Sem desculpas, mas de mão estendida

De repente, Angola começa a assistir a uma “ponte aérea” em sentido contrário. 33 anos depois da debandada de portugueses, eis que a embaixada de Angola tem, só este mês, uma lista de pedidos de visto que já ultrapassa os 60 mil. Repito: 60 mil. Grande parte – talvez a esmagadora maioria – pertence ao mundo de negócios.
Luanda fervilha com tantos portugueses, ávidos de arranjar um dinheirinho e em fuga de Portugal. A maioria dedica-se a humilhar-se perante o poder angolano (o financeiro e o político). Sujeita-se a tudo, parte de Lisboa quase com a camisa no corpo e uma promessa vã de conseguir “qualquer coisa”.
Entre aventureiros e empresários com algum renome e curriculo que se veja, Angola vai ajudando os portugueses e sobretudo dá um forte apoio à economia portuguesa. Sustenta-a, de facto. E entre aventureiros e empresários, andam por lá muitos que ajudaram a perpetuar a guerra civil. E, sem qualquer vergonha, lá estendem à mão ao “demónio” de alguns anos, aos “ditadores” de já pouco tempo, aos “canibais” e a gente que sempe foi brindada com adjectivos “delicodoces”. Deveriam pedir desculpas públicas, mas não o fazem. Os joões, as marias, os josés, os ruis, os mários, os antónios, as antónias, os jaimes, os miguéis, os fernandos e tantos, tantos outros, que andaram a incendiar opiniões contra Luanda, que apoiaram um assassino à solta, que suportaram a loucura de meia dúzia de homens, não passam hoje sem Angola. A tal dominada por Luanda.
Vão comer precisamente à mesma mão em que andaram tantos anos a cuspir. Não pedem desculpa, mas a mão estendida e o corpo vergado é o supremo gesto que Angola precisava de ver. E assiste-o quase todos os dias. É, no fundo, a glória dos vencedores.

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