dias felizes, lá regressam à vida normal.
O PCP representa um outro tipo de adaptação: a avariada. Hoje, os tempos correm de feição para quem se define como pólo de descontentamento; Norte dos ansiosos, desempregados e oprimidos. Enquanto a crise durar, PCP e BE têm o saco dos votos garantidamente cheios. E que se aguardaria do PCP nestes dias de luta esperançosa? Abertura a novas formas de pensar talvez fosse de mais. Mas por que não a uma nova forma de falar? Não teriam tudo a ganhar em, ao menos, fingir que aprenderam algo com as últimas décadas, deixar de fazer de conta que se vive em 1950?
Ao que parece, não. O discurso de hoje de Jerónimo de Sousa continua exclusivamente virado para os fiéis, evitando qualquer tentativa de sedução a apoiantes ou votantes que venham “de fora”. Já não sei bem se o bloco de Leste caiu por causa de uma ofensiva capitalista ou corroído pelas traições dos seus dirigentes dissolutos. Nem quero saber, francamente. Já nem me incomodam as referências ao regime aberrante da Coreia do Norte ou a menção à ditadura castrista como «exemplo revolucionário».
Ignoro se tal alguma vez iria voltar a acontecer, mesmo sem ter ouvido este discurso; mas estou agora certo de que nunca, nunca mais votarei no PCP.

No meio da pesada névoa do jargão de Jerónimo, Albano & companhia, juncado de «contradições insanáveis» e atravancado de ruídos como o «carácter parasitário e decadente do capitalismo», já ninguém consegue mesmo ver o mundo lá fora. Depois de, há uns anos, se terem encarniçado em perseguições aos camaradas menos “firmes”, convenceram-se de que o seu poderzinho cresceu até englobar todo o mundo. Mas foi ao contrário: o PCP encolhe e continuará a encolher até implodir numa espécie de buraco negro de que nada poderá fugir. Todos são inimigos ou malta a merecer pouca confiança: Manuel Alegre quer apenas «suster e combater as possibilidades de deslocação para o PCP». O BE resume-se a uma força «de verbo radical e esquerdista». Mesmo o povo só pode ser é esquizóide, uma vez que deu a maioria absoluta ao PS por causa de um «vasto descontentamento com os Governos do PS-CDS-PP». Claro; o quadradinho da CDU deve ter sido obnubilado pelos esbirros da reacção e ninguém conseguiu canalizar para lá esse vasto repúdio. Isto não é viver no passado. É abraçar uma visão solipsista e disfuncional do universo.
Mal a maré da crise recue, palpita-me que o PCP vai dar consigo naufragado e só, continuado a ecoar os mesmos chavões, mas já para ninguém.

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18 respostas a O partido enquistado

  1. não és o primeiro a vaticinar a morte do PCP (e não hás-de ser o último)
    e poi ele continua a crescer nas sondagens.

    não quererás pensar mais um bocadinho antes de escrever…

  2. Repare o anterior comentador na frase «Mal a maré da crise recue» que o Luis Rainha cuidadosamente deixou ficar no último parágrafo. Parabéns pelo excelente post.

  3. toulixado diz:

    Não seja trafulha Luis Rainha, onde você maldosamente escreveu: «vasto descontentamento com os Governos do PS-CDS-PP» deveria ter sido: «vasto descontentamento com os Governos do PSD-CDS-PP», não é meu caro? Agora percebo porque se piraram daqui para fora… você é habilidoso…

  4. Carlos Vidal diz:

    Luís Rainha, tenho aqui sobre o meu joelho esquerdo as 2600 pp da versão inglesa do Capital. E sei que isto é como um cristal, precioso, muito precioso. E tem de ser bem conservado, nem que uma determinada organização se tenha de enquistar ao máximo. Olha que o “carácter parasitário e decadente do capitalismo” não é uma fantasia assim tão grande.

  5. Luis Rainha diz:

    toulixado,

    Se calhar, é melhor chamar “trafulha” a quem afixou o discurso no site do PCP:fiz copy/paste do que lá está. Mas reconheço a possibilidade de uma cómica (e talvez freudiana) gralha. Só que nem ela explicaria o porquê de o tonto povo não ter canalizado o seu descontentamento para o voto justo…

    Carlos,
    Se já andasse “decadente”desde os tempos do velho Karl, onde é que já não estariam as suas ossadas…

  6. anónimo +ou- diz:

    Eu que já votei Bloco e PC senti-me ofendido com as referências que colocas e outras, porque sou jornalista irritou-me mesmo a dos jornalistas que se constipam (por isso e porque sei que os camaradas de Jerónimo fazem as coisas à sua maneira e até lhes dá jeito, internamente, que os jornalistas, e o Luís e outros, lhes batam). As referências ao Bloco surgiram na mesma linha do discurso das referências ao PP e imediatamente antes de, hipocritamente, defender a importância e a expressão de Os Verdes.

    E fiquei triste com a insistência na referência â China e à Coreia.

