A revolta contra o real

Em meados do século XIX, falava-se na Noruega dinamarquês. Entre 1848 e 1850, um camponês autodidacta de nome Ivar Aasen fabricou uma nova língua, que se pretendia autenticamente norueguesa, a partir dos dialectos rurais falados no Oeste do país. A reivindicação nacionalista crescente (a Noruega estava nessa altura ligada à Suécia, da qual viria a tornar-se independente em 1905) favoreceu a promoção desta nova língua – a landsmaal, ou língua da terra, por oposição ao dinamarquês, ou riksmaal, que era a língua do Estado – que em 1910 ganhou estatuto oficial. Com pouco mais de dois milhões de habitantes à época, a Noruega tornou-se assim oficialmente um país bilingue, muito embora o landsmaal nunca tivesse ultrapassado os limites da região ocidental em que teve origem, e o facto de os habitantes de Oslo e do resto do país terem aceitado sem protestar a imposição de uma língua periférica, rural e fabricada só prova o seu elevado grau de tolerância ao disparate. Ibsen, o autor que melhor simbolizou o renascimento intelectual norueguês e o único com um público verdadeiramente mundial, nunca deixou de escrever em puro dinamarquês, claro.

A outra escala, a burguesia finlandesa do século XVIII, que se exprimia integralmente em sueco, decidiu por essa altura passar a falar finlandês – a língua que os seus criados falavam, de preferência na sua versão da Carélia, que se supunha a mais pura – e em menos de meio século a transição ficou feita. Eu acho que a língua é uma coisa ainda mais íntima que o sexo, é por excelência o instrumento em que se exprimem emoções, aflições, humores, valores, compreensões, incompreensões – tudo aquilo que dá espessura a uma pessoa, e a torna distinta das outras; mudar a língua parece-me uma violência sem nome – e no entanto essa gente fê-lo, para afirmar uma identidade colectiva, e hoje a Finlândia quase toda fala finlandês.

O cornish, ou seja, a língua céltica que se falava na Cornualha, parente do galês, extinguiu-se no princípio do século XIX, mas um grupo de bravos resolveu ressuscitá-la no fim do século XX. Não seriam mais de duzentos, talvez umas cinquenta famílias, que decidiram voltar a usar em todas as circunstâncias a língua dos seus putativos antepassados (como designarão eles PC’s ou software? E que pronúncia utilizarão eles? Falarão cornish também na cama?); agora querem ser reconhecidos como uma minoria nacional, mas as autoridades britânicas – até as liberais autoridades britânicas, que reconhecem esse estatuto a, digamos, um bando de refugiados somalis, em pé de igualdade com galeses ou escoceses – acharam que era um bocado demais e disseram-lhes que não (eles queixam-se de discriminação por parte das autoridades coloniais).

Existem explicações sofisticadas e credíveis para estes fenómenos, com que não vos vou maçar aqui; pela minha parte, acredito que também fazem parte de uma espécie de revolta contra o real, que confunde o Second Life com a vida propriamente dita. Fazem-me lembrar aquela guerrilha japonesa que operou no Estado de São Paulo depois da guerra, que se recusava a crer que o Imperador tivesse perdido a guerra e abatia raivosamente os nipo-brasileiros que ousassem acreditar nas provas em contrário. Mais modestamente, faz-me lembrar a minha primeira ida a Évora, tinha para aí cinco ou seis anos: antes de irmos, tinham-me dito que Évora tinha muralhas, que eu imaginei perfeitas e coloridas, conforme constavam da “Histoire des Hommes” dos meus irmãos mais velhos; quando eu lá cheguei e as vi como elas são, cinzentas e irregulares, quase que chorei – e demorei até perceber que era assim que elas deviam ser amadas, na sua magnífica imperfeição.

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SEXTA | António Figueira
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13 respostas a A revolta contra o real

  1. Luis Rainha diz:

    Porreiro, pá!

  2. Andre diz:

    E o Batua? A lingua “oficial” basca? Uma lingua criada nos anos 70 para tentar criar uma uniformizaçao artificial do país basco que possuia inumeros dialectos diferentes que em muitos casos pouco tem a ver com a nova língua.

