O milagre do Sol

Há 91 anos, andava um milagre anunciado lá para as bandas da Cova da Iria. O povo (mas não só) acorreu e, seguindo a deixa da vidente de serviço, pôs-se todo a olhar para o Sol, em busca da prometida maravilha. Claro está que, com as retinas em sobressalto, logo começaram a ver o nosso astro aos pulos pelo céu afora. E pronto, cumpriu-se a profecia miraculosa (um meu bisavô, pronto a embarcar com o Corpo Expedicionário, saiu de lá com a queixa de nada ter visto, aliás como o fotógrafo Judah Ruah).
Agora, são os novos negacionistas que se agarram ao Sol como mensageiro dos seus milagres. João Miranda, entre muitos outros, evoca os ciclos das manchas solares e o seu provável efeito no clima terrestre como prova da inexistência de um aquecimento global causado pelas actividades humanas. Claro que existirão resmas de factores capazes de exercer uma tal influência. Se calhar, os gases digestivos das baleias também têm a sua responsabilidade no caso. Mas onde estará o modelo que sugere que podemos mandar para a atmosfera toda a porcaria que quisermos, sem que isso tenha consequências nafastas? Por um simples princípio de precaução, não deveríamos pelo menos ter cuidado com o que fazemos até encontrarmos certezas absolutas?

Há, ao que parece, quem pense que não. Fiquemos então com as manchas solares ou os trânsitos de Saturno em Aquário. Se estes explicarem sequer 1% do fenómeno, para quê procurar mais?

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

18 respostas a O milagre do Sol

  1. AGG diz:

    Caro amigo, e se as actividades humanas apenas contarem 1% para o aquecimento global????? é que já tivemos uma idade do gelo e não me parece historicamente possível as dinoindustrias terem alterado o clima.

    Ou seja quanto a aquecimento global parece-me que chegamos a acordo, meia dúzia de pessoas a cuspir para o ar teorias de um lado e mais meia dúzia de pessoas a cuspir pro ar teorias contrarias, e o mexilhão a trabalhar para pagar impostos.

    Já agora não vi no post de João Miranda dito que o Homem nada tem a ver com o aquecimento global, mas sim que estava curioso quanto à teoria das manchas solares.

    No fundo, no fundo o que eu gostava de saber é se o sr. Luis Rainha tem provas para o que afirma ou apenas está a cuspir para o ar?

    Saudações deste leitor assíduo

  2. Carlos Vidal diz:

    A mim sempre me pareceu que foi o biotecnólogo que apareceu naquele céu de chuva e sol. Eu esqueço-me sempre do biotecnólogo. Tem escrito muito ultimamente, é ?

  3. Luis Rainha diz:

    AGG,

    Se quer resumir o trabalho de todos os climatólogos deste mundo a “cuspir para o ar”, esteja à vontade. Mas abrigue-se das cuspidelas.
    Quanto às provas que me pede, fico assaz curioso: provas de quê? O que é que eu “afirmo”? Que deveríamos manifestar alguma prudência? E isso precisa de “provas”?

  4. Alfredo P. diz:

    O fotógrafo era Joshua Ruah.

  5. CMF diz:

    Epítetos como “negacionista” não combinam muito bem com Ciência. Mas é esse o problema, não é? Não é de Ciência que se fala aqui. É mesmo de religião. Eco-religião.

  6. AGG diz:

    Perdoe-me a insistência mas “são os novos negacionistas que se agarram ao Sol como mensageiro dos seus milagres” implica que tem provas que tal não é verdade.

    Onde eu queria chegar é que isso pode explicar mais do que o resto como pode explicar menos, o que eu não percebo é o porque do ataque, tinha acabado de ler no blasfemias o artigo (que me despertou curiosidade para o tema) e depois abri o 5 dias e vi logo uma resposta exacerbada e não me pareceu que João Miranda tenha dito o que você afirma. Ou seja “prove” que a sua afirmação é mais do que uma guerrinha esquerda – direita, é que perigoso é colocar as questões de aquecimento global e ambientais nos campos políticos, porque o seu clube será, para si, sempre melhor que o do adversário e esse tipo de problemas são para atacar com algum consenso e frieza.

    Saudações

  7. Carlos Vidal diz:

    Apenas uma nota simples. O fotógrafo era o Jushua Benoliel, creio não estar enganado. Foi ele o fundador da foto-reportagem portuguesa. Um workaholic.

  8. Luis Rainha diz:

    Não; creio que não. De acordo com a célebre reportagem coeva de “O Século”, escrita por Avelino Almeida, foi mesmo o Judah, sobrinho do Joshua, o fotógrafo de serviço ao milagre.

  9. teofilo m. diz:

    Não acredito que o Sol ande aos saltinhos, do mesmo modo que não acredito que a espécie humana não influencie negativamente o ambiente com tudo aquilo que atira para a biosfera.

    Acredito que quando se age sobre a natureza esta reage e de modo aleatório.