  7. Mofi diz:

    Não me parece que a sugestão de “fingir que aprenderam algo durante as últimas décadas”,seja do ponto de vista ético muito recomendável…
    Mas completamente de acordo com o “deixar de fazer de conta que se vive em 1950”.
    Para não falar em certas práticas,é a terminologia,é uma linguagem oficial já muito ultrapassada e cansativa que desgasta o PCP.
    Enquanto partido(para mim ainda indispensável à estruturação da sociedade portuguesa),o PCP continua a ter uma postura que pouco parece ter a ver com o materialismo dialéctico .Mais parece uma religião.

  8. MB diz:

    Poderá explicar-me por que razão Manuel Alegre fala, fala, fala, critica, critica, critica, mas nunca ousou romper com o PS?
    Poderá dizer-me que influências positivas têm tido as intervenções
    críticas de Manuel Alegre, no interior do PS?
    O PCP, senhor Luís Rainha, enquanto mantiver a sua estreita ligação aos desprotegidos da sociedade, não morrerá. A morte do PCP não depende de aspirantes a coveiros.

  9. Luis Rainha diz:

    Manuel Alegre, com quem eu nem simpatizo muito, sempre tem uma coisa a seu favor: quando chega o momento da verdade, vota contra propostas do PS de que discorda. Não se lhe pode chamar inconsequente. É um pouco como vós: porque continuam sujeitos à democracia burguesa, em vez de regressar à clandestinidade? Ah, pois é: consegue-se mais por dentro do que de fora, certo?

    Quanto aos “coveiros”, eles são sim aquela malta carreirista, medíocre e bacoca que vemos hoje ao lado do secretário geral, enquanto pessoas com o valor de um Vítor Dias se vão. Estão a morrer sim, mas roídos por dentro.

  10. MB diz:

    Pois é: os bons são sempre os que saem. Mesmo que a saída seja só do comité central, que é o caso de Vítor Dias. E mesmo Vítor Dias, dentro de dias, deixará de ser motivo de quaisquer comentários, porque se manterá íntegro como sempre foi ao longo da vida.
    É conhecido o discurso: ” se os comunistas fossem como…”. E o exemplo nem sempre é o mais edificante. Normalmente, são aqueles que, pretendendo afastar-se, iniciam o processo de afastamento com a direcção do Partido. Até ontem, Vítor Dias era um comunistão ortodoxo; hoje, já é um elemento de muito valor, um exemplo a levar em linha de conta. Passar pelo”jardim das cerejas” talvez seja um exercício que valha a pena.
    Eu simpatizo muito com o poeta Manuel Alegre. E também com o ficcionista. O político não me interessa, porque a política é palavras e também acção.
    Só “coveiros” é de facto minha e no comentário. O resto é de sua autoria, senhor Luís Rainha. Mas sempre lhe chamarei a atenção para alguns casos: Osvaldo Castro, Judas, Magalhães e Pina Moura. E a grande Zita Seabra. Todos encontraram a forma de prolongar a carreira política. E alguns a empresarial. Para bem de todos nós, como é demonstrado por todas as estatísticas.

  11. MB diz:

    Não percebo nada disto: então o meu comentário anterior não aparece porquê?

  12. Tiago Mota Saraiva diz:

    “Olhe que não Sr. Dr., olhe que não!”
    Luís, não prevejas aquilo que não podes ver. A história faz-se com anos e séculos e não de conjuntaras e conjecturas. As ideias novas constroem-se, não se anunciam. E haverá necessidade desta lógica cíclica que vem aí uma coisa nova para a esquerda? Actualmente, até o Alegre parece ser uma criança política! Agora, isso dele ser consequente…

  13. Emídio Fernando diz:

    Oh, Luís. São extraordinários os elogios que por aqui andam. Agora que o Vítor Dias sai do comité central é um herói. Mas já ouvi dizer dele as maiores barbaridades: de “sectárico a líder dos ortodoxos”, ele passou por tudo, durante todos estes anos.
    Sobre o Manuel Alegre, tens toda a razão. É pena que ele vote contra, mas garanta que o Governo não saia beliscado. Podes ler aqui: http://correiopreto.blogspot.com/2008/11/uma-no-cravo-outra-na-ferradura.html. Assim, é fácil ser coerente, de facto.

  14. Luis Rainha diz:

    Os bons é que saem? Olhe que com a Zita Seabra tem aí um excelso exemplo: a camarada que fustigava todos por falta de “empenho revolucionário”, etc…
    Não: também saiu muito lixo. Quanto a isso do ser “ortodoxo” ser um defeito, não vejo porquê. Maus são os carreiristas, os oportunistas, os que não se incomodaram em esfaquear camaradas pelas costas só para ficarem bem nas novas fotografias. Mas a esses corre a vida bem.

  15. Luis Rainha diz:

    Caro Emídio,
    Vê se te deixas de merdas e colocas aqui o que achas que vale a pena ler. Ainda vais parar ao nosso Gulag, essa é que é essa!

  16. MB diz:

    Acerca dos bons que saem está a mangar comigo ou leu precipitadamente?

  17. anónimo +ou- diz:

    Os que deram facadas nas costas e os que assistiram às facadas não fazendo nada…

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