  3. Nuno Ramos de Almeida diz:

    O Euskara Batua é uma tentativa da Academia da língua basca de unificar as regras de grafia do basco. O que você chama dialectos, que são formas parecidas de falar o basco continuam a existir. Este processo de fazer uma norma que se aplique à totalidade dos falantes existe em todo o lado. Era como comparar o acordo ortográfico com a invenção de uma língua. Num livro sobre os bascos editado pela L’autrement, Bernardo Atxaga tem uma genial descrição do processo de criação desta língua que “não tinha lugar na corte”.

  4. luis naves diz:

    muito interessante, mas é pena não ter desenvolvido a ideia. conheço outros casos, mais no leste europeu, onde as línguas foram “aperfeiçoadas”, num sentido mais nacional. O seu excelente post suscita-me o seguinte comentário: provavelmente, no século XIX, ter uma identidade nacional forte e distinta dos vizinhos era mais importante do que o incómodo de mudar de língua. diga-se de passagem que a mudança de língua foi muitas vezes imposta pelas elites. criaram-se também poderosos mitos (o mito do romeno ser uma língua latina, por exemplo). mas no século XXI as coisas parecem diferentes e mais complexas: em vez da pureza, assistimos à miscigenação.

  5. timshel diz:

    um belo texto

    devia tirar todas as consequências, nomeadmente as políticas, deste texto

  6. Antónimo diz:

    Luís Naves já deve ter dado por o ele mas anda aí nas livrarias, recém-editado, o Mito das Nações, de Patrick Geary. A tónica cai muito sobre o Leste. E lembra até como os portugueses e os kosovares podem estar mais aparentados do que se imagina, via bárbaros vândalos.

  7. António Figueira diz:

    Obrigado a todos pelos comentários.
    Luís Naves: A prática do “aperfeiçoamento” nacional das línguas, como lhe chama, foi de facto generalizada, na Europa Central e Oriental, durante o século XIX e até inícios do XX (a norma escrita do lituano moderno, por exemplo, só ficou estabelecida há pouco mais de cem anos). Em todo o lado o processo foi mais ou menos o mesmo: poetas e filólogos iam supostamente beber à pureza dos falares rurais, que depois codificavam em línguas mais ou menos inventadas, que serviam de bandeira aos movimentos nacionalistas e que depois, nos locais onde esses movimentos conseguiram obter a criação de Estados nacionais, contavam com os aparelhos de Estado para serem impostas à generalidade da população. Toda a questão está, bem entendido, em saber se esses sábios acordaram velhas nações do seu sono ancestral ou não contribuiram sobretudo para a criação de um arsenal de mitos destinados a justificar a existência de novos Estados. Distinto desse processo são os caso de mudanças de língua (como o finlandês), que parecem ocorrer sobretudo por uma consideração de interesses das élites locais (por exemplo, a burguesia flamenga, na sua esmagadora maioria francófona até há três gerações, é hoje neerlandófona em igual percentagem, provavelmente para não se excluir do jogo político regional) ou situações em que uma língua ganha “afinidades electivas” com outras também por considerações políticas (caso, como disse bem, do romeno, ou mais recentemente do turco, que com o Kemalismo sofreu uma purga oficial de palavras de origem árabe ou persa, para importar outras das línguas ocidentais). Sem querer ser chauvinista, tudo isto são exemplos retirados do etno-nacionalismo europeu moderno, que pouca ou nenhuma aplicação têm (felizmente) nos Estados-nação da Europa Ocidental (excepto no caso de reivindicações periféricas, do tipo basco ou corso) e são insusceptíveis de se verificar em países com trajectórias de construção nacional semelhantes à nossa.
    Timeshel:
    Há evidentemente consequências políticas a tirar de factos semelhantes aos descritos: pela minha parte, tenho uma alergia visceral a processos de construção nacional baseados na identidade étnica e não na ideia republicana de uma nação cívica; mas como disse antes, preferi concentrar-me nos processos mentais inerentes a estas situações e não na sua dimensão política.

