Não estão reunidas as condições

No aconchego da cama, descubro pela janela mal fechada que já há luz lá fora, e barulho, são os economicamente activos que vão procurar o pão nosso de cada dia (deles). Eu cá sou um simples funcionário, já estou com os pés para a reforma, não tenho cabeça para tanta agitação: o meu problema são os nervos.Tento outra posição, e tenho para mais um quarto de hora. Um homem tem que se defender. Por princípio, não gosto de misturar trabalho com serviço: nunca trabalho nas horas de serviço, nem trato de questões de serviço quando estou a trabalhar: não é para isso que me pagam. Arranjei uma casa perto da minha querida repartição para poder saír atrasado mais tarde. No computador, instilo literatura de péssimo recorte na chatice dos processos, agentes provocadores da mais pura confusão, flores do esterco só para narizes aventureiros (“só para clientes habituais”, seulement pour des lecteurs avertis). Não estão ainda reunidas as condições para eu render no meu posto de trabalho, e se Deus quiser nunca hão-de estar. As impurezas nos líquidos, as imprecisões nos planos, as conspirações da realidade para nos lixar multiplicam-se (segundo fontes geralmente bem informadas, o próprio whisky anda marado). Respondo a esta ofensiva do real fornicante fornicando eu próprio, de preferência muito. Não penso noutra coisa. À minha volta, o mundo parece desfazer-se, numa espécie de apocalipse ainda sem cantores; no país, na velha pátria patriótica de Gamas & Albuquerques, PS e PSD e PSD e PS sucedem-se numa rotação vertiginosa, que me deixa tonto. Tento seguir a novela, mas não percebo a história e rapidamente perco o interesse. Quem não gosta do que lê tem de escrever para si próprio. Como li em qualquer lado que a maturidade literária só chega quando deixamos de querer contar a nossa história aos outros (que de resto pouca atenção lhe prestam) e registamos antes as deles para nosso benefício, evito os pensamentos para mim próprio e similares. Obnubilado por tanto objectivismo e alteridade, regresso às artes da cama, que são as que mais conheço e pelo meio escrevo resmas de papel: introduções, primeiros capítulos, sonetos breves, listas de supermercado, tudo fugaz, tudo aéreo, tudo bom para o lixo. A chatice das performing arts é que, por muito bons que sejamos, nunca ficamos num museu, como se por exemplo pegássemos um urinol e lhe chamássemos escultura, ou escrevêssemos um longo livro, daqueles que custam a escrever mas se lêem a correr e deixam o público admirativo e invejoso. Artistas como nós, demoram séculos a entrar para a posteridade, mas eu cá tenho bom perder: fica para uma próxima encarnação.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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2 respostas a Não estão reunidas as condições

  1. diz:

    mas ninguem quer saber

  2. António Figueira diz:

    Queres tu, Zé, obrigado por teres aparecido.

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