Ainda Mahler e Gergiev (ou então estou completamente surdo e embrutecido)

Habituei-me a admirar este russo que, no mesmo dia, dirige concertos em Roterdão, Londres, Paris e Nova Iorque. Habituei-me a admirar este amigo de Putin (e eu também gostava de ser) que redescobriu toda a ópera russa, tornando-a uma das mais fascinates narrativas dos últimos anos: Glinka, Borodine, Moussorgsky, Rimsky-Korsakov, Tchaikovsky (a sua “Dama de Espadas”, por exemplo, com o Kirov é superável?), Shostakovich (apesar de ninguém poder competir com Mravinsky), Prokofiev (bela integral sinfónica com a OSL), entre muitos (só mais um: Scriabine).
Agora chegou a vez de Mahler, agora que tomou a direcção da Orquestra Sinfónica de Londres, e de Mahler parece ter feito o seu primeiro grande projecto, como eu disse. Oiço e volto a ouvir esta 6ª e continuo a (quase sempre) não gostar. Mas, porque insisto em Gergiev? Ora, por causa deste “Pássaro de Fogo”. Não chega ?

Porque será que esta genial personagem não faz Mahler (que quer fazer, diga-se) como faz Stravinsky ?
Acho que não percebo nada disto (ou na próxima tento Vivaldi – se for capaz).

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3 respostas a Ainda Mahler e Gergiev (ou então estou completamente surdo e embrutecido)

  1. antonio diz:

    Isto é realmente notável (understatement do mês) vou começar a procurar por este Valery Gergiev.

    Não sei responder à pergunta final (mas gostava!) , a minha cultura musical é demasiado influenciada pelos gostos dos meus amigos músicos, visto que aqui não há uma base forte. 🙁

    Atrevo-me a adiantar o óbvio: qualquer grande chefe de orquestra é mais ou menos competente a dirigir (quero dizer, a empolgar qualquer orquestra mínimamente competente…) toda e qualquer obra da “cultura clássica”, são supostos terem estudado isso…

    Agora serem geniais, provocarem em ti “um sismo de todos os sentidos” (citando aquele gordalhufo que agora é o MEC a propósito de outra coisa) para isso é preciso ter nascido no “caldinho de cultura” ou amar irremediávelmente a coisa.

    A fazer Mahler até Kubelik (um maestro de 2ª escolha para mim) é competente), e Karajan (um génio insuportável, again my 2 cents) é apenas bom.

    Depois há o ‘gosto’ paticular de cada um, exemplos off-topic:

    . Porque é que o Tristão do Jon Vickers é para mim talvez o melhor ever, havendo tantos ?? Será que o facto de ele odiar o personagem (‘La Lumière Noire’ no Avant-Scène de l’Opéra, lido há muitos anos) o torna na pessoa mais indicada para lhe dar corpo ? Vá-se lá saber…

    . Eu por mim rojo-me aos pés da Gwyneth Jones, qualquer papel, qualquer interpretação, sou um incondicional, conheci-a e tudo, amo essa mulher. Mas aqui entre nós que ninguém nos ouve, nas Vier Letzte Lieder/4 últimas canções do R. Strauss — uma obra fundamental, e ‘fácil de gostar’ para o grande público, já agora… — prefiro de caras a Gundula Janowitz e mesmo a Cheryll Studer.

    Se calhar, este teu Gergiev ainda não se enxerga: sabe como faz Stravinsky para nos pôr a cabeça à roda, mas ainda anda à procura de como se faz Mahler da mesma maneira…. e tem um contrato para cumprir com a LSO.

    Mas isto são só especulações pouco informadas de um amador, esquece-as, e arranja mas é músicos profissionais indígenas — cujo nível de cultura musical é muitíssimo bom, em geral — para darem melhores opiniões.

    Obrigadíssimo pelo Gergiev, devo ter andado distraído…

  2. antonio diz:

    Ah, e por favor esquece o Antonio Vivaldi, assim por mais uns 200 anos se te fôr possível, ele há por aí coisas tão mais boas… 🙂

  3. Carlos Vidal diz:

    Completamente de acordo quanto ao facto de um grande chefe de orquestra ter de ser mais ou menos competente em tudo o que é essencial, de Korsakov a Richard Strauss, que, se não me engano, se definia como o maior dos compositores de segunda linha (o homem era espirituoso, extraordinário, até compôs o hino para os jogos de 36, bem haja, bela música).
    Gergiev, o omnipresente, não quer fazer Mahler menos esfusiantemente que Stravinsky ou Borodine (e não esquecer este “segundo” autor). Os “Quadros de uma Exposição” de Gergiev tb são magnificantes, com Viena, se não estou em erro. Depois, à “Sagração” temos de juntar Scriabine, o “Poema do Êxtase”, um milagre com o Kirov. Contudo, o Mahler (problema meu?) não me convenceu.
    Quanto às “4 Últimas Canções”, de novo Strauss, é de escolher, pelo menos é a minha escolha mais ou menos inconsistente, de facto a Studer com Sinopolli (na Deutsche) e Staatskapelle Dresden, até porque esta edição tem as Wesendonck Lieder, do Richard W.
    Só não estou de acordo caro antonio é com a observação sobre o Vivaldi. O Vivaldi nas mãos de Alessandrini e Spinosi renasceu, e de que maneira !! As Estações do Alessandrini são uma obra terrível, medonha, uma obra inédita. Rinaldo Alessandrini, um grande bem haja.

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