De Cartão de Sócio no Conselho da ESA

Teve hoje início o Conselho de Ministros da Agência Espacial Europeia que deverá decidir qual será o orçamento para os próximos anos. Temo muito que a actual crise financeira contribua para que o orçamento da ESA continue a encolher, até porque esta seria uma má resposta à crise. A Europa é hoje líder em vários sectores da tecnologia espacial, temos a melhor rede de observatórios terrestres e espaciais, do rádio aos raios gama, temos o melhor veículo de lançamento de satélites, o foguetão Ariane, e em breve o melhor sistema de posicionamento global será europeu, o sistema Galileu. Apesar do PIB dos EUA não diferir muito do PIB da Europa, actualmente a NASA tem um orçamento cinco vezes superior ao da ESA. A Europa arrisca-se assim a perder liderança nas áreas mencionadas e isso não deixará de ter impacto na nossa economia. Apostar na expansão da ESA garantiria essa liderança e abriria a porta a áreas como as missões tripuladas, sector em que temos andado sistematicamente à boleia de russos e de americanos, numa altura em que até a China já tem as suas próprias missões. Apostar mais no espaço é também uma forma eficaz de combater a crise, dado que este é um domínio que gera sub-produtos de alta tecnologia que estimulam a indústria dos países que os inventam e cujos lucros frequentemente ultrapassam em muito os custos de investigação e desenvolvimento, gerando riqueza e emprego.

Levamos o Cartão de Sócio
O nosso Ministro leva o cartão de sócio da ESA para o Conselho e é só por isso que o deixam participar. Portugal paga uma quota anual de cerca de 10 milhões de euros para pertencer à ESA e a única maneira de reaver esta soma é participando em projectos e missões da Agência. Escusado será dizer que o retorno das verbas da ESA para o nosso país é um dos mais baixos entre os países membros. Até 2005 existia um Programa Dinamizador das Ciências e Tecnologias para o Espaço que servia para garantir o co-financiamento de instituições nacionais caso um dos seus projectos fosse aprovado pela ESA. Sublinho que este é um tipo de garantia importantíssima para participar em consórcios europeus que propõem missões à ESA. A partir de 2006, ao contrário da esmagadora maioria dos países da ESA, os investigadores portugueses só poderão contar com os seus orçamentos correntes, não existindo qualquer esforço nacional a nível institucional para combatermos o nosso défice no retorno da verba que pagamos à ESA. Passamos por vergonhas grandes em reuniões de consórcios da ESA onde apenas podemos garantir uma contribuição em função dos trocos que ainda nos restam em caixa…

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8 respostas a De Cartão de Sócio no Conselho da ESA

  1. pedro diz:

    O’ meu amigo, entao Portugal leva 6 do Brasil e voce^ vem para aqui queixar-se que nao investimos em foguetoes e satelites? Pec,o-lhe que tenha um pouco de do’ dos verdadeiros patriotas, dos que gastaram os 10 mihoes de euros em bandeiras e outros VERDADEIROS simbolos de grandeza nacional…

  2. Luís Lavoura diz:

    Se a Europa já hoje lidera em muitos setores da tecnologia espacial (como o autor do post nos diz) gastando cinco vezes menos do que a NASA, então isso quer dizer que não se trata de uma questão de dinheiro, mas sim de boa utilização dele.

    Pelo que, não se justifica dar mais dinheiro à ESA.

    Além disso, aquilo que se vê a NASA fazer com a data de dinheiro que torra não é muito edificante (vaivens que explodem, etc), pelo que, talvez seja melhor não a imitar.

    Para mim, esta coisa da exploração espacial tem o mesmo estatuto que os gastos militares: é produção subsidiada de lixo.

  3. Luís Lavoura, já agora pergunto-lhe o que pensa do Grande Colisionador de Hadrões (vulgo LHC) no CERN? A sua opinião é a mesma que relativamente à exploração espacial? Se é diferente, porquê?

  4. Rui Curado Silva diz:

    Caro Luís Lavoura,

    1- A Europa não gasta (ou gasta menos) nalguns dos sectores mais caro, os voos tripulados por exemplo, e além disso paga salários bem mais baixos que a NASA, é isso que explica a sobrevivência com menos meios;

    2- Tente viver sem a “produção subsidiada de lixo” que resulta da tecnologia espacial, por exemplo vá ao supermercado e não utilize o código de barras, peça ao seu supermercado para lhe etiquetarem o que lá for comprar. Não use máquinas fotográficas ou câmaras de vídeo digitais. Se quiser uma lista de exemplos de lixo (algum do qual já não consegue passar sem ele) que resultam da tecnologia espacial, visite esta página:

    http://www.nasa.gov/externalflash/nasacity/index.htm

  5. Há aqui um dado mais ou menos omitido:

    o governo dos estados unidos gasta cerca de 75 mil milhões por ano em programas espaciais dos quais 1/5 são da NASA (15 mil milhões) e os outros 60 mil milhões através do departamento da defesa e outros.

    A tecnologia desenvolvida para os militares verte para a NASA.

    Estou números são citados de cor, mas a realidade não anda muito longe.

    Exemplo de eficiência de gastos não é a Europa, é o Japão, apesar do seu sistema confuso de duas agências espaciais …

    Hei de escrever sobre isto mais tarde, já que a ESA sempre foi o meu único ganha pão.

    Mas aproveito para dizer que o que corre por aí é que Portugal tem falta de lobbie nacional organizado para ficar com bons projectos, que não paga as cotas atempadamente e negoceia sempre em posição de fragilidade.

  6. Dados mais concretos:

    O orçamento exclusivamente para espaço do Departamento de Defesa dos EUA em 2006 foi de 22 000 Milhões
    O orçamento da NASA foi de 15 000 Milhões

    depois há a NSA, NSS, NGA , NRO … mas dessas ainda é mais complicado obter informação

    Note-se ainda que a NASA, ao contrário da ESA, trabalha também em projectos militares.

  7. Para mim, esta coisa da exploração espacial tem o mesmo estatuto que os gastos militares: é produção subsidiada de lixo.

    Lembre-se disso da próxima vez que tirar uma foto com um telemóvel ( tecnologia sensores CMOS) ou que precisar de fazer um TAC. Spinoffs de programas de exploração.

    Não sei se pelos spin-offs vale a pena. Por acaso também não sou o maior fã da exploração espacial (ao contrário de George Bush, vide Vision for Space programme , 2004)

  8. EMS diz:

    Pois, parece que a internet começou por ser um gasto militar inutil.

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