    Alegar que já tivemos uma idade do gelo e que não foram as indústrias actuais que as provocaram é uma evidência que para nada serve, algo a provocou, nós não sabemos bem o quê, daí pode inferir-se o quê?

  10. Luis Rainha diz:

    «Treze fotografias da autoria de Judah Ruah, antigo director dos Serviços Técnicos da Câmara de Lisboa, é tudo o que existe, em termos de imagem, sobre ‘o bailado do sol’, ocorrido a 13 de Outubro de 1917, na Cova da Iria.» Aqui.

    Escreveu Avelino de Almeida: «Por um facil equivoco, o trem que nos devia conduzir, a Judah Ruah e a mim, até à vila, não apareceu»…

  11. Luis Rainha diz:

    Quanto a isso da eco-religião, estão algo equivocados: é o Miranda e outros que negam (hoje e desde há muito), sem serem especialistas, o que é um consenso alargado entre os climatólogos.
    Que cientistas especializados o façam, parece-me normal; agora que leigos jurem conhecimentos inexistentes, em obediência pura a uma cartilha ideológica e política… isso é que é negacionismo e religião.

    Eu apenas pergunto aqui que modelo conhecido é que descreve o clima terrestre como inalterável pelas infindas toneladas de lixo que atiramos para a atmosfera diariamente. Só isso.

  12. Alfredo P. diz:

    Inicialmente até estava convencido de que fora o Benoliel.
    Aliás, ignorava a existência desse Judah.
    Mas, pronto, obrigado – e já cá não está quem falou.

  13. T&G diz:

    E ainda que não interferisse, será legitimo estragarmos o planeta?Sujá-lo? O que é que queremos deixar às futuras gerações? A desertificação? A poluição? Os recursos energéticos esgotados?

  14. T&G diz:

    E ainda que a actividade humana não interferisse, será legítimo continuarmos a estragar o planeta? Que queremos nós deixar às futuras gerações? A desertificação? A poluição? Os recursos energéticos esgotados? A água dos oceanos, mares e rios contaminados? è isso que queremos deixar para os nossos filhos e netos?

  15. z diz:

    isso de ficar a olhar para o Sol até flashar pelas orelhas que já não sei o que são homens e o que são árvores (pequenas, vá), ainda faço todos os dias excepto quando está chuva, como hoje,

    sou gamado em milagres

  16. O João Miranda já escreveu todos os disparates possíveis e imaginários sobre o aquecimento global (aquela sobre as “mentiras” do Al Gore foi memorável), é o mesmo tipo que diz que a “física é uma teoria”, que queria abrir o debate sobre criacionismo (e andou a defendê-lo de mansinho), enfim, é tanto disparate… Fez-lhe falta foi uns professores que o chumbassem na escola secundária.

  17. Bento diz:

    Caro amigo,
    não faço a minima ideia quem seja mas há no seu texto uma coisa que me incomodou e não é, sequer, por ser beato ou um cristão ferveroso, tem a ver com o senso comum e o respeito que devemos a crentes e não crentes.
    O que me incomodou (embora, naturalmente, não de uma forma exacerbada) foi o recurso a um exemplo tão “canciano”, é que tal como ela faz em grande parte dos seus textos, o Luis Rainha que, repito, não sei quem é nem o que faz (é a segunda vez que paro neste blog), podia falar sobre este assunto, defender a sua mais que verdadeira e certa teoria sobre o mal que podemos fazer ao ambiente, sem ter de meter a religião ao barulho, porque ao fazê-lo está a mexer com algo que para muitas pessoas é importante. Cada pessoa acredita no que quer e diz o que quer mas por vezes interrogo-me (como é o caso) se para explicarmos uma coisa precisamos de ir buscar comparações a áreas completamente diferentes e que “mexem” com muitas pessoas.
    O texto ficou mais rico com as referências ao alegado “milagre do sol”? Os leitores ficaram a saber mais sobre o pensamento do autor, que aquilo que é evidente?: que não acredita nas aparições de Fátima ou, pelo menos, no dito milagre?
    Como disse não sou nada radical nestas coisas mas sinceramente não percebo a necessidade de se ir por um caminho quando se está a falar de outro, a não ser que sintamos uma grande necessidade de dizer ao mundo: eu não sou assim, eu não acredito naquilo, é tudo uma xaropada. Nesse caso, é compreensivel que politica, economia, sexo, ou o sol, a chuva, e as núvens, tudo sirva para se desenterrar a velha e gasta crítica à religião.
    Enfim, gostos, que se devem respeitar…e que se podem criticar!

    Bento

  18. Luis Rainha diz:

    Bento,
    Antes do mais, Fátima não é religião, mas sim superstição pura e dura. Depois, a ideia de ligar o aquecimento global exclusivamente ao ciclo das manchas solares parece-me coisa a exigir grande fé, tal como acreditar que o Sol andou aos pulos em Fátima. Daí a ligação, que, claro está, é discutível, subjectiva e fornecida sem garantias.

Os comentários estão fechados.