  8. Andre diz:

    Bem, nao sou um linguista e o meu basco nao está muito afinado, mas pelo que sei os falantes de alguns dialectos acham muitas vezes outros dialectos nao inteligiveis. A variedade será maior e incomparável ao Portugues/Brasileiro ou Espanhol/Mexicano.
    Nao sendo especialista, acredito que de facto a variabilidade nao será identica ao Galego/Portugues/Castelhano, mas nao se poderá comparar a um acordo ortográfico.
    Aliás o Batua é baseado principalmente num dos dialectos (sao uns sete-oito) e por isso muitos falantes dos outros dialectos nao concordaram com esta unificacao e ela só foi aceite devido à logica de que se nao fosse realizada, os dialectos todos acabariam por desaparecer em favor do castelhano. Acharam entao que o mal menor é falarem uma outra coisa que apesar de diferente, sempre é basca e nao espanhola.

  9. manuela diz:

    A mesma situação do basco está a ocorrer com o crioulo cabo-verdiano, provavelmente surgirá uma norma de compromisso entendível e aceite por todos os falantes.
    E no fundo também é em certa medida o que está a acontecer com as tentativas de unificação gráfica do galego, embora seja um caso um tanto mais melindroso. Uns são mais ‘lusistas’, outros mais ‘galeguistas’.

  10. Gostava de ler desenvolvimento do teu post, mas agora sobre o português.. claro que não em relação ao século 19 e seus surtos nacionalistas, folcloristas e românticos, mas um pouco mais atrás. Falávamos português na cama, para usar a tua feliz expressão? Que português? Mais: hoje, falamos português na cama? Qual? Há sempre um certo perigo em “acusar” os outros de inautenticidade, porque implicitamente nos elegemos em autênticos. A não ser que façamos um “disclaimer” sobre isso… Just a thought…

  11. Luís Lavoura diz:

    Já agora, e segundo li, processo similar ocorreu com o moderno hebraico, que não passa de uma língua inventada e aperfeiçoada a partir daquela em que alguns textos bíblicos foram escritos, com o fim de servir a um projeto nacionalista.

    O mesmo, aliás, que a estrela de David, que nunca foi símbolo do povo judeu nem do rei David – não passa de uma moderna reutilização de um símbolo tradicional em toda a região do Médio Oriente.

  12. P.Porto diz:

    Fica então claro que o brio nacional também pode levar à promoção da identidade linguistica pela via da ‘invenção’ de uma língua. Boa ideia.

    Já agora, fica a ‘encomenda’ de um texto sobre o reverso do que expôs, isto é, o linguicídio. Por exemplo, o linguicídio das linguas do sul de França, ou o ainda recente linguicídio do Português em Olivença.

  13. António Figueira diz:

    Miguel,
    Desculpa o atraso na resposta, trabalho a mais. “Inautenticidade”, “autênticos”… Acho que não usaria essas palavras. Que o nosso processo de construção nacional se fez na longue durée, de forma sedimentar, e que foi o político que segregou o étnico, ao contrário do que se passou nos processos acelerados de etno-génese da Europa Central e Oriental nos sécs. XIX e XX (e em Israel – o Luís Lavoura tem razão – que se inspira neles directamente), que por comparação parecem daqueles filmes do início do cinema, com menos imagens por segundo – isso parece-me um facto; simplesmente, esse facto torna-nos diferentes, mas não nos torna ontologicamente melhores (mais “autênticos”) que os outros; mais: uma nacionalidade mais “natural” e menos “inventada” que outras pode ter efeitos colaterais negativos – e como sabes há, por exemplo, muito boa gente a pensar (e a escrever) que o facto de não ter sido necessário que o aparelho escolar ensinasse às crianças uma língua que lhes era estrangeira foi um dos factores responsáveis pelo facto de o analfabetismo português ser historicamente superior ao dos países com que nos podemos comparar. De resto, a “nação cívica” é um conceito de facto, mas é também um conceito normativo, e que é preciso manipular com cuidado: neste último sentido, é preciso ter sempre presente que a “nação cívica” constitui um horizonte teórico e que seu estado “puro” não tem, nunca teve e se calhar nunca terá realização histórica; todas estão “manchadas” de etnicidade e é preciso perceber esses limites sob pena de também não percebermos o seu potencial efeito opressor.
    P.Porto:
    O “linguicídio”, por acção voluntária e premeditada do poder de Estado, é evidentemente uma violência altamente condenável; o mesmo “linguicídio” como efeito espontâneo da vida social pode dar pena, mas mais nada: obviamente, nenhuma língua, nenhuma cultura se pode julgar com direito a ser eterna.

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