Intrincadas malhas que o império tece

Há um monte de anos, escrevi algumas linhas apressadas sobre Pat Tillman: «era um jovem profissional do futebol americano. Há menos de dois anos, ofereceram-lhe um contrato de 3,6 milhões de dólares por duas épocas. Recusou. E alistou-se numa das unidades de elite mais duras dos EUA: os Army Rangers. Fê-lo, ao que parece, como resposta pessoal ao ataque do WTC. Depois de já ter combatido no Iraque, Tillman foi deslocado para o Afeganistão. Ali, acabou por morrer em combate. Com 27 anos. Para a maioria da imprensa americana, tinha nascido (passe a ironia involuntária) um herói. Alguém que reflectira na famosa pergunta de Kennedy e decidira descobrir o que poderia fazer pelo seu país. Eu nem sei bem o que pensar desta triste história. Se partir do princípio que Pat foi mesmo um jovem enganado por quem o convenceu a lutar em guerras estapafúrdias, lamento-o. Que uma vida tão promissora desapareça assim numa qualquer selva sem nome é sempre um desperdício atroz. Pior ainda se este sacrifício teve origem num idealismo deslocado, avidamente aproveitado pelos “fabricantes de heróis” americanos: os falcões que sempre se eximiram a dar o corpo ao manifesto e que por certo protegem bem os seus filhos de tais mortes gloriosas. A maior tristeza é que Pat Tillman está longe de ter sido o último. Malhas que o império tece.»
Agora, já percebi que esta prosa, à imagem de tudo o que escrevemos sobre vidas alheias, foi injusta, lacunar e precipitada. Tillman não foi nem herói nem idiota; antes algo de intermédio, como tantos de nós. E claro que não adianta pedir desculpa. Nem vale a pena invocar grandiloquentes palavras a propósito do mais bruto e irremediável dos desenlaces. Tão jovem! Que jovem era! (agora que idade tem?)

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8 respostas a Intrincadas malhas que o império tece

  1. Nuno Gouveia diz:

    Caro Luís Rainha,

    Apesar de discordar de quase tudo o que escreve, apenas gostaria de lhe apontar um facto, e que revela algo mais do que diz no seu texto.

    “os falcões que sempre se eximiram a dar o corpo ao manifesto e que por certo protegem bem os seus filhos de tais mortes gloriosas”

    Não deixa de ser verdade que os filhos de três dos quatro candidatos à Casa Branca em 2008 têm ou tiveram filhos no Iraque: Mccain já tinha tido os seus dois filhos no Iraque, e os filhos de Biden e Palin foram incorporados durante a campanha eleitoral. Não me parece que seja assim tão linear o que disse nessa frase, pois também alguns (obviamente não todos) líderes políticos americanos deixam que os seus filhos vão para a frente de combate. E correr o risco de vida.

    Abraço

  2. Luis Rainha diz:

    Nuno,
    O texto em questão já tem 4 anos e meio. Na altura, os falcões do Pentágono distinguiam-se precisamente pela sua notória ausência de campos de batalha.
    E duvido que McCain ou Biden possam ser chamados “falcões”.

  3. Filinto diz:

    O que mais me impressionou na história (e conheci-a já depois da morte de Tilman) foi a terrível sorte de ter morrido por “friendly fire” e toda a campanha de impasses e opacidade para evitar que isso fosse conhecido.

    E é óbvio que é diferente ter um contrato milionário e deixar tudo para ir lutar no que se acredita (seja o que for, nem que seja por um país), e ir para o campo de batalha apenas apenas porque é a derradeira opção de vida que resta.

  4. Carlos Fernandes diz:

    LR, este ultimo parágrafo deste comentário logo aqui por cima do Filinto explica tudo: há Valores, como a honra (pessoal ou nacional) ou a fé, que nenhum dinheiro deste mundo paga.

  5. Luís, há, também, a história dum médico argentino que trocou uma carreira promissora na medicina por uma vida de combate em «sierras», em selvas e tal.
    Chamava-se Guevara de la Serna, o idiota.

  6. Luis Rainha diz:

    “Carreira promissora” é bem diferente de um contrato de $3,6 milhões. E sabe-se agora que Tillman até nem acreditavaa na justiça da guerra no Iraque, onde serviu primeiro.

  7. pcarvalho diz:

    O meu choro compulsivo por todos aqueles que vão lutar pela ignominia,ignorancia,ganacia e,pelos banqueiros ,os nossos mais que tudo.Oh ohho.Vou deiz«xar de ver este ninho de idiotas que pensam q vivem na América.Se aquilo é tão bom,pq não vão todos para lá ,mais o gajo q jogou 17 toneladas de ouro na wall street.Mas,que merda de esquerda.Ela há aquela do Mario soares,sinceranmente

  8. Danny diz:

    Conheço bem o caso de Pat Tillman, pois estava ainda em terras do Tio Sam, aquando desta triste ocorrência. Sou de esquerda, sou completamente contra a Guerra do Iraque ( e contra todas elas, já que aqui escrevo), e abomino tudo o que sejam think tanks neoconservadores, sendo que Fukuyama e Wolfowitz entre outros, certamente figuram na minha galeria de abominações ideológicas.

    Mas também sou democrata e humano, e como democrata que sou, tenho que aceitar, tolerar e saber viver com ideais antagónicos aos meus, e como ser humano, a vida de um jovem que acreditou estar a fazer algo pela sua pátria(por muito que o conceito de nacionalismo me pareça desgastado…), é tão valiosa como qualquer vida humana, vide Hemminghway e outros que tais, nenhum homem é uma ilha…

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