Donald Judd, Warhol e Jeff Koons

 

Obras de Koons, Warhol e Donald Judd

Manifestou-me o leitor GL um grande interesse por Koons. Tal levou-me a este breve apontamento, revisitando alguns tópicos das vanguardas de 60 a 80.

Jeff Koons é um artista extremamente interessante quando olhado como sintoma, sintoma de uma ordem política e económica muito da responsabilidade dos senhores abaixo referenciados: Reagan e Thatcher. Quando Koons disse que tinha inventado o “luxo proletário”, estava a falar muito a sério, ou seja, estava a dizer-nos que, enquanto artista, era uma ressonância do “capitalismo popular” reaganómico. Koons vem na sequência de uma nova arte do objecto desencadeada pelo minimalismo década e meia antes: pelos idos de 60 e 70. Mas, há uma diferença: o minimalismo acreditava numa mitologia da vanguarda ou neovanguarda, uma mitologia que ainda julgava ser possível opor a neovanguarda à indústria cultural. Koons vem dizer, claro, que essa esperança está definitivamente morta. Mas Koons é também filho de Andy Warhol, pois também este jogou numa “starização” do objecto e do artista como “objecto e máquina”, dizia. A ideia de máquina é herdada do minimalismo, de Donald Judd, nomeadamente, que considerava as suas obras nem esculturas nem pinturas, mas antes “objectos específicos” (sem narratividade, sem psicologismo, etc). Mas Judd corta com o psicologismo, com a narratividade, com o valor de uso e a funcionalidade, enquanto Koons quer recuperar uma (sua, outra) narratividade: a de que a aura pode ser ilusoriamente barata (o objecto parece banalíssimo), mas acaba por se reinscrever por outra via, a cotação não se dissolve. Nem em Warhol, que sempre trabalhou no fio da navalha, angustiado entre a vanguarda, a marginalidade e o consumismo eufórico. Mas neste predomina a marginalidade, a angústia e a morte: esta é o tema de toda a obra de Warhol – a morte, os desastres, a sombra, as polaroids screen test como figurações do que desaparece súbito e com patine mortuária, sempre. Enquanto isso, Koons quer celebrar o que angustiava Warhol. Desde sempre o mais angustiado dos artistas.

Koons estará para os anos 80 como Matthew Barney para os 90. Este já é outra história. Este vai buscar temas a Beuys e ao seu irracionalismo, mais a Beuys e ao seu misticismo do que à “starização” de Warhol. Barney, como Beuys, acredita, simula e teatraliza o xamanismo. O erro estava, suponho, mais em Beuys, que acreditava mesmo no xamanismo, no xamanismo como lugar do artista-demiurgo. De todos, prefiro o carácter fúnebre de Warhol, que me aparece cada vez mais como um dos artistas essenciais do século XX.

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